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terça-feira, 12 de maio de 2026

Ainda não é o Apocalipse

  

 Sei que não é da cultura blogueira, escrever e nem ler postagens longas.
 Mas escrevi esse conto e achei que deveria compartilhar com vocês, amigos.
 Acho que vão gostar. 




 
            Agnaldo nasceu e sempre viveu na favela do Cruzeirinho.
            Em sua cabeça não existia uma lembrança de criança que não contenha as ruas, as casas, as pessoas da favela.
            Ele e seus amigos correndo descalços, jogando bola em ruas de terra batida, desviando de poças de água de esgoto, que corria a céu aberto.
             De vez em quando a polícia era chamada, porque alguém encontrara um corpo em algum terreno baldio, ou já fedendo em algum dos barracos.
            Quando estava na adolescência, Agnaldo ajudou seu pai em várias obras pela cidade, trabalhando como ajudante de pintor de casas.
            Seu pai era o que popularmente e pejorativamente se chamava de — pintor meia-boca —, não era ruim e nem tão bom.
            Por isso nunca pegava as obras para administrar. Sempre trabalhava para alguém.   
            Entre idas e vindas trabalhando com seu pai, Agnaldo arrumou tempo para bater carteira, traficar, ser detento na Febem, ser cafetão de Isadora e Cyntia. Vender muamba do Paraguai, assaltar velhinhas e novinhas, até que um dia conheceu Jussara.
            Conheceu, namorou, fez sexo e mais sexo e virou pai.
            Olhando sua ficha corrida, um desavisado pode achar que ele tentava sobreviver da forma que sabia.  
            Depois que sua menina nasceu, ele resolveu tentar viver como um homem de bem.
            Trabalhou em uma barraca na feira, entregou jornal, aparou jardins, entregou lanche e marmitex e trabalhou de frentista de posto de gasolina.
            Tentou, mas seu jeito bruto e pouca escolaridade não o ajudavam muito.
            Jussara estava na terceira gravidez.
            E os problemas, de repente se amontoaram em sua cabeça.
            Aluguel, supermercado, água cortada, luz — gatificada e descoberta pelo vizinho.
            Tudo andava muito mal, então ele resolveu voltar a roubar.
            Agnaldo encontrou a vítima ideal, uma loja de roupas bem movimentada em frente a praça São Geraldo, perto do centro de Santana.
            Ele estava vigiando a loja há uma semana.
            O dono, que ele descobriu que se chamava Osmar, já tinha uma certa idade e sempre ficava sozinho no final do expediente.
            Esse Osmar, era um homem de 75 anos, alto, magro, de aparência tranquila e cordial. Era dono da loja: “Pague Pouco” há 40 anos.
            Sua veia comerciante, herdou de seu pai Juares, que também era comerciante e ensinou tudo o que sabia a Osmarzinho.
            Ao lado da loja Pague Pouco existe a igreja evangélica: Cristo é vida, onde o pastor Medeiros pastoreia cento e poucos membros fiéis.
            A obreira mais querida da igreja era Ana Cláudia.
            Baixinha, atarracada, com sorriso fácil e olhar atento às pessoas, ela era dedicada aos irmãos da igreja e o braço direito do pastor.
            Limpava a igreja, fazia compras, trabalhava na secretaria, cozinhava nos eventos e ainda fazia parte da recepção dos irmãos nos dias de culto. Fazia tudo voluntariamente e não aceitava nenhum tostão em troca.
            Na praça em frente à igreja, quando anoitecia, prostitutas, travestis, traficantes e usuários, faziam dali seu habitat, sem se preocuparem se estavam sendo observados ou não, pelos fiéis da igreja.
            Seu Osmar, como era o mais velho do quarteirão, acabou sendo "eleito", um tipo de síndico.
            Todos vinham reclamar com ele quando se sentiam ofendidos, como se ele pudesse fazer alguma coisa.
            Os irmãos da igreja reclamavam que a prostituição estava fazendo daquele lugar um inferno.
            As prostitutas e travestis reclamavam que a igreja estava tentando transformar esse inferno em um céu e que eles não queriam isso.
            Seu Osmar passava apertado com essa guerra e tentava socorrer dos dois lados, sempre tomando cuidado para não tomar partido.
            Agnaldo, decidido, com um revólver carregado na cintura, estava à espreita. Ele esperava o momento ideal para render o velho Osmar e roubar a loja.
            Durante toda a tarde andou pela praça sem dar pinta de suas intenções.
            Viu a Igreja acender as luzes e abrir seus portões.
            Viu as prostitutas, travestis e clientes começarem a transitar pela praça.
            Até que finalmente percebeu que seu Osmar estava sozinho na loja, quase na hora de encerrar o expediente.
