quinta-feira, 11 de junho de 2026

O cego Bartimeu

 


Jesus e os discípulos chegaram à cidade de Jericó.
Bartimeu, filho de Timeu, era um cego que esmolava na rua mais movimentada da cidade. 
Mesmo sentado em seu lugar de costume, ele sentiu que alguma coisa diferente estava acontecendo. As pessoas estavam mais agitadas, caminhando para cá e para lá.
O cego, atento, escutava as murmurações e discussões.
Alguns conversavam ao pé da orelha sobre um homem que fazia milagres. Outros defendiam os mestres da sinagoga, reprimindo esse homem e dizendo que ele era impostor.
Jesus aproveitou seu tempo na cidade e pregou sua palavra. 
Cada vez mais as pessoas ouviam e se admiravam da narrativa e do conhecimento daquele homem.
Alguns vinham nem tanto pela palavra, mas pelos milagres que o viam fazer.
E outros vinham porque escutaram que ele alimentava a multidão multiplicando pães e peixes. 
Quando Ele estava saindo da cidade acompanhado pelas pessoas que o seguiam, passou pelo caminho onde Bartimeu estava sentado esmolando. 
Percebendo um grande alvoroço, o cego esticou seus ouvidos para entender o que estava acontecendo e se alegrou quando ouviu alguém dizer que era Jesus de Nazaré que estava passando. 
— Jesus! — gritou o cego aflito — Filho de Davi! Tenha pena de mim!
— Pare de gritar, Bartimeu. Você acha que esse homem vai te escutar.
— Jesus! — gritou o cego mais alto.
— Alguém o faça se calar. — disse outro homem que olhava a comitiva passar.
— Ele está incomodando. — reclamou outro.
— Jesus! — continuou Bartimeu sem ligar para as críticas a sua volta. — Oh... Filho de Davi, tenha pena de mim.
Em volta de Bartimeu houve um princípio de desentendimento entre pessoas que entenderam o desespero do cego e outros que achavam que o cego era desprezível para o Messias.
Mas Jesus, percebendo a situação, parou e disse: 
— Chamem o cego.
— Mas Senhor... — murmuraram alguns. — É só um cego pedinte, que vive de esmolas.
— Não importa, tragam-no até mim. 
Os discípulos, e algumas pessoas, se aproximaram de Bartimeu e o guiaram pela mão, dizendo. 
— Coragem, cego. 
— Ele te ouviu.
— Levante-se, ele está chamando você.
Então Bartimeu jogou a sua capa para um lado, levantou-se depressa e foi até o lugar onde Jesus estava. 
— Por que você estava gritando?
— Porque só o Senhor pode me ajudar.
— E por que me chamas de filho de Davi?
— O senhor é o Cristo! O Messias! Aquele que as Escrituras anunciaram. Aquele que viria da  linhagem do rei Davi.
— Eu vejo que é grande a sua fé, Bartimeu. — revelou Jesus, olhando para a multidão à sua volta, que observava a tudo interessada. — O que é que você quer que eu faça? 
— Mestre, eu quero ver de novo! — respondeu Bartimeu. 
— Então assim seja, Bartimeu! Você está curado porque teve fé! — afirmou Jesus.
O cego Bartimeu piscou os olhos várias vezes. Olhou para o rosto de Jesus à sua frente. E caindo de joelhos, chorou de alegria.
— Estou vendo! Estou vendo Jesus! Filho de Davi.
— Pois não era isso que desejava? 
— Sim, mestre. E de hoje em diante eu vou te seguir! Enquanto meus olhos puderem ver. Eu o seguirei. 



quarta-feira, 3 de junho de 2026

O olhar e a vida...



Eu olhava e não via.
Pensava e não percebia.
Ou não pensava?
Só sei que não entendia.
Não sabia que o mundo era assim...
... tão mundo.
E nem que as pessoas eram assim...
... tão pessoas.
Até hoje sou meio bobo.
Ainda não entendo esse ego.
O ego é maior que as pessoas?
Sabe com quem está falando?
Hã...? Seria com uma pessoa?
Igual a todos?
— Todos não são todos, rapaz!
Depende de quem seleciona.
Seleciona alguns, diz que são todos e separa os feios.
Mas quem disse que o feio não é bonito?
Quem ama o feio, bonito lhe parece.
Dizem que a vida é bela.
Será que ela é feia?
Ou é apenas vida...



terça-feira, 19 de maio de 2026

Escolha do cliente

 


Olhar para quem olha uma vitrine de doces.
Carolinas, macarrons coloridos, camafeus, mil folhas, sonhos de padaria.
Sonhos...
Conversa de padaria.
Alegre.
Casual...
Sem compromisso com o sonho.
Sonho de creme ou de doce de leite?
O cliente escolhe seus sonhos.
Obrigado!
Servimos bem para servir sempre.
Estava no saco de papel pardo.
Hoje vem na sacolinha.
Sem a frase.
Sem o sorriso.
Sem o sonho...
O baleiro de vidro não roda mais.
Roda, roda baleiro atenção...
Eu quero a bala de goma.
Eu quero a Chita.
Eu quero a que engasga...
Obrigado!
Agradecemos pela preferência.
Estava na plaqueta em cima do caixa.
Ninguém agradece mais nada.
Os sonhos vem de moto.
Do aplicativo.
Obrigado!
Volte sempre...
Volte onde?


terça-feira, 12 de maio de 2026

Ainda não é o Apocalipse

  

 Sei que não é da cultura blogueira, escrever e nem ler postagens longas.
 Mas escrevi esse conto e achei que deveria compartilhar com vocês, amigos.
 Acho que vão gostar. 




