sexta-feira, 10 de abril de 2026

O golpe da pulga: Faxina já!



Conheci a Rita em um grupo do finado Orkut.
A gente fazia parte de uma comunidade de uma banda de punk rock.
Ela, eu e mais alguns membros do grupo acabamos nos tornando amigos. Falávamos de shows, de música, de punk rock e assuntos aleatórios.
Muitas bandas e personalidades do punk pregam ideias anarquistas, contra o sistema, contra a família tradicional, contra a religião e contra as instituições governamentais.
Eu nunca fui adepto dessas ideias de forma integral. 
Sempre tive a compreensão de que muita coisa na ideologia punk faz sentido, mas o radicalismo pregado não combina com meu jeito de ser.  
A Rita era mais irreverente. 
Fazia questão de ser a "porra louca do rolê."
Isso me incomodava, mas não a ponto de confrontá-la ou excluí-la.
Afinal, quem gosta de punk rock geralmente tem um quê de rebelde e aceitar os mais radicais também faz parte do pacote.
Mesmo com esse discernimento, eu e a Rita nunca chegamos a nos tornar amigos de verdade. 
Apenas nos comunicávamos, porque fazíamos parte da mesma turma.
Uma vez, numa conversa paralela, no final eu mandei um: — Fica com Deus! 
A Rita surtou!
— Não gosto que falem desse cara!
— Que cara, Rita?
— Deus! Hahahahaha, quem é esse?
— Calma Rita, é só uma forma de despedir da conversa te desejando uma coisa boa.
— Boa, na opinião de quem?
— Na minha...
— Então guarde essa sua opinião idiota pra você! E por favor, nunca mais fale nesse cara comigo!
Eu nunca mais falei de Deus com ela, até porque nunca mais falei com ela em particular. 
Essa história tem pelo menos 20 anos. 
A Rita, tinha atitudes e seguia uma "religião" baseando-se em versos de bandas de rock.
Ela pensava em espancar, bater, subjugar o "inimigo capitalista" e se dizia satanista.
Por isso quando disse: — Fica com Deus, eu falei para provocar.
Falei para colocar uma pulga atrás da orelha dela.
Uma pulga que a alertasse que suas atitudes passavam do limite do aceitável dentro de regras estabelecidas na sociedade.
O punk queria quebrar essas regras. Pregava intolerância e violência.
Soltando essa pulga eu também posso ter sido intolerante?
Posso...
Mas é como eu pensava na época.
Então você deve estar se perguntando:
Como é que eu me julgava punk e aceitava as regras da sociedade, sendo que a maior diretriz da ideologia punk é a anarquia?
Essa é uma boa pergunta, mas não é difícil de responder.
Eu sou contra todos os governos. Não tenho ideologia e nem político de estimação.
Tenho meus valores, e eles se encaixam as vezes com a direita e as vezes com a esquerda. Mas o espírito punk me fez perceber que o "sistema", seja ele qual for, nunca vai trabalhar realmente para o cidadão comum.
E não é a rebeldia, o extremismo, a intolerância que vai mudar o mundo.
O que vai mudar o mundo é a cobrança ao poder público e a educação.
A Rita acreditava que a intolerância era o caminho. 
Hoje não sei em qual caminho ela está.
Eu estou aqui: Conversando, escrevendo e plantando minhas ideias para quem queira escutar.
Prego nos meus escritos que nós temos que nos enxergar como indivíduos importantes. 
Aceito que temos que buscar a felicidade e também prosperidade.
Mas, acredito que podemos fazer tudo isso de maneira limpa.
Não quero acabar com o sistema como gritam as letras de bandas compostas por adolescentes — muitas vezes movidos a droga e alcool — rebeldes. 
Eu quero uma faxina no sistema!
Cresci.
Entendi melhor o problema.
Acredito que o que vai mudar o mundo é a literatura, o incentivo à educação e principalmente interpretação de texto.
Sem isso, não enxergamos as entrelinhas e viramos — como somos — massa de manobra.
Faxina no sistema, já! 



