Sei que não é da cultura blogueira, escrever e nem ler postagens longas.
Mas escrevi esse conto e achei que deveria compartilhar com vocês, amigos.
Acho que vão gostar.
Agnaldo nasceu e sempre viveu na favela do Cruzeirinho.
Em sua cabeça não existia uma lembrança de criança que não contenha as ruas, as casas, as pessoas da favela.
Ele e seus amigos correndo descalços, jogando bola em ruas de terra batida, desviando de poças de água de esgoto, que corria a céu aberto.
De vez em quando a polícia era chamada, porque alguém encontrara um corpo em algum terreno baldio, ou já fedendo em algum dos barracos.
Quando estava na adolescência, Agnaldo ajudou seu pai em várias obras pela cidade, trabalhando como ajudante de pintor de casas.
Seu pai era o que popularmente e pejorativamente se chamava de — pintor meia-boca —, não era ruim e nem tão bom.
Por isso nunca pegava as obras para administrar. Sempre trabalhava para alguém.
Entre idas e vindas trabalhando com seu pai, Agnaldo arrumou tempo para bater carteira, traficar, ser detento na Febem, ser cafetão de Isadora e Cyntia. Vender muamba do Paraguai, assaltar velhinhas e novinhas, até que um dia conheceu Jussara.
Conheceu, namorou, fez sexo e mais sexo e virou pai.
Olhando sua ficha corrida, um desavisado pode achar que ele tentava sobreviver da forma que sabia.
Depois que sua menina nasceu, ele resolveu tentar viver como um homem de bem.
Trabalhou em uma barraca na feira, entregou jornal, aparou jardins, entregou lanche e marmitex e trabalhou de frentista de posto de gasolina.
Tentou, mas seu jeito bruto e pouca escolaridade não o ajudavam muito.
Jussara estava na terceira gravidez.
E os problemas, de repente se amontoaram em sua cabeça.
Aluguel, supermercado, água cortada, luz — gatificada e descoberta pelo vizinho.
Tudo andava muito mal, então ele resolveu voltar a roubar.
Agnaldo encontrou a vítima ideal, uma loja de roupas bem movimentada em frente a praça São Geraldo, perto do centro de Santana.
Ele estava vigiando a loja há uma semana.
O dono, que ele descobriu que se chamava Osmar, já tinha uma certa idade e sempre ficava sozinho no final do expediente.
Esse Osmar, era um homem de 75 anos, alto, magro, de aparência tranquila e cordial. Era dono da loja: “Pague Pouco” há 40 anos.
Sua veia comerciante, herdou de seu pai Juares, que também era comerciante e ensinou tudo o que sabia a Osmarzinho.
Ao lado da loja Pague Pouco existe a igreja evangélica: Cristo é vida, onde o pastor Medeiros pastoreia cento e poucos membros fiéis.
A obreira mais querida da igreja era Ana Cláudia.
Baixinha, atarracada, com sorriso fácil e olhar atento às pessoas, ela era dedicada aos irmãos da igreja e o braço direito do pastor.
Limpava a igreja, fazia compras, trabalhava na secretaria, cozinhava nos eventos e ainda fazia parte da recepção dos irmãos nos dias de culto. Fazia tudo voluntariamente e não aceitava nenhum tostão em troca.
Na praça em frente à igreja, quando anoitecia, prostitutas, travestis, traficantes e usuários, faziam dali seu habitat, sem se preocuparem se estavam sendo observados ou não, pelos fiéis da igreja.
Seu Osmar, como era o mais velho do quarteirão, acabou sendo "eleito", um tipo de síndico.
Todos vinham reclamar com ele quando se sentiam ofendidos, como se ele pudesse fazer alguma coisa.
Os irmãos da igreja reclamavam que a prostituição estava fazendo daquele lugar um inferno.
As prostitutas e travestis reclamavam que a igreja estava tentando transformar esse inferno em um céu e que eles não queriam isso.
Seu Osmar passava apertado com essa guerra e tentava socorrer dos dois lados, sempre tomando cuidado para não tomar partido.