 
            Agnaldo nasceu e sempre viveu na favela do Cruzeirinho.
            Em sua cabeça não existia uma lembrança de criança que não contenha as ruas, as casas, as pessoas da favela.
            Ele e seus amigos correndo descalços, jogando bola em ruas de terra batida, desviando de poças de água de esgoto, que corria a céu aberto.
             De vez em quando a polícia era chamada, porque alguém encontrara um corpo em algum terreno baldio, ou já fedendo em algum dos barracos.
            Quando estava na adolescência, Agnaldo ajudou seu pai em várias obras pela cidade, trabalhando como ajudante de pintor de casas.
            Seu pai era o que popularmente e pejorativamente se chamava de — pintor meia-boca —, não era ruim e nem tão bom.
            Por isso nunca pegava as obras para administrar. Sempre trabalhava para alguém.   
            Entre idas e vindas trabalhando com seu pai, Agnaldo arrumou tempo para bater carteira, traficar, ser detento na Febem, ser cafetão de Isadora e Cyntia. Vender muamba do Paraguai, assaltar velhinhas e novinhas, até que um dia conheceu Jussara.
            Conheceu, namorou, fez sexo e mais sexo e virou pai.
            Olhando sua ficha corrida, um desavisado pode achar que ele tentava sobreviver da forma que sabia.  
            Depois que sua menina nasceu, ele resolveu tentar viver como um homem de bem.
            Trabalhou em uma barraca na feira, entregou jornal, aparou jardins, entregou lanche e marmitex e trabalhou de frentista de posto de gasolina.
            Tentou, mas seu jeito bruto e pouca escolaridade não o ajudavam muito.
            Jussara estava na terceira gravidez.
            E os problemas, de repente se amontoaram em sua cabeça.
            Aluguel, supermercado, água cortada, luz — gatificada e descoberta pelo vizinho.
            Tudo andava muito mal, então ele resolveu voltar a roubar.
            Agnaldo encontrou a vítima ideal, uma loja de roupas bem movimentada em frente a praça São Geraldo, perto do centro de Santana.
            Ele estava vigiando a loja há uma semana.
            O dono, que ele descobriu que se chamava Osmar, já tinha uma certa idade e sempre ficava sozinho no final do expediente.
            Esse Osmar, era um homem de 75 anos, alto, magro, de aparência tranquila e cordial. Era dono da loja: “Pague Pouco” há 40 anos.
            Sua veia comerciante, herdou de seu pai Juares, que também era comerciante e ensinou tudo o que sabia a Osmarzinho.
            Ao lado da loja Pague Pouco existe a igreja evangélica: Cristo é vida, onde o pastor Medeiros pastoreia cento e poucos membros fiéis.
            A obreira mais querida da igreja era Ana Cláudia.
            Baixinha, atarracada, com sorriso fácil e olhar atento às pessoas, ela era dedicada aos irmãos da igreja e o braço direito do pastor.
            Limpava a igreja, fazia compras, trabalhava na secretaria, cozinhava nos eventos e ainda fazia parte da recepção dos irmãos nos dias de culto. Fazia tudo voluntariamente e não aceitava nenhum tostão em troca.
            Na praça em frente à igreja, quando anoitecia, prostitutas, travestis, traficantes e usuários, faziam dali seu habitat, sem se preocuparem se estavam sendo observados ou não, pelos fiéis da igreja.
            Seu Osmar, como era o mais velho do quarteirão, acabou sendo "eleito", um tipo de síndico.
            Todos vinham reclamar com ele quando se sentiam ofendidos, como se ele pudesse fazer alguma coisa.
            Os irmãos da igreja reclamavam que a prostituição estava fazendo daquele lugar um inferno.
            As prostitutas e travestis reclamavam que a igreja estava tentando transformar esse inferno em um céu e que eles não queriam isso.
            Seu Osmar passava apertado com essa guerra e tentava socorrer dos dois lados, sempre tomando cuidado para não tomar partido.
            Agnaldo, decidido, com um revólver carregado na cintura, estava à espreita. Ele esperava o momento ideal para render o velho Osmar e roubar a loja.
            Durante toda a tarde andou pela praça sem dar pinta de suas intenções.
            Viu a Igreja acender as luzes e abrir seus portões.
            Viu as prostitutas, travestis e clientes começarem a transitar pela praça.
            Até que finalmente percebeu que seu Osmar estava sozinho na loja, quase na hora de encerrar o expediente.
            "É agora ou nunca" — pensou Agnaldo, que estava em um banco na praça ao lado do ponto de ônibus procurando encontrar coragem.
            Ele verificou as balas de sua arma, colocou-a dentro da jaqueta jeans e atravessou a rua.
            Quando estava quase no meio da rua e se preparando para sacar a arma, aconteceu o inesperado.
            Um apagão...
            Tudo escureceu, o mundo ficou na penumbra, São Paulo virou um breu.
            Apenas as lanternas e faróis de alguns carros iluminavam de vez em quando a rua.
            Ana Claudia, que estava na frente da igreja, correu para a porta da loja gritando:
            — Seu Osmar, a força acabou aí também? Parece que acabou na rua inteira.
            Nesse momento Agnaldo acabou de atravessar a rua e chegou à porta da loja junto com Ana.
No mesmo instante, Miguel, também conhecido na noite por Michaela, atravessou a rua correndo e entrou na loja:
            — Aiii seu Osmar, que escuridão! Cruzes! — exclamou o travesti se abanando.
            — Parece que esse apagão é dos grandes, — respondeu o velho Osmar — olhando ao longe e percebendo que não havia sinal de eletricidade.
              Oi mocinho! — falou Michaela olhando Agnaldo de cima abaixo.
            — Oi amigo... — respondeu Agnaldo numa tonalidade não muito amigável.
            — Nossa, que sério!
            — Parece que acabou a força no bairro todo. — falou Ana olhando para a rua.
            Seu Osmar, vindo de dentro da loja com o celular na mão e com as chaves da loja já enfiando na fechadura da enorme porta de vidro, avisou:
            — Aqui no radio tá falando que é um apagão gigantesco, igual aquele que ia dar no governo do Fernando Henrique, vocês se lembram? Parece que a coisa é feia. A cidade inteira parou.
            Quando viu Agnaldo parado na porta da loja, seu Osmar perguntou:
            — Oi rapaz, me desculpe, eu não vi você aí, precisa de alguma coisa? Eu tenho visto você aqui pela rua sempre, e sempre olha com carinho pra minha loja.
            — Com carinho mesmo senhor, eu vejo que sua loja tem um bom movimento. — respondeu                     Agnaldo já pensando que seu golpe tinha ido por água abaixo. Como roubar essa loja se o dono já tinha até percebido a presença dele olhando para sua loja? E com carinho...
            Nisso atravessa a rua toda afobada, Valdirene, uma prostituta antiga ali da área.
            — Ai gente! Estão falando que é um brêcauti! Que a energia do mundo está acabando, por causa da camada de “ozonho.”