            "É agora ou nunca" — pensou Agnaldo, que estava em um banco na praça ao lado do ponto de ônibus procurando encontrar coragem.
            Ele verificou as balas de sua arma, colocou-a dentro da jaqueta jeans e atravessou a rua.
            Quando estava quase no meio da rua e se preparando para sacar a arma, aconteceu o inesperado.
            Um apagão...
            Tudo escureceu, o mundo ficou na penumbra, São Paulo virou um breu.
            Apenas as lanternas e faróis de alguns carros iluminavam de vez em quando a rua.
            Ana Claudia, que estava na frente da igreja, correu para a porta da loja gritando:
            — Seu Osmar, a força acabou aí também? Parece que acabou na rua inteira.
            Nesse momento Agnaldo acabou de atravessar a rua e chegou à porta da loja junto com Ana.
No mesmo instante, Miguel, também conhecido na noite por Michaela, atravessou a rua correndo e entrou na loja:
            — Aiii seu Osmar, que escuridão! Cruzes! — exclamou o travesti se abanando.
            — Parece que esse apagão é dos grandes, — respondeu o velho Osmar — olhando ao longe e percebendo que não havia sinal de eletricidade.
              Oi mocinho! — falou Michaela olhando Agnaldo de cima abaixo.
            — Oi amigo... — respondeu Agnaldo numa tonalidade não muito amigável.
            — Nossa, que sério!
            — Parece que acabou a força no bairro todo. — falou Ana olhando para a rua.
            Seu Osmar, vindo de dentro da loja com o celular na mão e com as chaves da loja já enfiando na fechadura da enorme porta de vidro, avisou:
            — Aqui no radio tá falando que é um apagão gigantesco, igual aquele que ia dar no governo do Fernando Henrique, vocês se lembram? Parece que a coisa é feia. A cidade inteira parou.
            Quando viu Agnaldo parado na porta da loja, seu Osmar perguntou:
            — Oi rapaz, me desculpe, eu não vi você aí, precisa de alguma coisa? Eu tenho visto você aqui pela rua sempre, e sempre olha com carinho pra minha loja.
            — Com carinho mesmo senhor, eu vejo que sua loja tem um bom movimento. — respondeu                     Agnaldo já pensando que seu golpe tinha ido por água abaixo. Como roubar essa loja se o dono já tinha até percebido a presença dele olhando para sua loja? E com carinho...
            Nisso atravessa a rua toda afobada, Valdirene, uma prostituta antiga ali da área.
            — Ai gente! Estão falando que é um brêcauti! Que a energia do mundo está acabando, por causa da camada de “ozonho.”
            — Larga de ser boba menina, hahahahahahahaha, camada de “OZONHO.” — gargalhou Michaela. — Que puta burra.
            Todos se esborracharam de rir.
            — Osmarzim — irritou-se Valdirene — você vai deixar essa bicha me chamar de puta!
            — Olha Val... Eu acho que nessa briga aí, eu não tenho lugar de fala.
            — Bobagem Valdirene! Eu falei puta no sentido carinhoso! Nossa putinha mais velhinha e lindinha.
            — Vocês duas são engraçadas. — falou Ana Claudia dando risada.
            — Onde você ouviu falar que o blecaute tem a ver com a camada de ozônio, Valdirene?
             O Adão pingaiada, disse que escutou no rádio.
            — Ah... Agora está explicado — caçoou Osmar — o Adão bebinho, que não sabe nem onde está a própria cabeça? Só você mesmo, Valdirene.
            Nisso, vendo a movimentação na porta da loja, o pastor Medeiros veio ver o que acontecia com aquela turma que se esborrachava de rir.
            — O que está acontecendo aqui gente?
            — Fala pra ele Valdirene.
            — Eu não! Ele já acha que eu sou do capeta. Não vou dar motivo pra esse chato rir de mim.
            — Hahahahahahaha, (seu Osmar se contorcia de dor na barriga de tanto rir), conta pra ele mulher!
            — É que o Adão pingaiada, falou que a camada de “ozonho” fez as lâmpadas apagarem e a força acabar. E esses bobos estão rindo. Mas o Adão falou que escutou isso no rádio!
            — O Adão andarilho que mora no banco da praça?
            — Ele mesmo.
            — Que maluquice. Isso não existe irmã. E eu não acho que você seja do capeta, como você disse. Eu só acho que a forma que você e esse rapaz ganham a vida, uma forma errada.
           — Opa! Rapaz não senhor! Eu sou mulher, me respeita por favor! Eu só nasci num corpo errado!
          — Calma gente, — pediu Osmar apaziguando —   vamos fazer uma trégua hoje, que temos visita aqui. — apontou para Agnaldo que também sorria da situação.
            — Não irmãozinho, eu não vou te criticar. É que para mim é difícil te chamar de moça.
            — É bom mesmo pastor, porque o senhor nem sabe que eu crio dois meninos adotados e a Valdirene, cuida da mãe e da tia idosas com o dinheiro que a gente ganha aqui no “job”.
