quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Caos





O espião desse século atravessou a rua.
Olhou para cima e para baixo.
Atravessou sem medo.
Nenhum carro na rua... Nem vento.
Nem pardais.
Ele ajustou o tripé de sua luneta.
Examinou a cidade.
Anotou em seu papiro.
Comércio fechado. 
Pessoas escondidas.
Não havia vida...
Nada de expectativa.
A aura de esperança não pairava em cima das casas.
O espião desse século se conectou às mentes que se deixavam conectar.
Viu pais contando o dinheiro do salário que diminuira muito.
Viu mães olhando a despensa e percebendo que os mantimentos estavam acabando.
Viu funcionários parados, pensando na vida, sem trabalhar...
Mas estranhamente o mensageiro desse século percebeu uma alegria desmedida.
Mesmo com tantas coisas erradas e futuro sombrio, ele não entendeu.
As pessoas estavam ansiosas.
Porque...
...
...
Sexta-feira começa o carnaval!
Alalaô ôôô ôôô, mas que calô ôôô ôôô...
... atravessamos o deserto do Saara, 
o sol estava quente e queimou a nossa cara...
Alalaô ôôô ôôô, mas que calô ôôô ôôô...


segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

Gorducho

 
Esses dias a médica pegou os resultados dos meus exames na mão e ficou olhando para eles e para mim.
Para eles e para mim.
Para eles e para mim.
— Esses exames são seus mesmo?
— Como?
— Esses exames, — ela falou como quem explica uma coisa para uma criança — são seus mesmo?
— Uai? São... não são?
Ela olhou para os exames, olhou para mim.
Me mediu de  cima abaixo.
Se esticou na cadeira para ficar mais alta e me olhar de cima para baixo.
— Seu nome é?
— A senhora sabe meu nome.
— Só para confirmar — ela insistiu com cara séria.
— André, uai...
— André de quê?
— Mansim.
— Seu CPF é esse? — ela perguntou virando a tela do computador para mim e apontando com a caneta.
— É...
— M... mas... não pode ser.
— Não pode?
— Não pode, — ela respondeu ficando de pé, e com o olhar, me pedindo para levantar e subir em uma balança que ficava ao lado de uma maca.
— Tem alguma coisa grave aí, doutora?
— Cento e dois quilos e deixa eu ver... — ela balbuciou pensativa e sem responder minha pergunta, enquanto levantava um tipo de régua que ficava na balança — um metro e setenta e dois.
— Tem alguma coisa grave aí, doutora?
— Tem...
— Tem?
— Tem...
— O que tem? — perguntei já achando que estava pela hora da morte.
— O grave é que você não tem nada de errado! Seu colesterol bom está ótimo, seu colesterol ruim está ótimo, sua glicemia está ótima, seu coração está ótimo, triglicerídeo ótimo, suas vitaminas, hormônios, sangue... Tudo está ótimo!
Ela me olhou de cima abaixo.
Olhou para os exames e olhou para mim.
Para os exames e para mim.
De cima abaixo.
Exames... Eu...
Eu... Exames...
— Isso não pode estar certo!
— Não pode?
— Você está muito perfeito. Sua aparência não condiz com esses exames.
— A senhora parece que ficou triste com isso.
— Lógico!
— Lógico?
— Como é que vou te falar pra caminhar, comer menos carboidrato, beber menos, fumar menos.
— Mas eu nem fumo.
— Então! Nem isso eu posso falar.
— Desculpa...
— Quando foi a última vez que você foi magro?
— Acho que quando eu era espermatozoide, porque eu ganhei a corrida. Depois eu nasci com quatro quilos e nunca mais emagreci.
— Deve ser isso então... — ela deu uma risada estridente, tirou os óculos e depois falou mais uma vez pensativa. — Seu corpo funciona muito bem, para o biotipo que você tem. Talvez, se você emagrecer ele até desregule...
— E agora?
— Você viu esse homem que saiu daqui a hora que você entrou?
— Vi sim.
— Ele está em forma. Até corre maratona. Malha quatro vezes por semana e corre todos os dias.
— Hummm...?
— Ele é diabético grave, colesterol alteradíssimo e toma remédio de pressão.
— Hummm...?
— Pra você, — ela falou me entregando os exames — não tem o que fazer. Sua pressão altera por motivos de estresse. Falta de férias. Muitos compromissos e problemas.
— Eita...
— Vou te receitar um remedinho aqui, bem básico e bem fraco. Mas você é um grande candidato a morrer de repente e sem explicação.
— Como? Mas não estava tudo bem?
— Sim... E esse é o problema. Clinicamente você está bem. Mas sua pressão altera por motivos externos e isso não tem remédio. Esses são os que morrem de repente.
— Ixi... Mas o que eu tenho que fazer?
— Caminhar, comer menos carboidrato, menos doces, beber menos e parar de fumar.
— Eu não fumo...
— Nem comece...
— Tá...
— E o principal... — continuou ela como se lê-se uma bula de remédios — Divirta-se, viva a vida, desestresse-se, leia livros, assista filmes, séries, faça exercícios e não perca tanto peso.
— Não perder peso?
— Sim... Para não desregular...