            — Larga de ser boba menina, hahahahahahahaha, camada de “OZONHO.” — gargalhou Michaela. — Que puta burra.
            Todos se esborracharam de rir.
            — Osmarzim — irritou-se Valdirene — você vai deixar essa bicha me chamar de puta!
            — Olha Val... Eu acho que nessa briga aí, eu não tenho lugar de fala.
            — Bobagem Valdirene! Eu falei puta no sentido carinhoso! Nossa putinha mais velhinha e lindinha.
            — Vocês duas são engraçadas. — falou Ana Claudia dando risada.
            — Onde você ouviu falar que o blecaute tem a ver com a camada de ozônio, Valdirene?
             O Adão pingaiada, disse que escutou no rádio.
            — Ah... Agora está explicado — caçoou Osmar — o Adão bebinho, que não sabe nem onde está a própria cabeça? Só você mesmo, Valdirene.
            Nisso, vendo a movimentação na porta da loja, o pastor Medeiros veio ver o que acontecia com aquela turma que se esborrachava de rir.
            — O que está acontecendo aqui gente?
            — Fala pra ele Valdirene.
            — Eu não! Ele já acha que eu sou do capeta. Não vou dar motivo pra esse chato rir de mim.
            — Hahahahahahaha, (seu Osmar se contorcia de dor na barriga de tanto rir), conta pra ele mulher!
            — É que o Adão pingaiada, falou que a camada de “ozonho” fez as lâmpadas apagarem e a força acabar. E esses bobos estão rindo. Mas o Adão falou que escutou isso no rádio!
            — O Adão andarilho que mora no banco da praça?
            — Ele mesmo.
            — Que maluquice. Isso não existe irmã. E eu não acho que você seja do capeta, como você disse. Eu só acho que a forma que você e esse rapaz ganham a vida, uma forma errada.
           — Opa! Rapaz não senhor! Eu sou mulher, me respeita por favor! Eu só nasci num corpo errado!
          — Calma gente, — pediu Osmar apaziguando —   vamos fazer uma trégua hoje, que temos visita aqui. — apontou para Agnaldo que também sorria da situação.
            — Não irmãozinho, eu não vou te criticar. É que para mim é difícil te chamar de moça.
            — É bom mesmo pastor, porque o senhor nem sabe que eu crio dois meninos adotados e a Valdirene, cuida da mãe e da tia idosas com o dinheiro que a gente ganha aqui no “job”.
            — Mas não dá pra trabalhar com outra coisa?
            — Quem vai contratar um veado e uma puta velha seu pastor? Aqui não é o céu não viu!
            — Mas vocês têm que entender que eu não posso apoiar a atitude de vocês.
            — Mas o senhor tem que entender que nós temos que sobreviver e o que a gente sabe fazer é isso.
            — Eu não sabia desse negócio de criar filhos adotivos, e nem de você Valdirene, cuidar da sua mãe e tia idosas.
            — Se vocês quiserem uma ajuda da nossa igreja — falou Ana Cláudia se condoendo da situação — a gente tem várias cestas básicas que a gente distribui todos os meses. Podemos ajudar também. Mas logicamente que vocês têm que parar com essa vida.
            — Não estou pedindo esmola, moça!  — respondeu Michaela ríspida — eu acho que vocês têm mais é que respeitar a gente e a gente respeitar vocês. Cada um no seu quadrado!
          Percebendo que o clima estava ficando tenso, Osmar falou:
          — E aí meu rapaz, como é seu nome?
          — Agnaldo.
          — Não ligue pra esses aqui não. Eles não se entendem nunca.
          — Estou vendo mesmo. — respondeu Agnaldo sorrindo.
          — Seu Osmar — interrompeu Valdirene entrando no assunto — cadê seu carro pro senhor levar a gente embora?
          — Ih, Valdirene... Nem te falo. Minha esposa está com Alzheimer e eu já gastei tudo o que pude e o que não pude com ela...
            Agnaldo aguçou os ouvidos nessa parte.
            — ... e eu tive que vender duas casas que nós tínhamos de aluguel e meus dois carros. Como é só eu e a velha, nós não temos filhos, eu tenho que cuidar dela, pagar uma empregada, pagar home care, e ainda cuidar da loja.
          O pensamento do Agnaldo martelou sua cabeça, como um juiz implacável o condenando.
          — As coisas estão difíceis amiga. — concluiu Osmar.
          — O senhor não contou nada pra gente! — exclamou Michaela.
          — É que vocês são tão bons pra mim. Sempre companheiros e amigos aqui na
rua, que eu não quis deixá-los preocupados.
            O pastor Medeiros e a irmã Ana Claudia escutavam seu Osmar e não entenderam que eles, como crentes e amigos de Osmar, nunca perguntaram nada sobre a sua vida.
          — Mas eu estou orando a Deus para que me mande um rapaz de bom coração, para eu ensinar a trabalhar e me ajudar aqui na loja. Mas ninguém aparece para pedir emprego, e as moças que trabalham comigo não vão dar conta. Tem que carregar peso, levar e buscar coisas nos bairros. Não é fácil.
          Então Agnaldo interrompe seu Osmar:
          — Mas é por isso que eu estou rondando sua loja, para pedir emprego! Só que só tomei coragem hoje.
          — Esse apagão pode ser um sinal de Deus para o senhor, seu Osmar. Porque trouxe esse moço e a gente aqui para testificar como Deus é grande, e como ele faz as coisas! — profetizou Medeiros.
          Seu Osmar pensou um pouco, coçou a nuca, pensou mais um pouco, coçou mais uma vez a nuca, e falou:
          — Puxa vida Agnaldo, pode ser mesmo.
          — Que bom seu Osmar, o senhor parece um homem muito bom.
          — Se você vier aqui amanhã, a gente pode conversar direito e se a gente se entender, você pode começar a trabalhar aqui na loja comigo.
          — Só que eu não tenho experiência com comércio seu Osmar.
          — Tudo na vida a gente aprende Agnaldo.
          — Que bom! — falou Ana Claudia. — Essa nossa reunião aqui está muito boa mesmo! Eu nunca tinha conversado com vocês dois, — observou, apontando para Valdirene e Miguel — e se não fosse esse apagão talvez a gente nunca conversaria.
          — Ficamos sabendo das dificuldades do seu Osmar, que é nosso paizão, e ainda arrumamos emprego pro Agnaldo! — completou Medeiros. — Essa vida é engraçada mesmo.
            — Engraçado é eu acreditar no Adão pingaiada. — respondeu Valdirene. — A vida é linda! Será que vocês aceitam eu e a Michaela de vez em quando no culto da igreja?
          — Lógico que aceitamos! — respondeu o pastor Medeiros, dando uma medida
em Michaela, de cima abaixo. — mas...
          — Hahahahahahahaha, tudo bem pastor, eu entendi o olhar, quando eu for na igreja eu vou de machinho.
          O apagão continuou por horas e horas, o metrô parou, os taxis pararam por medo de pegar alguém perigoso, os ônibus trabalharam em lotação máxima, a superlotação deixou pessoas ilhadas nas ruas.
Muita gente não voltou para casa naquela noite.
Foram do serviço para a rua e os que moravam muito longe, resolveram voltar da rua para o serviço no dia seguinte.
Mas...
            No dia seguinte o sol raiou novamente e o mundo voltou a funcionar.