            — Mas não dá pra trabalhar com outra coisa?
            — Quem vai contratar um veado e uma puta velha seu pastor? Aqui não é o céu não viu!
            — Mas vocês têm que entender que eu não posso apoiar a atitude de vocês.
            — Mas o senhor tem que entender que nós temos que sobreviver e o que a gente sabe fazer é isso.
            — Eu não sabia desse negócio de criar filhos adotivos, e nem de você Valdirene, cuidar da sua mãe e tia idosas.
            — Se vocês quiserem uma ajuda da nossa igreja — falou Ana Cláudia se condoendo da situação — a gente tem várias cestas básicas que a gente distribui todos os meses. Podemos ajudar também. Mas logicamente que vocês têm que parar com essa vida.
            — Não estou pedindo esmola, moça!  — respondeu Michaela ríspida — eu acho que vocês têm mais é que respeitar a gente e a gente respeitar vocês. Cada um no seu quadrado!
          Percebendo que o clima estava ficando tenso, Osmar falou:
          — E aí meu rapaz, como é seu nome?
          — Agnaldo.
          — Não ligue pra esses aqui não. Eles não se entendem nunca.
          — Estou vendo mesmo. — respondeu Agnaldo sorrindo.
          — Seu Osmar — interrompeu Valdirene entrando no assunto — cadê seu carro pro senhor levar a gente embora?
          — Ih, Valdirene... Nem te falo. Minha esposa está com Alzheimer e eu já gastei tudo o que pude e o que não pude com ela...
            Agnaldo aguçou os ouvidos nessa parte.
            — ... e eu tive que vender duas casas que nós tínhamos de aluguel e meus dois carros. Como é só eu e a velha, nós não temos filhos, eu tenho que cuidar dela, pagar uma empregada, pagar home care, e ainda cuidar da loja.
          O pensamento do Agnaldo martelou sua cabeça, como um juiz implacável o condenando.
          — As coisas estão difíceis amiga. — concluiu Osmar.
          — O senhor não contou nada pra gente! — exclamou Michaela.
          — É que vocês são tão bons pra mim. Sempre companheiros e amigos aqui na
rua, que eu não quis deixá-los preocupados.
            O pastor Medeiros e a irmã Ana Claudia escutavam seu Osmar e não entenderam que eles, como crentes e amigos de Osmar, nunca perguntaram nada sobre a sua vida.
          — Mas eu estou orando a Deus para que me mande um rapaz de bom coração, para eu ensinar a trabalhar e me ajudar aqui na loja. Mas ninguém aparece para pedir emprego, e as moças que trabalham comigo não vão dar conta. Tem que carregar peso, levar e buscar coisas nos bairros. Não é fácil.
          Então Agnaldo interrompe seu Osmar:
          — Mas é por isso que eu estou rondando sua loja, para pedir emprego! Só que só tomei coragem hoje.
          — Esse apagão pode ser um sinal de Deus para o senhor, seu Osmar. Porque trouxe esse moço e a gente aqui para testificar como Deus é grande, e como ele faz as coisas! — profetizou Medeiros.
          Seu Osmar pensou um pouco, coçou a nuca, pensou mais um pouco, coçou mais uma vez a nuca, e falou:
          — Puxa vida Agnaldo, pode ser mesmo.
          — Que bom seu Osmar, o senhor parece um homem muito bom.
          — Se você vier aqui amanhã, a gente pode conversar direito e se a gente se entender, você pode começar a trabalhar aqui na loja comigo.
          — Só que eu não tenho experiência com comércio seu Osmar.
          — Tudo na vida a gente aprende Agnaldo.
          — Que bom! — falou Ana Claudia. — Essa nossa reunião aqui está muito boa mesmo! Eu nunca tinha conversado com vocês dois, — observou, apontando para Valdirene e Miguel — e se não fosse esse apagão talvez a gente nunca conversaria.
          — Ficamos sabendo das dificuldades do seu Osmar, que é nosso paizão, e ainda arrumamos emprego pro Agnaldo! — completou Medeiros. — Essa vida é engraçada mesmo.
            — Engraçado é eu acreditar no Adão pingaiada. — respondeu Valdirene. — A vida é linda! Será que vocês aceitam eu e a Michaela de vez em quando no culto da igreja?
          — Lógico que aceitamos! — respondeu o pastor Medeiros, dando uma medida
em Michaela, de cima abaixo. — mas...
          — Hahahahahahahaha, tudo bem pastor, eu entendi o olhar, quando eu for na igreja eu vou de machinho.
          O apagão continuou por horas e horas, o metrô parou, os taxis pararam por medo de pegar alguém perigoso, os ônibus trabalharam em lotação máxima, a superlotação deixou pessoas ilhadas nas ruas.
Muita gente não voltou para casa naquela noite.
Foram do serviço para a rua e os que moravam muito longe, resolveram voltar da rua para o serviço no dia seguinte.
Mas...
            No dia seguinte o sol raiou novamente e o mundo voltou a funcionar.