Agnaldo, decidido, com um revólver carregado na cintura, estava à espreita. Ele esperava o momento ideal para render o velho Osmar e roubar a loja.
Durante toda a tarde andou pela praça sem dar pinta de suas intenções.
Viu a Igreja acender as luzes e abrir seus portões.
Viu as prostitutas, travestis e clientes começarem a transitar pela praça.
Até que finalmente percebeu que seu Osmar estava sozinho na loja, quase na hora de encerrar o expediente.
"É agora ou nunca" — pensou Agnaldo, que estava em um banco na praça ao lado do ponto de ônibus procurando encontrar coragem.
Ele verificou as balas de sua arma, colocou-a dentro da jaqueta jeans e atravessou a rua.
Quando estava quase no meio da rua e se preparando para sacar a arma, aconteceu o inesperado.
Um apagão...
Tudo escureceu, o mundo ficou na penumbra, São Paulo virou um breu.
Apenas as lanternas e faróis de alguns carros iluminavam de vez em quando a rua.
Ana Claudia, que estava na frente da igreja, correu para a porta da loja gritando:
— Seu Osmar, a força acabou aí também? Parece que acabou na rua inteira.
Nesse momento Agnaldo acabou de atravessar a rua e chegou à porta da loja junto com Ana.
No mesmo instante, Miguel, também conhecido na noite por Michaela, atravessou a rua correndo e entrou na loja:
— Aiii seu Osmar, que escuridão! Cruzes! — exclamou o travesti se abanando.
— Parece que esse apagão é dos grandes, — respondeu o velho Osmar — olhando ao longe e percebendo que não havia sinal de eletricidade.
— Oi mocinho! — falou Michaela olhando Agnaldo de cima abaixo.
— Oi amigo... — respondeu Agnaldo numa tonalidade não muito amigável.
— Nossa, que sério!
— Parece que acabou a força no bairro todo. — falou Ana olhando para a rua.
Seu Osmar, vindo de dentro da loja com o celular na mão e com as chaves da loja já enfiando na fechadura da enorme porta de vidro, avisou:
— Aqui no radio tá falando que é um apagão gigantesco, igual aquele que ia dar no governo do Fernando Henrique, vocês se lembram? Parece que a coisa é feia. A cidade inteira parou.
Quando viu Agnaldo parado na porta da loja, seu Osmar perguntou:
— Oi rapaz, me desculpe, eu não vi você aí, precisa de alguma coisa? Eu tenho visto você aqui pela rua sempre, e sempre olha com carinho pra minha loja.
— Com carinho mesmo senhor, eu vejo que sua loja tem um bom movimento. — respondeu Agnaldo já pensando que seu golpe tinha ido por água abaixo. Como roubar essa loja se o dono já tinha até percebido a presença dele olhando para sua loja? E com carinho...
Nisso atravessa a rua toda afobada, Valdirene, uma prostituta antiga ali da área.
— Ai gente! Estão falando que é um brêcauti! Que a energia do mundo está acabando, por causa da camada de “ozonho.”
— Larga de ser boba menina, hahahahahahahaha, camada de “OZONHO.” — gargalhou Michaela. — Que puta burra.
Todos se esborracharam de rir.
— Osmarzim — irritou-se Valdirene — você vai deixar essa bicha me chamar de puta!
— Olha Val... Eu acho que nessa briga aí, eu não tenho lugar de fala.
— Bobagem Valdirene! Eu falei puta no sentido carinhoso! Nossa putinha mais velhinha e lindinha.
— Vocês duas são engraçadas. — falou Ana Claudia dando risada.
— Onde você ouviu falar que o blecaute tem a ver com a camada de ozônio, Valdirene?
— O Adão pingaiada, disse que escutou no rádio.
— Ah... Agora está explicado — caçoou Osmar — o Adão bebinho, que não sabe nem onde está a própria cabeça? Só você mesmo, Valdirene.
Nisso, vendo a movimentação na porta da loja, o pastor Medeiros veio ver o que acontecia com aquela turma que se esborrachava de rir.
— O que está acontecendo aqui gente?
— Fala pra ele Valdirene.