segunda-feira, 6 de abril de 2026

Enxurrada de ideias




Muitas vezes nós temos algumas ideias boas e queremos passá-las adiante num texto, numa crônica, conto ou poesia.
Mas, como uma enxurrada de palavras, nós derramamos essas ideias no texto de forma — às vezes — desleixada. 
Na nossa cabeça fazem muito sentido, mas talvez seja só na nossa cabeça.
Essas ideias até podem ser boas mesmo, mas escritas no ímpeto do calor da criação, elas viram uma colcha de retalhos.
Quando jogamos um texto para o universo, ele pode encontrar o leitor que consiga encaixar as peças, mas também pode encontrar o leitor que não consiga.
Esse segundo leitor que não vai dar conta de montar nosso quebra-cabeças de ideias, está no seu direito. 
Ele não tem essa obrigação!
O leitor não tem culpa se a gente escreveu, não revisou e não viu se nossa linha de raciocínio estava coerente.
Cabe ao escritor essa análise. 
Se escrevemos um texto infanto-juvenil, temos que ser mais óbvios ainda.
Se escrevemos para público adulto, mesmo assim temos que lembrar que existem adultos mais despreparados que meninos de 14 anos.
Nós vivemos em um país onde existem milhares de analfabetos funcionais, e essas pessoas também leem o que escrevemos.
Uma vez eu vi um autor dizendo: "Meu público é diferenciado!"
Mas quem garante isso para ele? De onde ele tirou essa estatística?
Tudo bem que ele até pode ter um feedback de algumas pessoas "diferenciadas" que entenderam o que ele escreveu, mas, e as que não entenderam nada e nem se deram ao trabalho de comentar isso?
Nós, como escritores, ou aprendizes de escritores, temos que entender que escrever não é fácil.
Comunicação não é o que a gente quer dizer, mas sim, o que a pessoa entende.
Se nos comunicarmos corretamente a pessoa vai entender, e aqui é que está a magia da escrita: Se fazer entender.
Organizar as ideias.
Dar sentido às frases.
Criar um bom relacionamento literário para quem nos lê.
E como tudo isso começa?
Com o exercício de escrever, ler o que escreveu e ter a humildade de encontrar erros no que se escreve.
Nós — escritores — não somos melhores que ninguém. Somos falhos, em construção e eternos aprendizes.



quarta-feira, 1 de abril de 2026

Dois meninos



Zéquinha chegou da escola correndo, jogou sua mochila na cama e voou até o fogão. 
Colocou arroz, feijão, bife, ovo frito e um pouco de abóbora. 
Sentou-se no sofá da sala e engoliu a comida, acompanhada de um copo de laranjada. 
Deu um beijo em sua mãe e correu até a frente do portão de Balu seu amigo:
— Anda Balu, "vamo" logo!
Quase que instantaneamente, Balu se materializou na rua com uma bola de capotão debaixo do braço e os dois foram correndo para o campinho, onde seus amigos estavam esperando pra começar a pelada.
Wilson Júnior chegou da escola, abriu a porta devagar, limpou os pés, entrou e colocou sua mochila em cima da escrivaninha do lado esquerdo, encaixada cuidadosamente entre a parede e o computador.
Wilson lavou bem as mãos, enquanto a empregada esquentava o marmitex no forno de microondas. 
No marmitex de hoje veio: arroz, lasanha, batata frita, salpicão e almondegas ao molho. 
Wilson mastigou cada garfada 33 vezes. 
Acompanhou sua refeição com uma lata de refrigerante. 
Ele estava meio amarelo ultimamente. O médico receitou uma vitamina que devia ser tomada logo após o almoço. 
Wilson acabou de almoçar, escovou os dentes e foi para seu quarto ligar o computador.
Zéquinha estava empolgado, seu time estava ganhando do time da rua de baixo, e quem perdesse iria pagar guaraná e paçoquinha pro outro time.
— Toca a bola Roliço — gritou Carlinhos — toca logo!
Roliço tocou a bola pro Carlinhos, que tocou pro Zéquinha que chutou pro gooooooolllllllllllllllllllll!
— Hahahahaha — gargalhou Zéquinha — ganhamos guaraná e paçoquinha!
Wilson Júnior chamou seus amigos da escola para jogar on-line e no meio do jogo apareceram outros "amigos" que ele não conhecia.
Depois da partida emocionante, Zéquinha e os moleques foram roubar manga no quintal do seu Argemiro. Eles fizeram escadinha com as mãos e pularam o muro. 
Os meninos deram sorte porque seu Argemiro havia prendido os cachorros no quintal da frente de sua casa. 
Encheram as panças de manga.
Wilson Júnior era bom em matar os soldados inimigos no computador. Matou, correu, jogou bomba, dirigiu helicóptero e submarino. Ficou sentado em frente ao jogo, das quatro da tarde até as oito da noite quando sua mãe e seu pai chegaram do trabalho.
Zéquinha voltou das brincadeiras por volta das cinco horas. Comeu um pedaço de bolo de fubá com leite e foi fazer a lição de casa.
As sete horas jantou, e se sentou na calçada junto com seus pais e os pais dos seus amigos num grande bate papo. 
As dez, morto de sono, Zéquinha tomou um copo de leite quentinho que sua mãe preparou e desmaiou até o outro dia. Sua mãe foi ao seu quarto, deu-lhe um beijo no rosto, e o cobriu com carinho. 
Ele sorriu mesmo dormindo e sonhou com os anjos.
Os pais de Wilson Júnior estavam checando seus e-mails, ele aproveitou e ficou mais um tempo navegando no Instagram. Depois disso, desceu com cuidado a escada, foi até a cozinha, tomou um copo de refrigerante, abriu um pacote de bolacha recheada, e passando pela sala, falou boa noite aos pais e foi dormir.
Os pais responderam sem levantar e nem tirar os olhos do computador. 
Wilson teve pesadelos... Sonhou que o exército inimigo o estava caçando e que agora ele estava encurralado num beco sem saída, e sem ninguém para ajudar.