            Afinal, ainda não era o apocalipse.

         

       

segunda-feira, 9 de março de 2026

Tic-tac



Acorda cedo.
O relógio acorda depois.
Lavar rosto, tomar café, dar um beijo na esposa.
Afago no filho.
Minutos se passam.
Rua, trânsito, ônibus, metrô...
Horas se passam.
O relógio de ponto diz: — Obrigada!
Seria uma relógia?
Besteiras na cabeça.
Trabalha.
Trabalha.
Trabalha.
Horas se passam.
Chega o almoço.
Minutos se passam.
O relógio de ponto diz: — Obrigada!
Será que colocaram essa voz feminina para as regras ficarem mais doces?
Trabalha.
Trabalha.
Trabalha.
Horas se passam.
Hora de ir para casa.
Rua, trânsito, ônibus, metrô...
Horas se passam.
Janta, TV, beijo na esposa.
Afago no filho.
Minutos se passam.
O olho fecha, o olho abre.
Acorda cedo.
O relógio acorda depois.


quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

SAC





Se quiser falar em contas a pagar, digite... 1.
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KXJNXWHDWOIWEIUHDM aaaaaaa... alô!? 
Tuuuu, tuuuu, tuuuu, tuuuu...


segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Bem-vindos


Vamos fazer uma postagem interativa?
Eu vou dar uns detalhes e vocês usam suas imaginações.
Imagine uma pessoa falastrona. Tentando ser simpática como um desses apresentadores de circo. 
Imagine ele com feições e risadas sarcásticas. 
Agora imagine ele saindo das sombras. Emergindo da penumbra e oferecendo algo bem pertinho do seu ouvido. 
Imagine ele oferecendo isso pra alguém que você ama muito, seu filho, seu irmão, sua namorada. 
Imagine que ao fitá-lo nos olhos, você percebesse algo de diabólico no olhar desse ser. 
Imaginou tudo isso? Então boa leitura.
  



— Olá rapaz, olá senhorita! Bem-vindos ao novo mundo! Um mundo de alegrias, conquistas, status. Olá rapaz, olá jovenzinha! Eu lhes apresento aqui e agora o divertimento... O divertimento! A saciedade de emoções. As luzes que piscam! O desprendimento da realidade que lhes oprime. Nada mais vai te oprimir, basta você me deixar te ajudar. Pois, com uma pequenina porção dessa maravilha você vai se transformar, vai ficar forte, ágil, destemido e corajoso. Você vai deixar de ser triste, vai deixar se ser tímido, vai deixar de se esconder! Você vai se surpreender, vai fazer coisas que nem sabia que era capaz. E essa transformação talvez dure até a noite toda! Isso... Talvez dure até a noite toda! Mas não se preocupe meu rapaz, não se preocupe linda garota, pois quando o efeito acabar eu não os abandonarei! Agora essa maravilha toda lhe custará bem pouco. Agora lhe custará pouco! Depois, talvez, mas só talvez, poderá lhe custar a eternidade. Mas me responda: quem lhe garante que existe eternidade? Bem-vindos ao novo mundo!


segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Gatilho legalizado



 

O álcool em gel foi incorporado à nossa vida.
Para ser politicamente correto, ele usou.
Sem perceber... 
Cheirou.
Sua boca encheu d'agua.
Seu pensamento dispersou.
Voltou a dias turbulentos.
Mais um dia — ele pensou.
Antes, ele era bom.
Mas era ruim.
Bom para ele.
Ruim para todos.
Bom para ele?
...
Mesmo?
...
Ruim para todos.
Sim.
Ruim para todos!
O jeito, era não cheirar mais o álcool em gel.
Porque um dia o álcool ganha.
E hoje... É mais um dia.
Limpo.


sexta-feira, 21 de novembro de 2025

Escuridão

 

Debaixo daquela ponte, o clarão de um cachimbo de crack. 
A cada clarão, o vício ganha vida, e a vida ... 
... se apaga.
A escuridão sorri, ela ganha mais uma alma.
A alma chora, saboreando um prazer inexistente.


quinta-feira, 30 de outubro de 2025

As rua engole



 