— Eu não! Ele já acha que eu sou do capeta. Não vou dar motivo pra esse chato rir de mim.
— Hahahahahahaha, (seu Osmar se contorcia de dor na barriga de tanto rir), conta pra ele mulher!
— É que o Adão pingaiada, falou que a camada de “ozonho” fez as lâmpadas apagarem e a força acabar. E esses bobos estão rindo. Mas o Adão falou que escutou isso no rádio!
— O Adão andarilho que mora no banco da praça?
— Ele mesmo.
— Que maluquice. Isso não existe irmã. E eu não acho que você seja do capeta, como você disse. Eu só acho que a forma que você e esse rapaz ganham a vida, uma forma errada.
— Opa! Rapaz não senhor! Eu sou mulher, me respeita por favor! Eu só nasci num corpo errado!
— Calma gente, — pediu Osmar apaziguando — vamos fazer uma trégua hoje, que temos visita aqui. — apontou para Agnaldo que também sorria da situação.
— Não irmãozinho, eu não vou te criticar. É que para mim é difícil te chamar de moça.
— É bom mesmo pastor, porque o senhor nem sabe que eu crio dois meninos adotados e a Valdirene, cuida da mãe e da tia idosas com o dinheiro que a gente ganha aqui no “job”.
— Mas não dá pra trabalhar com outra coisa?
— Quem vai contratar um veado e uma puta velha seu pastor? Aqui não é o céu não viu!
— Mas vocês têm que entender que eu não posso apoiar a atitude de vocês.
— Mas o senhor tem que entender que nós temos que sobreviver e o que a gente sabe fazer é isso.
— Eu não sabia desse negócio de criar filhos adotivos, e nem de você Valdirene, cuidar da sua mãe e tia idosas.
— Se vocês quiserem uma ajuda da nossa igreja — falou Ana Cláudia se condoendo da situação — a gente tem várias cestas básicas que a gente distribui todos os meses. Podemos ajudar também. Mas logicamente que vocês têm que parar com essa vida.
— Não estou pedindo esmola, moça! — respondeu Michaela ríspida — eu acho que vocês têm mais é que respeitar a gente e a gente respeitar vocês. Cada um no seu quadrado!
Percebendo que o clima estava ficando tenso, Osmar falou:
— E aí meu rapaz, como é seu nome?
— Agnaldo.
— Não ligue pra esses aqui não. Eles não se entendem nunca.
— Estou vendo mesmo. — respondeu Agnaldo sorrindo.
— Seu Osmar — interrompeu Valdirene entrando no assunto — cadê seu carro pro senhor levar a gente embora?
— Ih, Valdirene... Nem te falo. Minha esposa está com Alzheimer e eu já gastei tudo o que pude e o que não pude com ela...
Agnaldo aguçou os ouvidos nessa parte.
— ... e eu tive que vender duas casas que nós tínhamos de aluguel e meus dois carros. Como é só eu e a velha, nós não temos filhos, eu tenho que cuidar dela, pagar uma empregada, pagar home care, e ainda cuidar da loja.
O pensamento do Agnaldo martelou sua cabeça, como um juiz implacável o condenando.
— As coisas estão difíceis amiga. — concluiu Osmar.
— O senhor não contou nada pra gente! — exclamou Michaela.
— É que vocês são tão bons pra mim. Sempre companheiros e amigos aqui na
rua, que eu não quis deixá-los preocupados.
O pastor Medeiros e a irmã Ana Claudia escutavam seu Osmar e não entenderam que eles, como crentes e amigos de Osmar, nunca perguntaram nada sobre a sua vida.
— Mas eu estou orando a Deus para que me mande um rapaz de bom coração, para eu ensinar a trabalhar e me ajudar aqui na loja. Mas ninguém aparece para pedir emprego, e as moças que trabalham comigo não vão dar conta. Tem que carregar peso, levar e buscar coisas nos bairros. Não é fácil.
Então Agnaldo interrompe seu Osmar:
— Mas é por isso que eu estou rondando sua loja, para pedir emprego! Só que só tomei coragem hoje.
