segunda-feira, 16 de março de 2026

Dezesseis de março de 2026

 




    5:00 da manhã; José Quispe sai de sua casa no alto de uma colina, aos pés da majestosa Huascaràn, uma das cinco montanhas mais altas da cordilheira dos Andes. 
    Durante a noite a temperatura chegou a - oito graus, mas nesse momento ela estava apenas dois graus negativos. José nem colocou o terceiro casaco.
    Ele abriu a porta, olhou para o horizonte e viu um condor planando ao longe! Isso era um bom presságio, certamente Pachamama; a deusa da terra, da fertilidade e da abundância estava feliz.
    Sorrindo e deixando à mostra seus quatro dentes, José pegou um balde e caminhou por entre a estradinha de pedras, que seus ancestrais fizeram há milhares de anos, e foi até a neve que cobria a vegetação rasteira ao lado de onde as lhamas estavam fechadas em um curral.
    Ele encheu o balde de neve e trouxe até sua casa, para aquecê-la em uma panela de pedra no fogão à lenha, para fazer a água, que ele misturaria com quinoa, gordura de lhama, leite de cabra e ovos, para assar e fazer seu pão, antes de sair com seus filhos para levar as cabras e as lhamas para pastar.
    5:00 da manhã; Patricio Pereira colocava mais uma leva de pães no forno.
    O dia em Lisboa estava começando movimentado. As pessoas corriam de ônibus, metrô, carros e motos, indo para seus trabalhos bater seus cartões, mas antes, passariam na padaria Nossa Senhora de Fátima, e não poderiam demorar.
    Pães, bolos, pasteizinhos de Belém, broas, leite, café e chá. Tudo deveria estar pronto, para as seis horas em ponto, quando as portas da padaria fossem abertas, e a enxurrada de clientes se acotovelassem no balcão.
    5:00 da manhã; e Xiao Luaoling deixava seu turno na fábrica em que trabalhava e seguia para sua casa que ficava no conjunto residencial número 17. Seu andar era o nono e seu apartamento era o 153.
    Ele agradecia todos os dias ao presidente Xi Jinping, porque tinha um trabalho indicado pelo governo, tinha moradia cedida pelo governo, seus filhos poderiam estudar em uma escola indicada pelo governo.
    Sorridente, ele pegava o café da manhã na cantina da fábrica e agradecido levava para casa, onde daqui há pouco todos estariam em volta da mesa, agradecendo ao presidente pela primeira refeição.
    5:00 da manhã; Omar El Kadri caminha pelos destroços do último ataque.
    Ontem a escola onde ele e a família estavam abrigados veio abaixo.
    Um míssil de Israel atingiu o telhado e a estrutura de madeira caiu. Graças a Alah (ele pensou), nenhuma telha ou viga caiu em ninguém de sua família.
    Depois do ataque eles se mudaram e agora estavam amontoados no quartinho que restava do antigo posto de saúde.
    Eles dividiam o espaço minúsculo com outras nove famílias, se revezando entre quem vigiava os ataques e quem dormia.
    Omar entrou na fila do pão. Os médicos sem fronteira e a ONU, distribuíam diariamente uma porção de pão sem fermento e um litro de leite para cada quatro membros de cada família. Se a família tivesse mais membros, eles poderiam pegar a porção dobrada.
    A cada 15 dias, todos deveriam comparecer à contagem, para atualizar o número de membros, pois a guerra era cruel, e as famílias diminuíam todos os dias.
    5:00 da manhã; o forno elétrico de Theodore Maxwel apitava três vezes: Piiiii... piiii... piiii...., indicando que o pão estava pronto.
    Theodore gostava de programar seu forno para que seu pão ficasse pronto 2 horas antes dele acordar, porque assim dava tempo de a farinha sem glúten descansar e absorver melhor o sabor das castanhas, da gordura de coco, dos grãos integrais e do açúcar mascavo.
    Theodore era um homem fitness e exigente com sua dieta. Diminuíra muito a carne vermelha e os açúcares. Diminuíra também as farinhas e grãos processados.
    Ele só almoçava em restaurantes da chamada “comida saudável”, que era uma organização que determinava o cardápio semanal das pessoas amigas da boa forma e da natureza.
    Theodore sabia que seus investimentos na bolsa de valores lhe davam essa mordomia, e ele não agradecia ninguém por isso, pois tudo o que ele tinha ou era, se devia a seu esforço pessoal.
    Uma coisa que deixava Theodore feliz, era que uma parte do dinheiro que gastava nos restaurantes da comida saudável, era revertido para o fundo de solidariedade aos pandas gigantes da Indonésia, que estavam em risco de extinção.
    A próxima campanha seria pelas girafas da Amazônia, e Theodore estava ansioso em poder ajudar.
    5:00 da manhã do dia dezesseis de março de 2026!
    Todos acordaram para mais um dia! Todos no mesmo planeta, mas vivendo em épocas históricas diferentes.
    Alguns indígenas acordaram para caçar o pão, imigrantes italianos na serra gaúcha fizeram polenta com fubá moído no moinho de pedra, alguns nordestinos dividiram uma porção de cuscuz entre nove irmãos, americanos do Alaska comeram bacon de alce, que estavam enterrados no gelo atrás da casa. 
    Idade Média, Idade Moderna e Idade Contemporânea se misturando na mesma volta do relógio...