            Afinal, ainda não era o apocalipse.

         

       

sexta-feira, 8 de maio de 2026

Hoje e amanhã é hoje... Ou amanhã...

 


Hoje eu fui pesquisar sobre qual país tem a maior diferença de horário em relação ao Brasil e acabei descobrindo que hoje pode não ser hoje.
Pode e não pode.
O país com maior diferença de horário em relação ao Brasil é Kiribati. Um arquipélago perto da Oceania.
Eu pensava que era o Japão, com suas 12 horas de diferença, mas descobri que Kiribati é mais longe.
Kiribati, segundo o Google fica a 24.500 km do Brasil mais ou menos.
O problema é que olhando no mapa eu percebi que isso é verdade se a gente seguir para o Leste, mas se a gente pegar um avião e sair para o Oeste, passar Argentina, Chile e continuar... Kiribati fica logo ali.
Apenas 15.000 km.
Só que aqui tem uma pegadinha muito maluca.
Se a gente for para o Leste, a gente chega no Kiribati hoje, 16 horas de fuso, mas se a gente for para o Oeste, é bem mais perto, mas a gente só chega lá amanhã!
Entendeu?
Nem eu... Mas vamos destrinchar o bode.
O problema é a linha internacional da data. Que é um meridiano onde se determinou que dela pra cá é hoje e dela pra lá é amanhã.
Isso é uma determinação política e não solar. 
É uma regra usada principalmente pelo setor econômico para atrelar os negócios do mundo de uma forma organizada.
Antigamente Kiribati tinha metade de suas ilhas hoje e metade amanhã.
Então metade era sexta-feira, com bancos comércio, escolas, tudo funcionando, enquanto há poucos quilômetros era sábado. Com todo mundo de folga pensando no churrasco e na cachaça. 
Será que em Kiribati tem cachaça?
Imagina uma macumba. 
De um lado o pai de santo está na sexta-feira à noite fazendo um trabalho, mas se o santo estivesse na outra ilha não daria certo, porque lá era sábado e o dia de macumba é na sexta.
Olha que doido!
Talvez o santo para voltar até ontem e aceitar a oferenda, poderia cobrar duas galinhas ao invés de uma... 
Seria um pedágio espiritual. 
Eu cobraria!
O Hawai e o Kiribati estão quase na mesma faixa solar e por isso estão quase na mesma hora.
Mas como o Kiribati quis ajustar todas as suas ilhas num mesmo dia, ele conseguiu fazer uma volta imaginária nessa linha imaginária e em 1995 pulou em alguns lugares, do dia 31 de dezembro direto para 2 de janeiro.
Em algumas ilhas não existiu o dia primeiro de Janeiro.
Você entendeu isso?
Voltando ao Hawai, — eu ia dizer, voltando no tempo, só pra sacanear — se lá é meio dia de hoje, no Kiribati meio dia de amanhã.
Quer dizer que politicamente eu posso sair de lá amanhã e chegar aqui hoje, e viver o amanhã aqui, sendo que viveria dois amanhãs... Ou nenhum hoje.
Isso é muito pra minha cabeça...



quinta-feira, 30 de abril de 2026

O GRANDE RESET

 


Um filófoso de nome estranho, mas que ganhou o premio Nobel, disse que o ser humano não dura mais cinquenta anos.
Outro, menos "otimista", disse que não duraremos 35.
Segundo eles, vem aí: O GRANDE RESET.
Eu descobri nas fofocas da internet, que pelo jeito vai ser uma guerra nuclear.
Um presidente vai chamar o pais do outro de bobo e feio.
Aí o outro presidente vai falar que está de mal, come sal, guarda um pouco pro Natal.
Eles vão desamigar e  jogar video-game com bomba atômica.
Pelas contas que fiz, esses presidentes serão da geração Alpha.
Manja a geração Alpha? Não socializam, nunca brincaram na rua, nem lombriga eles tiveram.
Tudo pra eles é bullying! 
Isso é um perigo... 
Mas voltando ao GRANDE RESET, parece que o Brasil não vai acabar.
Nós não temos bomba atômica e geralmente resolvemos nossas brigas na paulada e tijolada. 
Ninguém vai mirar seus video-games atômicos na gente.
Ou Deus é brasileiro mesmo, como dizem, ou Ele não quer a gente lá no céu. 
Ele sabe que se a gente for pro céu, vamos levar nosso jeitinho junto.
Depois de transformar o céu numa favela, viraríamos nossos tijolos para o governo.
Tiraríamos Barrabás do inferno e o colocaríamos na presidência, argumentando que o julgamento do dele devia ter sido em Roma e não em Jerusalém.
Mas eu acho que os OVNIS não deixariam o ser humano explodir com o mundo.
O Trump vira e mexe fala sobre extra-terrestres.
Seria a solução?
Uma reunião na ONU com os estra-terrestres passando um sabão nos presidentes?
A dúvida é: 
Esses presidentes da geração Alpha, vão escutar os extra-terrestres? 
Ou vão ficar com cara de paisagem como ficam hoje quando recebem bronca dos pais? 
E depois da bronca, fazer o que der na telha?
Booooooommmmmm!



sexta-feira, 24 de abril de 2026

Azul da cor do mar




Pense comigo:
E se o verde que eu enxergo for o seu azul?
E se o gosto do bolo de fubá pra mim, for gosto de pudim de leite pra você?
Isso explicaria porque, pra mim, bolo de fubá é melhor que pudim.
Os cientistas dizem que o cachorro enxerga preto e branco. A vaca também...
Mas eu queria saber qual foi a vaca que disse isso para o cientista?
Ah... Mas eles analisam o cérebro, os olhos, a pupila.
E daí meu camarada?
Enquanto uma vaca não vier pra mim e dizer que o tomate é da mesma cor que a grama eu não acredito nessa conversa.
E o daltônico?
Os cientistas dizem que eles enxergam preto, branco e tons de cinza.
Mas, e se eles enxergarem verde escuro, branco e tons de verde?
Ele fala que é cinza, porque disseram para ele que o verde que ele enxerga é cinza.
Olha que loucura!
Colocando um pouco mais de pimenta.
Porque nosso peido é cheiroso e o peido dos outros é fedido?
Percepção ou afeto?
Porque o vegetariano come brócolis fazendo cara de quem come contra filé e o carnívoro come brócolis fazendo cara de vaca, que vê o mundo em preto e branco?
Minha avó dizia: Quem ama o feio, bonito lhe parece.
Acho que ela já estava ligada que as sensações, emoções e percepções variam de pessoa para pessoa.
Falando na minha avó, ela fazia um doce com açúcar derretido e limão que ela chamava de puxa-puxa — coisa de pobre, que você não conhece — e a gente comia e achava melhor que chocolate... Entendeu?
Eu não!


sexta-feira, 17 de abril de 2026

De pensar, morreu um burro!





Como é, que do nada, o cidadão olha para a natureza e inventa o teorema de Pitágoras?
Esse Pitágoras não devia ser bom da cabeça.
E o maluco que estava tomando banho em uma tina debaixo de uma macieira.
Uma maçã caiu na tina com água, então ele — sem nada melhor para fazer na vida — calculou a altura do galho, o peso da maçã, o tanto que ela afundou e inventou outra fórmula matemática? 
Esse acho que foi aquele que falava: Eureka? O tal do Arquimedes.
Agora estou em dúvida se foi ele ou outro desocupado chamado Isaac Newton.
A tina d'água, — que é a melhor parte da história — parece que foi colocada por alguém que contou isso depois.
Licença poética...
Mas nada tira a "culpa" do "pensador" que não tinha nada para fazer e inventou moda para complicar a vida dos outros.
E vamos ser sinceros — quem fala eureka?
Aliás, o que é eureka?
E o tal do Eratóstenes.
Esse, disse que sabia que num determinado dia o sol batia direto num lugar de frente, sem fazer sombra.
O sabichão andou um monte de quilômetros, fincou um pau no chão e viu que ali fazia uma sombra, que tinha um tanto de graus.
Calculou a distância de onde o sol batia de frente, até onde ele fincou o pau.
Viu os graus, e só com isso, repito! SÓ COM ISSO! Ele calculou a circunferência da Terra!
Gente... Esses caras não namoravam?
Não faziam churrasco?
Não tinham amigos?
Não jogavam truco?
Olha onde essas ideias malucas foram dar?
Hoje as pessoas estão cada vez mais isoladas. Escravizadas pelos seus celulares e conectados ao mundo virtual.
Eles complicaram o mundo só porque pensavam. 
Não tinha uma mulher interessante para eles dançarem forró?
Se eles passassem a noite na boemia, chorassem as pitangas nos botecos da vida, talvez, como eram inteligentes, teriam escrito belos poemas.
— Ainnnnnn... — diz o fulano que vai comentar abaixo — ... mas o homem  foi pra Lua por causa deles...
E eu com isso?
O homem foi na Lua, mas a Terra está cheia de problemas. 
Esse povo da NASA não namora?
Não assiste um joguinho de futebol?
Não tem um terreno para carpinar?
Gente com tempo de sobra para pensar dá nisso... 
Complica a vida dos outros.
Nós, homo sapiens, não queremos ir para a Lua.
Queremos pescar, caçar, coletar na floresta, fazer neném.
Mas os caras foram pensar demais... Olha o que deu.