— Esse apagão pode ser um sinal de Deus para o senhor, seu Osmar. Porque trouxe esse moço e a gente aqui para testificar como Deus é grande, e como ele faz as coisas! — profetizou Medeiros.
Seu Osmar pensou um pouco, coçou a nuca, pensou mais um pouco, coçou mais uma vez a nuca, e falou:
— Puxa vida Agnaldo, pode ser mesmo.
— Que bom seu Osmar, o senhor parece um homem muito bom.
— Se você vier aqui amanhã, a gente pode conversar direito e se a gente se entender, você pode começar a trabalhar aqui na loja comigo.
— Só que eu não tenho experiência com comércio seu Osmar.
— Tudo na vida a gente aprende Agnaldo.
— Que bom! — falou Ana Claudia. — Essa nossa reunião aqui está muito boa mesmo! Eu nunca tinha conversado com vocês dois, — observou, apontando para Valdirene e Miguel — e se não fosse esse apagão talvez a gente nunca conversaria.
— Ficamos sabendo das dificuldades do seu Osmar, que é nosso paizão, e ainda arrumamos emprego pro Agnaldo! — completou Medeiros. — Essa vida é engraçada mesmo.
— Engraçado é eu acreditar no Adão pingaiada. — respondeu Valdirene. — A vida é linda! Será que vocês aceitam eu e a Michaela de vez em quando no culto da igreja?
— Lógico que aceitamos! — respondeu o pastor Medeiros, dando uma medida
em Michaela, de cima abaixo. — mas...
— Hahahahahahahaha, tudo bem pastor, eu entendi o olhar, quando eu for na igreja eu vou de machinho.
O apagão continuou por horas e horas, o metrô parou, os taxis pararam por medo de pegar alguém perigoso, os ônibus trabalharam em lotação máxima, a superlotação deixou pessoas ilhadas nas ruas.
Muita gente não voltou para casa naquela noite.
Foram do serviço para a rua e os que moravam muito longe, resolveram voltar da rua para o serviço no dia seguinte.
Mas...
No dia seguinte o sol raiou novamente e o mundo voltou a funcionar.
Agnaldo nasceu e sempre viveu na favela do Cruzeirinho.
Em sua cabeça não existia uma lembrança de criança que não contenha as ruas, as casas, as pessoas da favela.
Ele e seus amigos correndo descalços, jogando bola em ruas de terra batida, desviando de poças de água de esgoto, que corria a céu aberto.
De vez em quando a polícia era chamada, porque alguém encontrara um corpo em algum terreno baldio, ou já fedendo em algum dos barracos.
Quando estava na adolescência, Agnaldo ajudou seu pai em várias obras pela cidade, trabalhando como ajudante de pintor de casas.
Seu pai era o que popularmente e pejorativamente se chamava de — pintor meia-boca —, não era ruim e nem tão bom.
Por isso nunca pegava as obras para administrar. Sempre trabalhava para alguém.
Entre idas e vindas trabalhando com seu pai, Agnaldo arrumou tempo para bater carteira, traficar, ser detento na Febem, ser cafetão de Isadora e Cyntia. Vender muamba do Paraguai, assaltar velhinhas e novinhas, até que um dia conheceu Jussara.
Conheceu, namorou, fez sexo e mais sexo e virou pai.
Olhando sua ficha corrida, um desavisado pode achar que ele tentava sobreviver da forma que sabia.
Depois que sua menina nasceu, ele resolveu tentar viver como um homem de bem.
Trabalhou em uma barraca na feira, entregou jornal, aparou jardins, entregou lanche e marmitex e trabalhou de frentista de posto de gasolina.
Tentou, mas seu jeito bruto e pouca escolaridade não o ajudavam muito.
Jussara estava na terceira gravidez.
E os problemas, de repente se amontoaram em sua cabeça.
Aluguel, supermercado, água cortada, luz — gatificada e descoberta pelo vizinho.
Tudo andava muito mal, então ele resolveu voltar a roubar.
Agnaldo encontrou a vítima ideal, uma loja de roupas bem movimentada em frente a praça São Geraldo, perto do centro de Santana.