  

segunda-feira, 9 de março de 2026

Tic-tac



Acorda cedo.
O relógio acorda depois.
Lavar rosto, tomar café, dar um beijo na esposa.
Afago no filho.
Minutos se passam.
Rua, trânsito, ônibus, metrô...
Horas se passam.
O relógio de ponto diz: — Obrigada!
Seria uma relógia?
Besteiras na cabeça.
Trabalha.
Trabalha.
Trabalha.
Horas se passam.
Chega o almoço.
Minutos se passam.
O relógio de ponto diz: — Obrigada!
Será que colocaram essa voz feminina para as regras ficarem mais doces?
Trabalha.
Trabalha.
Trabalha.
Horas se passam.
Hora de ir para casa.
Rua, trânsito, ônibus, metrô...
Horas se passam.
Janta, TV, beijo na esposa.
Afago no filho.
Minutos se passam.
O olho fecha, o olho abre.
Acorda cedo.
O relógio acorda depois.


quarta-feira, 4 de março de 2026

O mistério da falta d'água






Há uns anos, eu estava altas horas da noite passando de canal em canal na televisão, até que meio sonolento parei no programa do Jô — puxa... como eu gostava do Jô...  
Ele estava entrevistando um cidadão, que (me desculpe cidadão entrevistado), eu não lembro o nome. 
No meio da entrevista, esse cidadão falou que a falta d’água no mundo se dá porque tem muita gente na Terra, e que cada pessoa, se tiver uma estatura média com pelo menos um metro e sessenta de altura e em boa forma física, tem dentro de si em média vinte litros de água.
No dia eu achei que o cara era maluco, onde já se viu uma conversa boba dessas!
Só que depois de uns meses, eu fui fazer um exame que se chama bioimpedância magnética, bonito nome né? 
Bioimpedância magnética! 
Quando o médico me deu o resultado do exame eu fiquei chocado. Gente! Eu tenho dentro do meu corpo vinte e sete litros de água! Vinte e sete litros!
Você sabe o que é vinte e sete litros de água?
Dá pra um gato morrer afogado!
Então eu entendi que o entrevistado do Jô não era tão maluco assim — ou eu que estou ficando. 
Porque, se for fazer as contas direitinho, quanto mais a população cresce mais água vai faltando. 
Imagina na Índia, quantos litros de água andam na rua pra lá e pra cá? 
E na China? Aquelas águas amarelas vendendo pastel! 
E o meu vizinho Heitor, ele deve ter uns cento e noventa quilos, bem gordão e grandão. 
Agora, por culpa desse entrevistado do Jô, toda vez que o vejo, eu logo penso numa caixa d’água. 
Esses dias eu estava podando minha árvore na calçada quando ele veio conversar comigo. Na medida em que ele caminhava, na minha mente eu imaginava uma caixa d’água transbordando dos lados, e a cada passo que ele dava, eu imaginava um som tipo assim: "Blob, blob, blob."
Nossa que pensamento ruim... O duro é que ele parou perto de mim e eu comecei a pensar que água parada dá dengue! Mas aí já é demais né? Acho que estou pirando na maionese com esse assunto...
Então comecei a refletir esses dias. O certo seria nós humanos pararmos de dar vitaminas, fortificantes, fubá, e coisas que fazem as crianças crescerem, ou parar de fazer tanta criança, porque agora, a média de idade está subindo cada vez mais e as pessoas estão morrendo cada vez menos!
Isso, em um cálculo simples, aponta que as águas estão demorando mais a voltar para a natureza, ou seja: Mais gente, menos água.
Imaginem só as mulheres estão cada vez ficando maiores, mais malhadas e popozudas. Quanta água é preciso para isso? 
Bom, se bem que muitas não é água, é silicone... Ufa... Ainda bem!
Daqui uns dias vai começar a faltar é silicone, mas aí tudo bem porque eu não bebo silicone. 
Os maridos que terão que pagar os implantes é que vão chorar.
Acho que vai ter gente desenterrando  silicones depois de um tempo nos cemitérios.
Bom... Mas voltando ao assunto da água, a solução é economizar, beber menos água, lavar menos o carro, lavar menos o quintal, dar menos descarga no vaso sanitário, (isso é difícil), e usar a imaginação para economizar. Cada vez mais economizar.
Se a gente for ver, ecologicamente correto é o anão, que deve ter só uns sete litros d’água no seu corpinho...
O anão e o pônei... Porque um cavalo deve ter uns 300 litros de água...



quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

SAC





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KXJNXWHDWOIWEIUHDM aaaaaaa... alô!? 
Tuuuu, tuuuu, tuuuu, tuuuu...


segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Bem-vindos


Vamos fazer uma postagem interativa?
Eu vou dar uns detalhes e vocês usam suas imaginações.
Imagine uma pessoa falastrona. Tentando ser simpática como um desses apresentadores de circo. 
Imagine ele com feições e risadas sarcásticas. 
Agora imagine ele saindo das sombras. Emergindo da penumbra e oferecendo algo bem pertinho do seu ouvido. 
Imagine ele oferecendo isso pra alguém que você ama muito, seu filho, seu irmão, sua namorada. 
Imagine que ao fitá-lo nos olhos, você percebesse algo de diabólico no olhar desse ser. 
Imaginou tudo isso? Então boa leitura.
  



— Olá rapaz, olá senhorita! Bem-vindos ao novo mundo! Um mundo de alegrias, conquistas, status. Olá rapaz, olá jovenzinha! Eu lhes apresento aqui e agora o divertimento... O divertimento! A saciedade de emoções. As luzes que piscam! O desprendimento da realidade que lhes oprime. Nada mais vai te oprimir, basta você me deixar te ajudar. Pois, com uma pequenina porção dessa maravilha você vai se transformar, vai ficar forte, ágil, destemido e corajoso. Você vai deixar de ser triste, vai deixar se ser tímido, vai deixar de se esconder! Você vai se surpreender, vai fazer coisas que nem sabia que era capaz. E essa transformação talvez dure até a noite toda! Isso... Talvez dure até a noite toda! Mas não se preocupe meu rapaz, não se preocupe linda garota, pois quando o efeito acabar eu não os abandonarei! Agora essa maravilha toda lhe custará bem pouco. Agora lhe custará pouco! Depois, talvez, mas só talvez, poderá lhe custar a eternidade. Mas me responda: quem lhe garante que existe eternidade? Bem-vindos ao novo mundo!


segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

Conversas carnavalescas

 


— Ei, onde você vai?
— Vou descendo a ladeira do pelô!
— O que tem lá?
— Tem reboleition, é reboleition, é reboleition, é reboleition...
— E o que mais?
— Ohhh, maiiinha! Anda na prancha, cuidado o tubarão vai te pegar.
— Como? Não entendi...
— É reboleition, é reboleition, é reboleition, é reboleition...
— Isso eu sei caramba, eu quero saber o que tem mais lá?
— Levada louca, levada louca, levada louca cá cá cá.
— Levada louca? Mas não estou te entendedendo...
— TIRA O PÉ DO CHÃÃÃÃOOOOOOOOOOO!!!!!
— Estou achando que você tá meio maluco, você só fala isso. Me fala de verdade onde você vai?
— Vou subindo a ladeira do pelô!
— Vai descendo e depois subindo? Tá legal... E quando chegar lá em cima o que tem?
— Aê aê aê aê ei ei ei ei ôeôeôeôeôÔÔÔ...
— O quê?
— Aê aê aê aê ei ei ei ei ôeôeôeôeôÔÔÔ...
— Você usou tóxico?
— Vou descendo na boquinha da garrafa, abaixando até o chão, levantando a mão pra cima, mexendo o popozão, ilêaiê, ilêaiê, lepo, lepo, lepo, lepo!
— Caramba, não estou entendendo nada disso.
— Ohhhh, maiiinha....
— Rapaz... e quando o carnaval acabar, o que você vai fazer?
— Vou subindo a ladeira do pelô...
— Perguntei sobre quando o carnaval acabar meu amigo!
— Vou descendo a ladeira do pelô!
— Desisto! Você tá maluco, não consigo entender essa sua língua.
— Aê aê aê aê ei ei ei ei ôeôeôeôeôÔÔÔ... Fuuuiiiiiiii!



quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Caos





O espião desse século atravessou a rua.
Olhou para cima e para baixo.
Atravessou sem medo.
Nenhum carro na rua... Nem vento.
Nem pardais.
Ele ajustou o tripé de sua luneta.
Examinou a cidade.
Anotou em seu papiro.
Comércio fechado. 
Pessoas escondidas.
Não havia vida...
Nada de expectativa.
A aura de esperança não pairava em cima das casas.
O espião desse século se conectou às mentes que se deixavam conectar.
Viu pais contando o dinheiro do salário que diminuira muito.
Viu mães olhando a despensa e percebendo que os mantimentos estavam acabando.
Viu funcionários parados, pensando na vida, sem trabalhar...
Mas estranhamente o mensageiro desse século percebeu uma alegria desmedida.
Mesmo com tantas coisas erradas e futuro sombrio, ele não entendeu.
As pessoas estavam ansiosas.
Porque...
...
...
Sexta-feira começa o carnaval!
Alalaô ôôô ôôô, mas que calô ôôô ôôô...
... atravessamos o deserto do Saara, 
o sol estava quente e queimou a nossa cara...
Alalaô ôôô ôôô, mas que calô ôôô ôôô...