Esse texto é baseado em fatos reais...
Só dei uma floreadinha pra ficar mais engraçadinho.
Mas os exames e as falas da médica, são mais ou menos essas mesmo.


quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

Batalha espiritual

 



— Jagunço! Como assim, você não acabou com a vida dele?
— Ainda não consegui!
— Por quê?
— Porque ajudaram ele várias vezes.
— Não pode ser, — disse o mestre do calabouço — esse cara é um qualquer, ele não tem ninguém que goste dele.
— Impossível, mestre! — respondeu o jagunço nervoso. — Alguém ajudou.
— Nós prometemos destruir ele em sete dias! Hoje é o último dia, seus incompetentes.
— Mas tem alguém atrapalhando a gente. — defendeu-se a mulher de vermelho.
— Acho que vocês é que são incompetentes!
— Não mestre... Eu estou fazendo a minha parte. — defendeu-se Jagunço suando frio. 
— E vocês dois? — apontou o mestre do calabouço estralando seu chicote.
— Eu tramei contra ele ainda hoje. — rosnou o homem da capa preta. — Coloquei um carro em alta velocidade na encruzilhada, não tinha como ele escapar, mas antes dele chegar na esquina um galho de uma árvore caiu na rua, ele teve que desviar, isso o atrasou cinco segundos. Esses cinco segundos salvaram o cara.
— Aí você desistiu? — falou o mestre do calabouço estralando seu chicote com raiva nas costas do homem da capa preta.
— Não mestre! Eu fiz outra armadilha em outra encruzilhada. Ele estava correndo com a moto, eu estourei um cano e a companhia de água fez um buraco bem na curva, não tinha como ele ver. Mas quando ele estava chegando na curva, uma mulher com um carrinho de bebê resolveu atravessar. Ele brecou, viu o buraco e por isso desviou calmamente da valeta.
— Não pode ser!
— Alguém está protegendo ele, mestre. — disse a mulher de vermelho.
— Eu já falei! Ele não tem amigos! Ninguém gosta dele. Nem mãe, nem pai, nem a mulher que pagou para a gente dar fim na vida dele.
— Eu também tentei, — disse a mulher se explicando — ontem no bar, eu fiz ele beber. Fiquei falando no ouvido dele até ele ficar bêbado. Depois fiz ele se aproximar da mulher de um traficante. Ele se aproximou. Mandei uma das minhas meninas ficar jogando setas no ouvido do traficante até ele ficar enciumado sem saber porquê. Quando o bandido estava chegando no bar, e ia pegar os dois no flagrante, tinha dois policiais disfarçados na mesa do lado só esperando o traficante entrar. Estavam de campana! Não deu tempo do bandido reagir. Quando viu, já estava algemado.
— E você? Das caveiras... Você também falhou! — repreendeu o mestre do calabouço apontando para seu subordinado.
— Falhei! Mas é como todos falaram. Esse cara tem o couro grosso! Alguém está protegendo ele.
— Não pode ser! Eu já disse! Não tem ninguém que goste dele. Ele só deu tristeza para os pais. Brigou com o irmão. Traiu a mulher, que até fez a oferenda pra gente acabar com ele.
— Eu convoquei um pessoal lá na boca do lixo. Falei no ouvido deles para que eles pedissem lanches e providenciei para que nosso alvo fosse entregar. Sugeri que todos estivessem chapados quando ele chegasse com o lanche e que dessem um fim na vida dele. Todos estavam loucos, Falei no ouvido de cada um. Joguei as setas dizendo que o entregador devia dinheiro para o crime. Confundi a cabeça deles. Não tinha como dar errado.
— Não tinha? Mas deu. Não deu?
— Sim, e é por isso que eu acho que ele está sendo protegido. Na mesma hora que ele chegou com o lanche, uns misionários de uma igreja estavam batendo palmas na porta da casa, querendo levar a palavra Daquele Outro!
— No mesmo instante?
— Sim! Aí não tem como eu prever essas coisas. Chegaram juntos!
Nesse momento a porta do calabouço se abre. O corcunda sai em meio às sombras e entra pelo corredor, até onde essa reunião de "negócios" está acontecendo.
— Espero que você tenha um motivo muito importante para atrapalhar a gente. — falou o mestre do calabouço estralando seu chicote.
— Tenho mestre, — respondeu o corcunda se prostrando e entregando um papel para seu mestre.
— O que papel é esse?
— Uma quebra de contrato.
— Como assim?
— O mestre do salão branco mandou a gente parar de perseguir o Marcos, motivo dessa reunião que o senhor está fazendo.
— Eu não posso! Já fomos pagos para acabar com a vida dele. E só poderíamos parar por motivo de força maior. Se alguém estivesse orando e jejuando por ele, ou se ele fosse uma pessoa temente a Deus — o que ele não é!
— Leia aí no documento mestre. — Apontou o corcunda.
O mestre do calabouço, nervoso, olhou para o documento e o leu em silêncio: "Por motivo de força maior, imposto pela avó do Marcos, dona Dalva, por ter feito uma novena, onde todos os dias se colocou de joelhos, orou e jejuou pelo seu neto, declaro quebrado o contrato que implicava na morte do referido. Deixando-o livre de inimigos e proibindo vocês de atentarem contra sua vida"
O mestre do calabouço gritou de raiva! Estralou seu chicote, açoitou seus súditos e depois de descarregar sua raiva, falou:
— Essas avós malditas! Sempre com o coração de manteiga! Sempre orando e jejuando por quem não presta! E o pior... As orações delas ganham no final e o calabouço fica com um morador a menos!



segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

Voltando aos trabalhos






Quando eu criei esse blog eu tinha a intenção de escrever, desenhar, conversar e expor minhas ideias sem a perspectiva de que essas ideias chegassem a outras pessoas.
Naquele tempo os blogs estavam em alta. Muita gente escrevia e conversava através dessa rede, que os mais antigos chamam de blogosfera.
São muitos anos blogando, e isso exige energia e tempo da gente.
Ainda mais para um bobo como eu, que penso, repenso e tento trazer textos que tenham algum conteúdo — pelo menos imagino que tenha — literário.
Mas hoje o mundo mudou. 
Ele está maluco. 
As pessoas mudaram.
Nós mudamos.
Os problemas, com o passar do tempo, se acumulam e nós ainda estamos aqui... 
No olho de nossos furacões.
Sim! Nós criamos nossos furacões.
Eu sei que muita gente diz: — Eu escrevo por prazer, e não ligo se as pessoas leem ou não.
Me desculpem, mas eu não acredito nessa frase.
Todo mundo que tem um blogue quer ser lido.
Todo mundo que tem um blogue quer interação com amigos e leitores.
Se você realmente não liga para isso, eu te desafio a desativar os comentários do seu blog.
...
Tá vendo?
Reparou como é importante a interação?
Você quer ser lido!
Todo mundo se importa com o reconhecimento do seu trabalho.
Eu vejo que algumas pessoas levam o blog como se fosse um diário mesmo.
Escrevendo de si, para si e focando apenas em seus problemas. 
Acho bacana isso.
Outras pessoas, se esmeram pra caramba. Fazem postagens que são verdadeiros artigos de revistas ou portais eletrônicos, dignos de aplausos.
Outros são poetas brilhantes.
Outros são cronistas brilhantes.
Outros são medianos.
Mas, mesmo os medianos têm muito valor. 
Eles escrevem!
Interagem. 
Acreditam que sabem escrever e com o tempo melhoram.
O treino com a escrita e a interação ajuda a todos.
Todos ganham.
Todos melhoram.
Eu acho que até já passei um pouquinho da categoria de mediano e estou chegando à categoria de melhorzim um poquim.
Hoje, estou voltando dessas férias bloguísticas e espero ter gás para escrever, interagir, aprender e ajudar na blogosfera por um bom tempo ainda.
Sejam bem-vindos à temporada 2026 de Verdades e Bobagens.
Mas calma... não se iluda! 
Aqui tem muito mais bobagens que verdades.
Afinal... O que é a verdade?



quinta-feira, 29 de janeiro de 2026

Anota aí:

 





terça-feira, 9 de dezembro de 2025

Inté...

 

Amigos!
Resolvi dar um tempo no blog.
Não vou encerrar as atividades, mas vou suspender.
Uma férias.
Talvez férias grandes e talvez férias pequenas.
No momento estou numa fase onde escrever não está sendo tão prazeroso.
Eu sei que essa fase vai passar.
Quando passar eu volto a postar.
Tenham um lindo final de ano.
Tenham um lindo Natal.
Vocês da blogosfera, são pessoas bacanas e sensíveis.
Um grande abraço!
Até logo...

quinta-feira, 4 de dezembro de 2025

A ponte

 


Debaixo daquela ponte, não passa boi, não passa boiada.
Mas passa manada...
Uns viram para a esquerda.
Outros viram para a direita.