Ele estava vigiando a loja há uma semana.
O dono, que ele descobriu que se chamava Osmar, já tinha uma certa idade e sempre ficava sozinho no final do expediente.
Esse Osmar, era um homem de 75 anos, alto, magro, de aparência tranquila e cordial. Era dono da loja: “Pague Pouco” há 40 anos.
Sua veia comerciante, herdou de seu pai Juares, que também era comerciante e ensinou tudo o que sabia a Osmarzinho.
Ao lado da loja Pague Pouco existe a igreja evangélica: Cristo é vida, onde o pastor Medeiros pastoreia cento e poucos membros fiéis.
A obreira mais querida da igreja era Ana Cláudia.
Baixinha, atarracada, com sorriso fácil e olhar atento às pessoas, ela era dedicada aos irmãos da igreja e o braço direito do pastor.
Limpava a igreja, fazia compras, trabalhava na secretaria, cozinhava nos eventos e ainda fazia parte da recepção dos irmãos nos dias de culto. Fazia tudo voluntariamente e não aceitava nenhum tostão em troca.
Na praça em frente à igreja, quando anoitecia, prostitutas, travestis, traficantes e usuários, faziam dali seu habitat, sem se preocuparem se estavam sendo observados ou não, pelos fiéis da igreja.
Seu Osmar, como era o mais velho do quarteirão, acabou sendo "eleito", um tipo de síndico.
Todos vinham reclamar com ele quando se sentiam ofendidos, como se ele pudesse fazer alguma coisa.
Os irmãos da igreja reclamavam que a prostituição estava fazendo daquele lugar um inferno.
As prostitutas e travestis reclamavam que a igreja estava tentando transformar esse inferno em um céu e que eles não queriam isso.
Seu Osmar passava apertado com essa guerra e tentava socorrer dos dois lados, sempre tomando cuidado para não tomar partido.
Agnaldo, decidido, com um revólver carregado na cintura, estava à espreita. Ele esperava o momento ideal para render o velho Osmar e roubar a loja.
Durante toda a tarde andou pela praça sem dar pinta de suas intenções.
Viu a Igreja acender as luzes e abrir seus portões.
Viu as prostitutas, travestis e clientes começarem a transitar pela praça.
Até que finalmente percebeu que seu Osmar estava sozinho na loja, quase na hora de encerrar o expediente.
"É agora ou nunca" — pensou Agnaldo, que estava em um banco na praça ao lado do ponto de ônibus procurando encontrar coragem.
Ele verificou as balas de sua arma, colocou-a dentro da jaqueta jeans e atravessou a rua.
Quando estava quase no meio da rua e se preparando para sacar a arma, aconteceu o inesperado.
Um apagão...
Tudo escureceu, o mundo ficou na penumbra, São Paulo virou um breu.
Apenas as lanternas e faróis de alguns carros iluminavam de vez em quando a rua.
Ana Claudia, que estava na frente da igreja, correu para a porta da loja gritando:
— Seu Osmar, a força acabou aí também? Parece que acabou na rua inteira.
Nesse momento Agnaldo acabou de atravessar a rua e chegou à porta da loja junto com Ana.
No mesmo instante, Miguel, também conhecido na noite por Michaela, atravessou a rua correndo e entrou na loja:
— Aiii seu Osmar, que escuridão! Cruzes! — exclamou o travesti se abanando.
— Parece que esse apagão é dos grandes, — respondeu o velho Osmar — olhando ao longe e percebendo que não havia sinal de eletricidade.
— Oi mocinho! — falou Michaela olhando Agnaldo de cima abaixo.
— Oi amigo... — respondeu Agnaldo numa tonalidade não muito amigável.
— Nossa, que sério!
— Parece que acabou a força no bairro todo. — falou Ana olhando para a rua.
Seu Osmar, vindo de dentro da loja com o celular na mão e com as chaves da loja já enfiando na fechadura da enorme porta de vidro, avisou:
— Aqui no radio tá falando que é um apagão gigantesco, igual aquele que ia dar no governo do Fernando Henrique, vocês se lembram? Parece que a coisa é feia. A cidade inteira parou.