Ele tava no corre.
Entregava marmita, Ifood, pagava boleto nos banco e fazia uns bico de moto-taxi.
Ele já não era mais moleque. Tinha trinta e pouco.
Mas depois que a firma faliu ele teve que se virá, porque tinha que pagá a pensão da menina e ajudá cas conta da casa da ex-mulher.
Ele tentô otros trampo, mas ninguém tava contratâno.
Mandô currículo, conversô, mas as porta tava fechada.
No começo ele estranhô.
A vida nas rua é diferente.
Conheceu uns mano do corre.
Uns só trabalhava mêmo.
Otros fumava uns baseado pra passá o tempo, enquanto esperava as corrida dos aplicativo.
Outros fazia uns aviãozinho pro tráfico.
Isso ele nunca fez.
Ele começô a comer marmita entre um corre e outro.
Depois ele começô, — quando dava — comer uns salgado.
Depois só tomava café e fumava um baseado junto com os mano.
Mas ele não era desse tipo. 
Não era bruto.
Não precisava entrá na onda dos irmão errado.
De vez em quando ele lembrava que tava com fome.
Trabalhava desde cedo até as onze da noite.
A moto de vez em quando furava o pneu e ele de vez em quando passava mal.
De vez em quando ele vomitava.
Um dia vomitô sangue.
Sentia tontura.
Quando sentia tontura ele comia um doce ou tomava café.
Os dia foram ficano ruim pra ele.
Pediu dinheiro emprestado pruns cara errado.
Pagô, mas levou um pau uns dia antes, porque tava atrasado.
O médico disse que a pressão dele tava muito alta.
Disse que tava desnutrido e com falta de várias vitamina.
O médico disse que ele tava com infecção na urina. Acho que é assim que fala.
Disse que era magro demais, e que mesmo assim a diabete tava quase pegano ele.
Acho que era um lance de hormônio e falta de dá umas dormida.
Ele só pensava no corre.
Parece que a rua engoliu ele.
As rua não é fácil...
Eu até acho que ele tava com pobrema de cabeça.
Podia sê a canceira.
De vez em quando ele falava do trabalho antigo.
Da ex-mulher.
Da filha...
Chorava.
Mas não podia pará de fazê as coisa.
Os corre loco das rua.
Ele tinha que pagá a pensão em dia, senão a Maria mandava os home atrás dele.
Um mês ele atrasô.
Dormiu na cadeia três dia.
Até os mano do corre se juntá e ir lá tirá ele.
Pagaro a pensão e ele foi liberado.
Hoje ele tava locão! Foi entregá quatro café da manhã, foi pagá boleto em cinco banco, depois foi entregá várias marmita, e quando encostô pra trocá ideia co's mano do corre, as três da tarde, ele disse que tudo tava ficano preto.
Deu tontura.
Uma sede que ele não aguentava.
Bebeu quase um litro d'agua.
Caiu duro no farol.
Um cara chamou o SAMU.
Mas não deu mais tempo.
Agora ele não tá mais no corre.
Acabô.
Foi conhecê Jesuis... 


quinta-feira, 9 de outubro de 2025

Pequeno manual prático, para poder viajar feliz



 
Você tem que nascer, tem que crescer, estudar, brincar, adolescer, aprender a amar, aprender a trabalhar, continuar a estudar.
Você não pode magoar ninguém, não se magoar com ninguém, ser inteligente, interessante, descolado, casual — uma pessoa legal.
Você tem que orar, rezar, batizar, crismar (ou não), ir à missa, ir ao culto, acreditar em Deus, acreditar na vida, nas pessoas e no coração das pessoas.
Você tem que acreditar nos políticos, nos patrões e nos padrões.
Padrões da vida, da moda, do pensamento, do momento, das gerações.
Tem que entender o culto ao corpo, o culto ao "ter" e mesmo entendendo, você tem que tentar ser... antes de ter!
Você tem que plantar uma arvore, fazer uma casa, escrever um livro, adotar um animalzinho, um cãozinho ou um gatinho, tem que ser gentil, sorrir, falar bom dia, boa tarde, boa noite, durma com Deus!
Falar "saúde", quando alguém espirrar perto de você, e falar obrigado se alguém falar "saúde" quando você espirrar.
Você tem que ser competitivo, tem que dar lucro, tem que se adequar aos padrões da empresa, tem que faturar em prol do grupo.
Você tem que vestir as camisas: do seu serviço, da sua família, do casal, do bairro, da cidade, do país...
Você tem que ir a palestras motivacionais, pois apesar de todas serem iguais sempre alguma coisa é diferente e você tem que se diferenciar.
Você tem que se emocionar com pequenos gestos, tem que fazer grandes gestos, tem que entender pequenos problemas e resolver os grandes sem se descontrolar!
Você tem que se manter “zen” ...
Se alimentar direitinho, de 3 em e horas no máximo, não comer muito carboidrato à noite e beber pelo menos 2 litros d'agua por dia!
Você não pode se embriagar, não pode brigar, não pode discutir, não pode partir para a agressão, nem verbal e nem física. Você tem que ser gentil mesmo onde não cabe a gentileza, você tem que ser sábio mesmo nas horas de burrice em meio aos burros.
Você tem que viver feliz, ser feliz, fazer os outros felizes, seus pais, irmãos, amigos, parentes, conhecidos e desconhecidos...
Você tem que envelhecer feliz e viver bem. Amar seus pais e fazê-los orgulhosos de você existir, amar seus filhos e fazê-los orgulhosos de serem seus filhos, amar seu cônjuge e fazê-lo orgulhoso de ser seu cônjuge.
Essa é uma fórmula muito simplificada do que você tem que ser, conquistar e viver, mas no final de tudo, quando você for viajar daqui pra sempre, no final da sua vida, existem ainda mais duas coisinhas que são muitíssimo importantes e que você não vai poder se esquecer de fazer:
Não esperar reconhecimento de ninguém e morrer...