sexta-feira, 10 de abril de 2026

O golpe da pulga: Faxina já!



Conheci a Rita em um grupo do finado Orkut.
A gente fazia parte de uma comunidade de uma banda de punk rock.
Ela, eu e mais alguns membros do grupo acabamos nos tornando amigos. Falávamos de shows, de música, de punk rock e assuntos aleatórios.
Muitas bandas e personalidades do punk pregam ideias anarquistas, contra o sistema, contra a família tradicional, contra a religião e contra as instituições governamentais.
Eu nunca fui adepto dessas ideias de forma integral. 
Sempre tive a compreensão de que muita coisa na ideologia punk faz sentido, mas o radicalismo pregado não combina com meu jeito de ser.  
A Rita era mais irreverente. 
Fazia questão de ser a "porra louca do rolê."
Isso me incomodava, mas não a ponto de confrontá-la ou excluí-la.
Afinal, quem gosta de punk rock geralmente tem um quê de rebelde e aceitar os mais radicais também faz parte do pacote.
Mesmo com esse discernimento, eu e a Rita nunca chegamos a nos tornar amigos de verdade. 
Apenas nos comunicávamos, porque fazíamos parte da mesma turma.
Uma vez, numa conversa paralela, no final eu mandei um: — Fica com Deus! 
A Rita surtou!
— Não gosto que falem desse cara!
— Que cara, Rita?
— Deus! Hahahahaha, quem é esse?
— Calma Rita, é só uma forma de despedir da conversa te desejando uma coisa boa.
— Boa, na opinião de quem?
— Na minha...
— Então guarde essa sua opinião idiota pra você! E por favor, nunca mais fale nesse cara comigo!
Eu nunca mais falei de Deus com ela, até porque nunca mais falei com ela em particular. 
Essa história tem pelo menos 20 anos. 
A Rita, tinha atitudes e seguia uma "religião" baseando-se em versos de bandas de rock.
Ela pensava em espancar, bater, subjugar o "inimigo capitalista" e se dizia satanista.
Por isso quando disse: — Fica com Deus, eu falei para provocar.
Falei para colocar uma pulga atrás da orelha dela.
Uma pulga que a alertasse que suas atitudes passavam do limite do aceitável dentro de regras estabelecidas na sociedade.
O punk queria quebrar essas regras. Pregava intolerância e violência.
Soltando essa pulga eu também posso ter sido intolerante?
Posso...
Mas é como eu pensava na época.
Então você deve estar se perguntando:
Como é que eu me julgava punk e aceitava as regras da sociedade, sendo que a maior diretriz da ideologia punk é a anarquia?
Essa é uma boa pergunta, mas não é difícil de responder.
Eu sou contra todos os governos. Não tenho ideologia e nem político de estimação.
Tenho meus valores, e eles se encaixam as vezes com a direita e as vezes com a esquerda. Mas o espírito punk me fez perceber que o "sistema", seja ele qual for, nunca vai trabalhar realmente para o cidadão comum.
E não é a rebeldia, o extremismo, a intolerância que vai mudar o mundo.
O que vai mudar o mundo é a cobrança ao poder público e a educação.
A Rita acreditava que a intolerância era o caminho. 
Hoje não sei em qual caminho ela está.
Eu estou aqui: Conversando, escrevendo e plantando minhas ideias para quem queira escutar.
Prego nos meus escritos que nós temos que nos enxergar como indivíduos importantes. 
Aceito que temos que buscar a felicidade e também prosperidade.
Mas, acredito que podemos fazer tudo isso de maneira limpa.
Não quero acabar com o sistema como gritam as letras de bandas compostas por adolescentes — muitas vezes movidos a droga e alcool — rebeldes. 
Eu quero uma faxina no sistema!
Cresci.
Entendi melhor o problema.
Acredito que o que vai mudar o mundo é a literatura, o incentivo à educação e principalmente interpretação de texto.
Sem isso, não enxergamos as entrelinhas e viramos — como somos — massa de manobra.
Faxina no sistema, já! 



segunda-feira, 6 de abril de 2026

Enxurrada de ideias




Muitas vezes nós temos algumas ideias boas e queremos passá-las adiante num texto, numa crônica, conto ou poesia.
Mas, como uma enxurrada de palavras, nós derramamos essas ideias no texto de forma — às vezes — desleixada. 
Na nossa cabeça fazem muito sentido, mas talvez seja só na nossa cabeça.
Essas ideias até podem ser boas mesmo, mas escritas no ímpeto do calor da criação, elas viram uma colcha de retalhos.
Quando jogamos um texto para o universo, ele pode encontrar o leitor que consiga encaixar as peças, mas também pode encontrar o leitor que não consiga.
Esse segundo leitor que não vai dar conta de montar nosso quebra-cabeças de ideias, está no seu direito. 
Ele não tem essa obrigação!
O leitor não tem culpa se a gente escreveu, não revisou e não viu se nossa linha de raciocínio estava coerente.
Cabe ao escritor essa análise. 
Se escrevemos um texto infanto-juvenil, temos que ser mais óbvios ainda.
Se escrevemos para público adulto, mesmo assim temos que lembrar que existem adultos mais despreparados que meninos de 14 anos.
Nós vivemos em um país onde existem milhares de analfabetos funcionais, e essas pessoas também leem o que escrevemos.
Uma vez eu vi um autor dizendo: "Meu público é diferenciado!"
Mas quem garante isso para ele? De onde ele tirou essa estatística?
Tudo bem que ele até pode ter um feedback de algumas pessoas "diferenciadas" que entenderam o que ele escreveu, mas, e as que não entenderam nada e nem se deram ao trabalho de comentar isso?
Nós, como escritores, ou aprendizes de escritores, temos que entender que escrever não é fácil.
Comunicação não é o que a gente quer dizer, mas sim, o que a pessoa entende.
Se nos comunicarmos corretamente a pessoa vai entender, e aqui é que está a magia da escrita: Se fazer entender.
Organizar as ideias.
Dar sentido às frases.
Criar um bom relacionamento literário para quem nos lê.
E como tudo isso começa?
Com o exercício de escrever, ler o que escreveu e ter a humildade de encontrar erros no que se escreve.
Nós — escritores — não somos melhores que ninguém. Somos falhos, em construção e eternos aprendizes.