Quando viu Agnaldo parado na porta da loja, seu Osmar perguntou:
— Oi rapaz, me desculpe, eu não vi você aí, precisa de alguma coisa? Eu tenho visto você aqui pela rua sempre, e sempre olha com carinho pra minha loja.
— Com carinho mesmo senhor, eu vejo que sua loja tem um bom movimento. — respondeu Agnaldo já pensando que seu golpe tinha ido por água abaixo. Como roubar essa loja se o dono já tinha até percebido a presença dele olhando para sua loja? E com carinho...
Nisso atravessa a rua toda afobada, Valdirene, uma prostituta antiga ali da área.
— Ai gente! Estão falando que é um brêcauti! Que a energia do mundo está acabando, por causa da camada de “ozonho.”
— Larga de ser boba menina, hahahahahahahaha, camada de “OZONHO.” — gargalhou Michaela. — Que puta burra.
Todos se esborracharam de rir.
— Osmarzim — irritou-se Valdirene — você vai deixar essa bicha me chamar de puta!
— Olha Val... Eu acho que nessa briga aí, eu não tenho lugar de fala.
— Bobagem Valdirene! Eu falei puta no sentido carinhoso! Nossa putinha mais velhinha e lindinha.
— Vocês duas são engraçadas. — falou Ana Claudia dando risada.
— Onde você ouviu falar que o blecaute tem a ver com a camada de ozônio, Valdirene?
— O Adão pingaiada, disse que escutou no rádio.
— Ah... Agora está explicado — caçoou Osmar — o Adão bebinho, que não sabe nem onde está a própria cabeça? Só você mesmo, Valdirene.
Nisso, vendo a movimentação na porta da loja, o pastor Medeiros veio ver o que acontecia com aquela turma que se esborrachava de rir.
— O que está acontecendo aqui gente?
— Fala pra ele Valdirene.
— Eu não! Ele já acha que eu sou do capeta. Não vou dar motivo pra esse chato rir de mim.
— Hahahahahahaha, (seu Osmar se contorcia de dor na barriga de tanto rir), conta pra ele mulher!
— É que o Adão pingaiada, falou que a camada de “ozonho” fez as lâmpadas apagarem e a força acabar. E esses bobos estão rindo. Mas o Adão falou que escutou isso no rádio!
— O Adão andarilho que mora no banco da praça?
— Ele mesmo.
— Que maluquice. Isso não existe irmã. E eu não acho que você seja do capeta, como você disse. Eu só acho que a forma que você e esse rapaz ganham a vida, uma forma errada.
— Opa! Rapaz não senhor! Eu sou mulher, me respeita por favor! Eu só nasci num corpo errado!
— Calma gente, — pediu Osmar apaziguando — vamos fazer uma trégua hoje, que temos visita aqui. — apontou para Agnaldo que também sorria da situação.
— Não irmãozinho, eu não vou te criticar. É que para mim é difícil te chamar de moça.
— É bom mesmo pastor, porque o senhor nem sabe que eu crio dois meninos adotados e a Valdirene, cuida da mãe e da tia idosas com o dinheiro que a gente ganha aqui no “job”.
— Mas não dá pra trabalhar com outra coisa?
— Quem vai contratar um veado e uma puta velha seu pastor? Aqui não é o céu não viu!
— Mas vocês têm que entender que eu não posso apoiar a atitude de vocês.
— Mas o senhor tem que entender que nós temos que sobreviver e o que a gente sabe fazer é isso.
— Eu não sabia desse negócio de criar filhos adotivos, e nem de você Valdirene, cuidar da sua mãe e tia idosas.
— Se vocês quiserem uma ajuda da nossa igreja — falou Ana Cláudia se condoendo da situação — a gente tem várias cestas básicas que a gente distribui todos os meses. Podemos ajudar também. Mas logicamente que vocês têm que parar com essa vida.
— Não estou pedindo esmola, moça! — respondeu Michaela ríspida — eu acho que vocês têm mais é que respeitar a gente e a gente respeitar vocês. Cada um no seu quadrado!