segunda-feira, 8 de setembro de 2025

Balaios e botões

 

Brasil, oito de setembro de 2025

Zéfa pegou a trouxa de roupas, colocou em um balaio e num galeio só, colocou o balaio na cabeça.
Da casa dela até o barranco do riacho eram quinhentos metros.
Ela levou sabão de cinzas e uma garrafa de café.
Chegando no riacho, Zéfa começou a lavar suas roupas e cantar músicas do terreiro do Zé Modesto, painho de reza.
Logo recebeu a companhia de Gertrudes e Maria Onorina, que também chegaram com seus balaios.
Onorinha trouxe biscoitos de polvilho, que no norte, tem o nome de "mentira", porque parece um pão de queijo, mas não tem nada a não ser: polvilho, água, sal e óleo.
Gertrudes trouxe cuscuz com ovo.
As amigas lavaram suas roupas, cantaram, tomaram café, comeram seus quitutes, deram boas risadas, fofocaram muito, e logo, voltaram para suas casas contentes, para fazer o almoço para seus maridos, que voltavam da roça.
Alessandra levou as roupas sujas até a lavanderia e colocou na máquina de lavar.
Apertou um botão.
Enquanto a máquina fazia seu serviço, ela pediu uma marmita pelo aplicativo e se sentou à mesa.
Abriu seu celular no Instagram para tentar descobrir as novidades de seus amigos virtuais.
Como é triste a vida de Alessandra. 



segunda-feira, 18 de agosto de 2025

Chatos e rebeldes


Tem uma música da banda Garotos da Rua chamada, "Eu toco Rock". Na letra, o cantor Bebeco Garcia grita cantando — ou canta gritando:
Eu toco Rock!
Eu não do bola pro resto,
pode dizer que eu não presto.
Não tenho nada com isso,
pode dizer que eu sou lixo.
Tá no fim...
... não tem futuro pra mim.
Me trata como bandido.
Me chama de caso perdido!
Prejuizo garantido...


Como é a vida né?


Uma vez na faculdade um professor leu um texto que dizia mais ou menos assim:
Essa juventude não tem vergonha!
É um bando de preguiçoso.
Não respeitam os pais!
Se vestem mal.
São chatos e mal educados.

Um texto normal para nossos dias. Afinal, a gente sempre reclama da juventude. Comparamos com nossa geração e dizemos que os jovens são um bando de frouxos. 

Nutellas! — bradamos do alto de nosso julgamento, como está na moda dizer.
Mas o problema, é que o texto acima, foi extraído de um papiro egípsio anterior a Cristo.
Olha só!

Meu pai era músico. Acordionista. Tocava pra caramba! Tipo fenômeno mesmo.
Tocou com vários cantores, e na época que morava em fazendas, ele era o showman. 
Carregava um baile de 4 horas, sózinho nas costas.
Naquele tempo os sanfoneiros — meu pai dizia acordionista e não sanfoneiro — faziam os bailes sózinhos ou acompanhados de um violão.
Ele tocava músicas "clássicas" para aquele público: valsas, boleros, músicas românticas, chorinhos e conções sertanejas raiz.
Uma vez ele me viu assistindo a um programa que passava na TV Cultura, chamado: Boca Livre.
Esse programa trazia bandas de garagem, punk e pós punk, que se enfrentavam em um festival que durava o ano todo.
Ele achou que eu estava usando drogas!
Falou que aquilo não era "música de gente!"
Ficou puto de raiva!
Ele tinha um sonho de me ver tocando acordeon... Até fiz aulas um bom tempo e até aprendi a tocar algumas músicas.
Mas não deu em nada!
Eu ouço rock e ouço blues.
Setenta por cento de meu tempo músical é escutando esses ritmos.
Na época eu fiquei revoltadinho com a negação do meu pai.

Com o tempo ele acabou aceitando um pouquinho o meu gosto musical.
O gosto dele — eu amava! E ele sabia disso...
Amava ver ele tocando. Realmente era um mestre.
Herdei dele o gosto por música clássica também. 
Chorinho é lindo demais e emociona. 
Banda e orquestra sinfônica também emocionam.
Adoro aquelas bandas de Charleston americamas, com banjo, violão, washboard e metais.