quarta-feira, 1 de abril de 2026

Dois meninos



Zéquinha chegou da escola correndo, jogou sua mochila na cama e voou até o fogão. 
Colocou arroz, feijão, bife, ovo frito e um pouco de abóbora. 
Sentou-se no sofá da sala e engoliu a comida, acompanhada de um copo de laranjada. 
Deu um beijo em sua mãe e correu até a frente do portão de Balu seu amigo:
— Anda Balu, "vamo" logo!
Quase que instantaneamente, Balu se materializou na rua com uma bola de capotão debaixo do braço e os dois foram correndo para o campinho, onde seus amigos estavam esperando pra começar a pelada.
Wilson Júnior chegou da escola, abriu a porta devagar, limpou os pés, entrou e colocou sua mochila em cima da escrivaninha do lado esquerdo, encaixada cuidadosamente entre a parede e o computador.
Wilson lavou bem as mãos, enquanto a empregada esquentava o marmitex no forno de microondas. 
No marmitex de hoje veio: arroz, lasanha, batata frita, salpicão e almondegas ao molho. 
Wilson mastigou cada garfada 33 vezes. 
Acompanhou sua refeição com uma lata de refrigerante. 
Ele estava meio amarelo ultimamente. O médico receitou uma vitamina que devia ser tomada logo após o almoço. 
Wilson acabou de almoçar, escovou os dentes e foi para seu quarto ligar o computador.
Zéquinha estava empolgado, seu time estava ganhando do time da rua de baixo, e quem perdesse iria pagar guaraná e paçoquinha pro outro time.
— Toca a bola Roliço — gritou Carlinhos — toca logo!
Roliço tocou a bola pro Carlinhos, que tocou pro Zéquinha que chutou pro gooooooolllllllllllllllllllll!
— Hahahahaha — gargalhou Zéquinha — ganhamos guaraná e paçoquinha!
Wilson Júnior chamou seus amigos da escola para jogar on-line e no meio do jogo apareceram outros "amigos" que ele não conhecia.
Depois da partida emocionante, Zéquinha e os moleques foram roubar manga no quintal do seu Argemiro. Eles fizeram escadinha com as mãos e pularam o muro. 
Os meninos deram sorte porque seu Argemiro havia prendido os cachorros no quintal da frente de sua casa. 
Encheram as panças de manga.
Wilson Júnior era bom em matar os soldados inimigos no computador. Matou, correu, jogou bomba, dirigiu helicóptero e submarino. Ficou sentado em frente ao jogo, das quatro da tarde até as oito da noite quando sua mãe e seu pai chegaram do trabalho.
Zéquinha voltou das brincadeiras por volta das cinco horas. Comeu um pedaço de bolo de fubá com leite e foi fazer a lição de casa.
As sete horas jantou, e se sentou na calçada junto com seus pais e os pais dos seus amigos num grande bate papo. 
As dez, morto de sono, Zéquinha tomou um copo de leite quentinho que sua mãe preparou e desmaiou até o outro dia. Sua mãe foi ao seu quarto, deu-lhe um beijo no rosto, e o cobriu com carinho. 
Ele sorriu mesmo dormindo e sonhou com os anjos.
Os pais de Wilson Júnior estavam checando seus e-mails, ele aproveitou e ficou mais um tempo navegando no Instagram. Depois disso, desceu com cuidado a escada, foi até a cozinha, tomou um copo de refrigerante, abriu um pacote de bolacha recheada, e passando pela sala, falou boa noite aos pais e foi dormir.
Os pais responderam sem levantar e nem tirar os olhos do computador. 
Wilson teve pesadelos... Sonhou que o exército inimigo o estava caçando e que agora ele estava encurralado num beco sem saída, e sem ninguém para ajudar.


quinta-feira, 26 de março de 2026

Abel e Caim

 



Como Abel, ele sempre deu o melhor de si.
Trabalhou, estudou, lutou com o que tinha de melhor.
Ofereceu o que tinha de melhor.

Como Caim, ele não se esmerou tanto assim.
Fez o básico para viver na mediocridade e esperou receber muito.

Como Abel, ele foi visto com inveja.
O cancelaram.
Fizeram bullyng com ele.
O mataram de relacionamentos.
A arma, foi a inveja.

Como Caim, ele nutriu ódio pelos bem sucedidos.
Culpou o mundo, pela sua incompetência.
Culpou o governo, a cidade, a sociedade, pela sua preguiça.
Culpou seus pais e seus irmãos.

Hoje, como Caim, ele vive com o peso dos assassinatos que fez em sua cabeça.
Com o peso das vezes que atacou e culpou, tentando se justificar.
Sua vida é triste e cheia de dúvidas.

Hoje, como Abel, ele vive bem.
Poderia ser mais feliz.
Só não é, porque os incompetentes tentam derrubá-lo constantemente.
Mas ele prossegue.
Dando seu melhor a cada dia.



segunda-feira, 23 de março de 2026

Fora de Moda

 
— Entre, — falou a psicóloga da agência em meio a um sorriso — sente-se aqui. — completou apontando uma cadeira.
O rapaz, candidato a um comercial que seria veiculado na TV em horário nobre, sentou-se e se ajeitou, tentando encantar, com seu melhor sorriso.
— Então, — falou a psicóloga folheando alguns papéis — eu vi aqui no seu currículo que você já participou de várias campanhas publicitárias.
— Sim, participei de comerciais de TV, revistas, sites e até desfiles ao vivo.
— Inclusive, — observou a moça — aqui está dizendo que você foi eleito o bebê mais bonito há 17 anos.
— Fui. — respondeu ele mantendo o sorriso branquíssimo.
— Depois foi um garoto prodígio até a adolescência. Participou daquela novelinha das 18 horas.
— Fiz pequenas figurações.
— Isso! — concordou a psicóloga olhando por cima dos óculos. — E depois dos 15 anos, participou de desfiles e foi eleito mister estudantil ano passado.
— Fui.
— Então — exclamou a psicóloga fazendo careta de desagrado — esse é o problema.
— Problema? Como assim?
— Você é muito bonito para a nossa agência.
— Bonito para a agência?
— Bonito demais. — respondeu ela quase se desculpando. — Nós precisamos de gente comum. Gente "feia". — disse ela fazendo aspas imaginárias com os dedos.
— Gente feia?
— Sim! Queremos gente com cara de índio, ou de japonês nerd e magrelo.
— Ah, é?
— Isso! E queremos negros também, mas negros normais, não negros bonitos. Estamos à procura de negros com cara de trabalhador braçal.
— Trabalhador braçal?
— Trabalhador braçal. — respondeu ela se ajeitando na poltrona, antes de continuar.
— E estamos procurando gordos, também.
— Gordos?
— Sim, mas o gordo não precisa ser negro. Tem que ser gordo, tipo obeso mórbido, sabe?
— Obeso mórbido?
— Isso, e queremos gente desnutrida também. Com manchas de sol no rosto, cabelo queimado de sol. Cara de pobre.
— M... Mas... Por que isso?
— Inclusão social.
— Inclusão social?
— Inclusão social. — disse ela se levantando e estendendo a mão para o rapaz como se estivesse forçando uma despedida.
— Mas a senhora e a agência estão sendo muito radicais. Na sua sociedade não tem gente bonita?
— Anda na rua. Olha para o brasileiro. A grande maioria da periferia é normal. Nem lindo e nem feio.
— Mas e eu?
— Você é anormal. Criado a leite e mel. Faz parte da minoria dos brasileiros. Sabe aquele um por cento que detém noventa por cento da renda?
— Pois saiba a senhora que eu não sou rico, não nasci em berço de ouro. Meus pais sempre trabalharam. Ganham salário.
— Tudo bem! Mas infelizmente você teve o azar de nascer bonito.
— Azar de nascer bonito?
— É, — explicou a psicóloga — o que antes parecia uma dádiva, hoje é um fardo.
— Eu não estou entendendo essa sua agência.
— Parece que você não está entendendo o mundo.
— Como assim?
— Você hoje é a minoria. E o mundo é cruel com as minorias.
— Então eu sou minoria, o mundo é cruel comigo e na sua agência não tem lugar para caras assim como eu?
— É, — respondeu a psicóloga abrindo a porta. — Se eu fosse você eu me preparava para o pior... Seu estereótipo está cada vez mais fora de moda...