Percebendo que o clima estava ficando tenso, Osmar falou:
— E aí meu rapaz, como é seu nome?
— Agnaldo.
— Não ligue pra esses aqui não. Eles não se entendem nunca.
— Estou vendo mesmo. — respondeu Agnaldo sorrindo.
— Seu Osmar — interrompeu Valdirene entrando no assunto — cadê seu carro pro senhor levar a gente embora?
— Ih, Valdirene... Nem te falo. Minha esposa está com Alzheimer e eu já gastei tudo o que pude e o que não pude com ela...
Agnaldo aguçou os ouvidos nessa parte.
— ... e eu tive que vender duas casas que nós tínhamos de aluguel e meus dois carros. Como é só eu e a velha, nós não temos filhos, eu tenho que cuidar dela, pagar uma empregada, pagar home care, e ainda cuidar da loja.
O pensamento do Agnaldo martelou sua cabeça, como um juiz implacável o condenando.
— As coisas estão difíceis amiga. — concluiu Osmar.
— O senhor não contou nada pra gente! — exclamou Michaela.
— É que vocês são tão bons pra mim. Sempre companheiros e amigos aqui na
rua, que eu não quis deixá-los preocupados.
O pastor Medeiros e a irmã Ana Claudia escutavam seu Osmar e não entenderam que eles, como crentes e amigos de Osmar, nunca perguntaram nada sobre a sua vida.
— Mas eu estou orando a Deus para que me mande um rapaz de bom coração, para eu ensinar a trabalhar e me ajudar aqui na loja. Mas ninguém aparece para pedir emprego, e as moças que trabalham comigo não vão dar conta. Tem que carregar peso, levar e buscar coisas nos bairros. Não é fácil.
Então Agnaldo interrompe seu Osmar:
— Mas é por isso que eu estou rondando sua loja, para pedir emprego! Só que só tomei coragem hoje.
— Esse apagão pode ser um sinal de Deus para o senhor, seu Osmar. Porque trouxe esse moço e a gente aqui para testificar como Deus é grande, e como ele faz as coisas! — profetizou Medeiros.
Seu Osmar pensou um pouco, coçou a nuca, pensou mais um pouco, coçou mais uma vez a nuca, e falou:
— Puxa vida Agnaldo, pode ser mesmo.
— Que bom seu Osmar, o senhor parece um homem muito bom.
— Se você vier aqui amanhã, a gente pode conversar direito e se a gente se entender, você pode começar a trabalhar aqui na loja comigo.
— Só que eu não tenho experiência com comércio seu Osmar.
— Tudo na vida a gente aprende Agnaldo.
— Que bom! — falou Ana Claudia. — Essa nossa reunião aqui está muito boa mesmo! Eu nunca tinha conversado com vocês dois, — observou, apontando para Valdirene e Miguel — e se não fosse esse apagão talvez a gente nunca conversaria.
— Ficamos sabendo das dificuldades do seu Osmar, que é nosso paizão, e ainda arrumamos emprego pro Agnaldo! — completou Medeiros. — Essa vida é engraçada mesmo.
— Engraçado é eu acreditar no Adão pingaiada. — respondeu Valdirene. — A vida é linda! Será que vocês aceitam eu e a Michaela de vez em quando no culto da igreja?
— Lógico que aceitamos! — respondeu o pastor Medeiros, dando uma medida
em Michaela, de cima abaixo. — mas...
— Hahahahahahahaha, tudo bem pastor, eu entendi o olhar, quando eu for na igreja eu vou de machinho.
O apagão continuou por horas e horas, o metrô parou, os taxis pararam por medo de pegar alguém perigoso, os ônibus trabalharam em lotação máxima, a superlotação deixou pessoas ilhadas nas ruas.
Muita gente não voltou para casa naquela noite.
Foram do serviço para a rua e os que moravam muito longe, resolveram voltar da rua para o serviço no dia seguinte.
Mas...
No dia seguinte o sol raiou novamente e o mundo voltou a funcionar.
Afinal, ainda não era o apocalipse.

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