Hoje, eu tento não implicar com meu filho de 13 anos.
As vezes não consigo.
Acho essa geração parada demais.
Temos que falar mil vezes a mesma coisa.
Eles não tomam iniciativa... Mas e nós?
Nós éramos melhores?
Acho que no final, o que vai valer, é a desenvoltura quando as verdadeiras obrigações da vida chegarem.
Agora ele é criança e eu sou chato. Um chato cuidadoso e presente — mas sou chato.

O Bebeco Garcia morreu no começo dos anos 2000.
Nos seus últimos shows ele era considerado um dos melhores guitarristas do Brasil e o melhor no estilo slide.
Ele conseguiu superar seus monstros e os seus próprios julgamentos.
Ele ainda toca rock, mesmo depois de morto. 
Toca na minha vitrola.
Meu filho vai ter a vitrola dele.
E assim a vida vai tendo seu ciclo...
Viver é bom demais — sejamos nós os chatos ou os rebeldes do momento — viver é bom demais.






quinta-feira, 14 de agosto de 2025

Seu Lourenço


Em dez minutos, eu conheci seu Lourenço.
Do nada, após um sorriso simpático, o velhinho de oitenta e cinco anos, me disse que foi criado na roça — sem pai — e quase sem mãe.
Aos seis anos já trabalhava “panhando” algodão. Aos dez, já fumava, e fumou até os vinte e cinco anos! 
Um dia, se levantou da cama e disse pra si mesmo: — À partir de hoje não fumo mais!
Não fumou mesmo, e também, nunca mais tomou café. 
Olha só! 
Ele disse que só o cheiro do café, até hoje — me "volta" na cabeça o gostinho do cigarro.
Seu Lourenço se mudou pra Barretos e começou a trabalhar como pintor de casas. 
Pintou mais de quarenta casas pela cidade, até que um dia, quando foi comprar pinceis em uma loja, conheceu o gerente de uma fábrica de tintas, chamada “Tintas Universo”. 
Seu Lourenço conversou muito com esse cidadão, e até saiu para almoçar junto.
Um belo dia o velhinho leu na Folha de São Paulo, que a Tintas Universo estava procurando um representante de vendas. Com coragem, ele, com pouquíssima escolaridade, trabalhador braçal, sem nunca ter ido a uma cidade grande, saiu de Barretos e foi parar na porta da fábrica de tintas.
Depois de uma tarde inteira de conversas, ele acabou sendo contratado não como vendedor, mas sim, para abrir mercados demonstrando o produto Brasil afora. 
— Quando eu vi que ele não ia me contratá como vendedor, porque ele disse com muita gentileza que eu não tinha estudado, eu falei pra ele que então eu podia demostrá a tinta nas cidades onde eles não tinha cliente.
A fábrica não tinha esse cargo e Seu Lourenço foi um dos primeiros demonstradores de tintas, diretamente de uma fábrica, do Brasil.
Ele me disse que conhece todos os estados do Brasil, conhece tanta cidade que nem sabe a quantidade. 
Trabalhou vinte anos na Tintas Universo e quando ela foi vendida para a Luksnova ele continuou na empresa e dela pulou para a Tintas Ypiranga que era do mesmo grupo, por mais de dez anos. 
Como complemento, acabou também sendo vendedor da massa plástica Iberê.
— O dono da Universo achou que eu não dava certo como vendedor, mas uma vez, eu vendi em um mês mais de vinte mil latas de massa plástica! Mas não posso reclamar. A Universo foi muito boa na minha vida.
— Um dia, comprei um Fusca! — ele falou levantando o dedo indicador e se ajeitando na cadeira. — Mas uns bandidos tentaram me roubar, me cercando na rodovia. Eles estavam agressivos e colocaram um revólver na minha cabeça. 
Eu respirei fundo e calmamente falei para um dos bandidos:
— Pode levar meu carro! Eu comprei ele sem precisar. Quando eu nasci eu não nasci com carro. Nasci antes do primeiro carro chegar no Brasil, então, eu não preciso dele pra nada.
Os assaltantes foram embora sem roubar o Fusca, e na primeira cidade que seu Lourenço chegou, logo deu um jeito de vender o carro e nunca mais dirigiu!
Seu Lourenço voltou pra Barretos depois de se aposentar e hoje mora em uma casa muito boa, num bairro chique da cidade. 
Suas duas filhas moram com ele. Cada uma delas é formada em mais de uma faculdade, e graças a Deus — ele tirou o chapéu quando disse graças a Deus — hoje ele até parece um velhinho, negro, humilde e com cara de pobre, mas a história de vida que tem, é pra poucos!
Em dez minutos conheci seu Lourenço! 
Tem gente que acha que perde dez minutos do dia, conversando com gente assim. 
Eu ganhei! 
Ganhei a oportunidade de conhecer alguém tão legal!
Ah! Seu Lourenço, antes de ir embora, olhou bem dentro dos meus olhos, apertou a minha mão, e sorrindo me deu dois conselhos:
— Menino, não compre nada que não precisar, não compre porque é bonito, ou porque está na moda, só compre quando tiver dinheiro pra comprar. Se não tiver dinheiro, não compre. 
Com o sorriso ainda estampado no rosto, tornou a olhar nos meus olhos e disse o segundo: 
— Quando ficar velho, e estiver perto de parar de trabalhar, seja viciado em palavras cruzadas! Elas não deixam o nosso cérebro enferrujar.
Dizendo isso, virou-se e foi embora. Talvez nunca mais eu tenha o prazer de ver seu Lourenço, mas com certeza, ele sempre vai estar presente. Algum dia, em algum pensamento, em alguma atitude minha ou simplesmente — fazendo palavras cruzadas.