segunda-feira, 16 de março de 2026

Dezesseis de março de 2026

 




    5:00 da manhã; José Quispe sai de sua casa no alto de uma colina, aos pés da majestosa Huascaràn, uma das cinco montanhas mais altas da cordilheira dos Andes. 
    Durante a noite a temperatura chegou a - oito graus, mas nesse momento ela estava apenas dois graus negativos. José nem colocou o terceiro casaco.
    Ele abriu a porta, olhou para o horizonte e viu um condor planando ao longe! Isso era um bom presságio, certamente Pachamama; a deusa da terra, da fertilidade e da abundância estava feliz.
    Sorrindo e deixando à mostra seus quatro dentes, José pegou um balde e caminhou por entre a estradinha de pedras, que seus ancestrais fizeram há milhares de anos, e foi até a neve que cobria a vegetação rasteira ao lado de onde as lhamas estavam fechadas em um curral.
    Ele encheu o balde de neve e trouxe até sua casa, para aquecê-la em uma panela de pedra no fogão à lenha, para fazer a água, que ele misturaria com quinoa, gordura de lhama, leite de cabra e ovos, para assar e fazer seu pão, antes de sair com seus filhos para levar as cabras e as lhamas para pastar.
    5:00 da manhã; Patricio Pereira colocava mais uma leva de pães no forno.
    O dia em Lisboa estava começando movimentado. As pessoas corriam de ônibus, metrô, carros e motos, indo para seus trabalhos bater seus cartões, mas antes, passariam na padaria Nossa Senhora de Fátima, e não poderiam demorar.
    Pães, bolos, pasteizinhos de Belém, broas, leite, café e chá. Tudo deveria estar pronto, para as seis horas em ponto, quando as portas da padaria fossem abertas, e a enxurrada de clientes se acotovelassem no balcão.
    5:00 da manhã; e Xiao Luaoling deixava seu turno na fábrica em que trabalhava e seguia para sua casa que ficava no conjunto residencial número 17. Seu andar era o nono e seu apartamento era o 153.
    Ele agradecia todos os dias ao presidente Xi Jinping, porque tinha um trabalho indicado pelo governo, tinha moradia cedida pelo governo, seus filhos poderiam estudar em uma escola indicada pelo governo.
    Sorridente, ele pegava o café da manhã na cantina da fábrica e agradecido levava para casa, onde daqui há pouco todos estariam em volta da mesa, agradecendo ao presidente pela primeira refeição.
    5:00 da manhã; Omar El Kadri caminha pelos destroços do último ataque.
    Ontem a escola onde ele e a família estavam abrigados veio abaixo.
    Um míssil de Israel atingiu o telhado e a estrutura de madeira caiu. Graças a Alah (ele pensou), nenhuma telha ou viga caiu em ninguém de sua família.
    Depois do ataque eles se mudaram e agora estavam amontoados no quartinho que restava do antigo posto de saúde.
    Eles dividiam o espaço minúsculo com outras nove famílias, se revezando entre quem vigiava os ataques e quem dormia.
    Omar entrou na fila do pão. Os médicos sem fronteira e a ONU, distribuíam diariamente uma porção de pão sem fermento e um litro de leite para cada quatro membros de cada família. Se a família tivesse mais membros, eles poderiam pegar a porção dobrada.
    A cada 15 dias, todos deveriam comparecer à contagem, para atualizar o número de membros, pois a guerra era cruel, e as famílias diminuíam todos os dias.
    5:00 da manhã; o forno elétrico de Theodore Maxwel apitava três vezes: Piiiii... piiii... piiii...., indicando que o pão estava pronto.
    Theodore gostava de programar seu forno para que seu pão ficasse pronto 2 horas antes dele acordar, porque assim dava tempo de a farinha sem glúten descansar e absorver melhor o sabor das castanhas, da gordura de coco, dos grãos integrais e do açúcar mascavo.
    Theodore era um homem fitness e exigente com sua dieta. Diminuíra muito a carne vermelha e os açúcares. Diminuíra também as farinhas e grãos processados.
    Ele só almoçava em restaurantes da chamada “comida saudável”, que era uma organização que determinava o cardápio semanal das pessoas amigas da boa forma e da natureza.
    Theodore sabia que seus investimentos na bolsa de valores lhe davam essa mordomia, e ele não agradecia ninguém por isso, pois tudo o que ele tinha ou era, se devia a seu esforço pessoal.
    Uma coisa que deixava Theodore feliz, era que uma parte do dinheiro que gastava nos restaurantes da comida saudável, era revertido para o fundo de solidariedade aos pandas gigantes da Indonésia, que estavam em risco de extinção.
    A próxima campanha seria pelas girafas da Amazônia, e Theodore estava ansioso em poder ajudar.
    5:00 da manhã do dia dezesseis de março de 2026!
    Todos acordaram para mais um dia! Todos no mesmo planeta, mas vivendo em épocas históricas diferentes.
    Alguns indígenas acordaram para caçar o pão, imigrantes italianos na serra gaúcha fizeram polenta com fubá moído no moinho de pedra, alguns nordestinos dividiram uma porção de cuscuz entre nove irmãos, americanos do Alaska comeram bacon de alce, que estavam enterrados no gelo atrás da casa. 
    Idade Média, Idade Moderna e Idade Contemporânea se misturando na mesma volta do relógio...