sábado, 28 de junho de 2025

Próximo!!!!




Humberto estava na fila há 20 minutos, quando finalmente uma voz anasalada gritou: 
— Próximo!
Ele olhou pra atendente dando um sorriso simpático e disse:
— Bom dia!
— O que você deseja? — respondeu a mulher em meio a um suspiro.
— Eu quero tirar a segunda via do meu...
— Já pagou no banco?
— Como senhora?
— Banco! Já pagou no banco?
— Não entendi...
— Tem que pagar no banco antes de fazer o requerimento. Já pagou no banco?
— M... Mas, pagar o que no banco senhora?
— Tem que pagar a segunda via do RG e trazer o comprovante — rosnou a mulher entre os dentes.
— Mas aqui não é o lugar onde se resolve tudo mais rápido.
— O que não quer dizer que você não tenha que antes fazer o pagamento! — respondeu ela olhando por cima da cabeça de Humberto e gritando. — Próximo!
— Eu não sabia que tinha que...
— Tem que pagar no banco! Próximo!
Humberto correu. O banco ficava dentro do próprio prédio.  Pegou a senha, esperou mais dez minutos, pagou, correu de novo até a outra repartição, entrou na fila novamente, e depois de mais meia hora escutou: 
— Próximo!
— Oi, bom dia mais uma vez! — disse com sorriso meio simpático.
— Pagou no banco?
— Paguei, aqui está o comprovante.
— Cópia do RG antigo, ou CNH e a certidão de nascimento original.
— Como?
— Cópia do RG antigo, ou CNH e a certidão de nascimento original.
— Não entendi. — falou Humberto franzindo a testa.
— Não touxe?
— O quê?
— A cópia do RG antigo, ou CNH e a certidão de nascimento original.
— Precisa?
— Sim!
— Mas... Porque a senhora já não falou isso antes?
Ela olhou para o Humberto com a paciência de quem olha para uma criança arteira; deu uma bufada, ajeitou os óculos, pegou uma caneta e grifou em um papel: 
— Agora tem que trazer a cópia do RG antigo, ou da CNH, e a certidão de nascimento original. 
— M... Mas...
— Próximo!



Coloquei a imagem das capas dos meus dois livros ao lado.
Se quiser adquirir algum deles, é só clicar na imagem, e será direcionado para a loja.
Também tem o link na aba: Onde me encontrar, para adquirir o segundo livro na versão e-book, na Amazon. 


sábado, 21 de junho de 2025

Cada um sabe o que faz!


— Menina, — falou a vizinha da casa rosa. — Você não sabe o que eu vi ontem?
— O quê? — respondeu a vizinha do lado chegando perto, com a vassoura na mão.
— Ontem eu estava subindo a rua da feira, e vi a Maria parando o carro do lado da escola, debaixo das árvores.  
— Ela devia estar indo no mercadinho do seu Roque...
— Não! — respondeu a da casa rosa arregalando os olhos. — Eu não sou fofoqueira, por isso não quero inventar coisas.
— Eu sei que não é, a gente só está conversando. Nem eu quero cuidar da vida dos outros. — cochichou a vizinha se abaixando perto do ouvido da amiga. — E aí? O que você viu?
— O Antônio, marido da Tânia... Sabe?
— Sei, lógico. Ele ajuda na missa de domingo.
— Então menina! Ele parou o carro na frente do carro dela. Saiu. Parecia meio assustado. Olhou pra todos os lados... e rapidamente, entrou no carro dela!
— Minhanossasenhora!!!!
— É... — continuou a vizinha da casa rosa fazendo cara de espanto. — E os dois saíram juntos no carro.
— E você não viu se eles demoraram pra voltar?
— Não! Porque eu não quero cuidar da vida dos outros, né?
— Lógico! Eu também acho. Cada um sabe o que faz.
— É... — concordou a da casa rosa. — Mas a Judite, aquela fofoqueira,  me disse que eles demoraram mais de uma hora e meia.