  

segunda-feira, 9 de março de 2026

Tic-tac



Acorda cedo.
O relógio acorda depois.
Lavar rosto, tomar café, dar um beijo na esposa.
Afago no filho.
Minutos se passam.
Rua, trânsito, ônibus, metrô...
Horas se passam.
O relógio de ponto diz: — Obrigada!
Seria uma relógia?
Besteiras na cabeça.
Trabalha.
Trabalha.
Trabalha.
Horas se passam.
Chega o almoço.
Minutos se passam.
O relógio de ponto diz: — Obrigada!
Será que colocaram essa voz feminina para as regras ficarem mais doces?
Trabalha.
Trabalha.
Trabalha.
Horas se passam.
Hora de ir para casa.
Rua, trânsito, ônibus, metrô...
Horas se passam.
Janta, TV, beijo na esposa.
Afago no filho.
Minutos se passam.
O olho fecha, o olho abre.
Acorda cedo.
O relógio acorda depois.


quarta-feira, 4 de março de 2026

O mistério da falta d'água






Há uns anos, eu estava altas horas da noite passando de canal em canal na televisão, até que meio sonolento parei no programa do Jô — puxa... como eu gostava do Jô...  
Ele estava entrevistando um cidadão, que (me desculpe cidadão entrevistado), eu não lembro o nome. 
No meio da entrevista, esse cidadão falou que a falta d’água no mundo se dá porque tem muita gente na Terra, e que cada pessoa, se tiver uma estatura média com pelo menos um metro e sessenta de altura e em boa forma física, tem dentro de si em média vinte litros de água.
No dia eu achei que o cara era maluco, onde já se viu uma conversa boba dessas!
Só que depois de uns meses, eu fui fazer um exame que se chama bioimpedância magnética, bonito nome né? 
Bioimpedância magnética! 
Quando o médico me deu o resultado do exame eu fiquei chocado. Gente! Eu tenho dentro do meu corpo vinte e sete litros de água! Vinte e sete litros!
Você sabe o que é vinte e sete litros de água?
Dá pra um gato morrer afogado!
Então eu entendi que o entrevistado do Jô não era tão maluco assim — ou eu que estou ficando. 
Porque, se for fazer as contas direitinho, quanto mais a população cresce mais água vai faltando. 
Imagina na Índia, quantos litros de água andam na rua pra lá e pra cá? 
E na China? Aquelas águas amarelas vendendo pastel! 
E o meu vizinho Heitor, ele deve ter uns cento e noventa quilos, bem gordão e grandão. 
Agora, por culpa desse entrevistado do Jô, toda vez que o vejo, eu logo penso numa caixa d’água. 
Esses dias eu estava podando minha árvore na calçada quando ele veio conversar comigo. Na medida em que ele caminhava, na minha mente eu imaginava uma caixa d’água transbordando dos lados, e a cada passo que ele dava, eu imaginava um som tipo assim: "Blob, blob, blob."
Nossa que pensamento ruim... O duro é que ele parou perto de mim e eu comecei a pensar que água parada dá dengue! Mas aí já é demais né? Acho que estou pirando na maionese com esse assunto...
Então comecei a refletir esses dias. O certo seria nós humanos pararmos de dar vitaminas, fortificantes, fubá, e coisas que fazem as crianças crescerem, ou parar de fazer tanta criança, porque agora, a média de idade está subindo cada vez mais e as pessoas estão morrendo cada vez menos!
Isso, em um cálculo simples, aponta que as águas estão demorando mais a voltar para a natureza, ou seja: Mais gente, menos água.
Imaginem só as mulheres estão cada vez ficando maiores, mais malhadas e popozudas. Quanta água é preciso para isso? 
Bom, se bem que muitas não é água, é silicone... Ufa... Ainda bem!
Daqui uns dias vai começar a faltar é silicone, mas aí tudo bem porque eu não bebo silicone. 
Os maridos que terão que pagar os implantes é que vão chorar.
Acho que vai ter gente desenterrando  silicones depois de um tempo nos cemitérios.
Bom... Mas voltando ao assunto da água, a solução é economizar, beber menos água, lavar menos o carro, lavar menos o quintal, dar menos descarga no vaso sanitário, (isso é difícil), e usar a imaginação para economizar. Cada vez mais economizar.
Se a gente for ver, ecologicamente correto é o anão, que deve ter só uns sete litros d’água no seu corpinho...
O anão e o pônei... Porque um cavalo deve ter uns 300 litros de água...



quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

SAC





Se quiser falar em contas a pagar, digite... 1.
Reclamações digite... 2.
Atendimento ao cliente banda larga digite... 3.
Ou permaneça na linha para falar com um atendendente...
...
...
Aguarde, você é o número... 3... na fila.
...
Você já escaneou nosso QR code?
Em todas as... embalagens de nossos produtos, você encontra um QR code que te direciona para nosso site.
...
Aguarde, você é o número... 2... na fila.
...
...
...
Você conhece nossa linha de WhatsApp? 
Em todas as embalagens... de nossos produtos, você encontra um QR code que te direciona para nosso site, onde você encontra nosso WhatsApp, na aba... fale conosco.
...
...
Aguarde, você é o número... 1... na fila.
...
Você conhece nosso SAC?
Em todas... as embalagens... de nossos produtos, você... encontra um QR code que te direciona para nosso site, onde você encontra o nosso 0800 na aba fale conosco.
...
...
...
...
Aguarde, você é o número... 1... na fila.
KXJNXWHDWOIWEIUHDM aaaaaaa... alô!? 
Tuuuu, tuuuu, tuuuu, tuuuu...


segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Bem-vindos


Vamos fazer uma postagem interativa?
Eu vou dar uns detalhes e vocês usam suas imaginações.
Imagine uma pessoa falastrona. Tentando ser simpática como um desses apresentadores de circo. 
Imagine ele com feições e risadas sarcásticas. 
Agora imagine ele saindo das sombras. Emergindo da penumbra e oferecendo algo bem pertinho do seu ouvido. 
Imagine ele oferecendo isso pra alguém que você ama muito, seu filho, seu irmão, sua namorada. 
Imagine que ao fitá-lo nos olhos, você percebesse algo de diabólico no olhar desse ser. 
Imaginou tudo isso? Então boa leitura.
  



— Olá rapaz, olá senhorita! Bem-vindos ao novo mundo! Um mundo de alegrias, conquistas, status. Olá rapaz, olá jovenzinha! Eu lhes apresento aqui e agora o divertimento... O divertimento! A saciedade de emoções. As luzes que piscam! O desprendimento da realidade que lhes oprime. Nada mais vai te oprimir, basta você me deixar te ajudar. Pois, com uma pequenina porção dessa maravilha você vai se transformar, vai ficar forte, ágil, destemido e corajoso. Você vai deixar de ser triste, vai deixar se ser tímido, vai deixar de se esconder! Você vai se surpreender, vai fazer coisas que nem sabia que era capaz. E essa transformação talvez dure até a noite toda! Isso... Talvez dure até a noite toda! Mas não se preocupe meu rapaz, não se preocupe linda garota, pois quando o efeito acabar eu não os abandonarei! Agora essa maravilha toda lhe custará bem pouco. Agora lhe custará pouco! Depois, talvez, mas só talvez, poderá lhe custar a eternidade. Mas me responda: quem lhe garante que existe eternidade? Bem-vindos ao novo mundo!