quinta-feira, 26 de março de 2026

Abel e Caim

 



Como Abel, ele sempre deu o melhor de si.
Trabalhou, estudou, lutou com o que tinha de melhor.
Ofereceu o que tinha de melhor.

Como Caim, ele não se esmerou tanto assim.
Fez o básico para viver na mediocridade e esperou receber muito.

Como Abel, ele foi visto com inveja.
O cancelaram.
Fizeram bullyng com ele.
O mataram de relacionamentos.
A arma, foi a inveja.

Como Caim, ele nutriu ódio pelos bem sucedidos.
Culpou o mundo, pela sua incompetência.
Culpou o governo, a cidade, a sociedade, pela sua preguiça.
Culpou seus pais e seus irmãos.

Hoje, como Caim, ele vive com o peso dos assassinatos que fez em sua cabeça.
Com o peso das vezes que atacou e culpou, tentando se justificar.
Sua vida é triste e cheia de dúvidas.

Hoje, como Abel, ele vive bem.
Poderia ser mais feliz.
Só não é, porque os incompetentes tentam derrubá-lo constantemente.
Mas ele prossegue.
Dando seu melhor a cada dia.



segunda-feira, 23 de março de 2026

Fora de Moda

 
— Entre, — falou a psicóloga da agência em meio a um sorriso — sente-se aqui. — completou apontando uma cadeira.
O rapaz, candidato a um comercial que seria veiculado na TV em horário nobre, sentou-se e se ajeitou, tentando encantar, com seu melhor sorriso.
— Então, — falou a psicóloga folheando alguns papéis — eu vi aqui no seu currículo que você já participou de várias campanhas publicitárias.
— Sim, participei de comerciais de TV, revistas, sites e até desfiles ao vivo.
— Inclusive, — observou a moça — aqui está dizendo que você foi eleito o bebê mais bonito há 17 anos.
— Fui. — respondeu ele mantendo o sorriso branquíssimo.
— Depois foi um garoto prodígio até a adolescência. Participou daquela novelinha das 18 horas.
— Fiz pequenas figurações.
— Isso! — concordou a psicóloga olhando por cima dos óculos. — E depois dos 15 anos, participou de desfiles e foi eleito mister estudantil ano passado.
— Fui.
— Então — exclamou a psicóloga fazendo careta de desagrado — esse é o problema.
— Problema? Como assim?
— Você é muito bonito para a nossa agência.
— Bonito para a agência?
— Bonito demais. — respondeu ela quase se desculpando. — Nós precisamos de gente comum. Gente "feia". — disse ela fazendo aspas imaginárias com os dedos.
— Gente feia?
— Sim! Queremos gente com cara de índio, ou de japonês nerd e magrelo.
— Ah, é?
— Isso! E queremos negros também, mas negros normais, não negros bonitos. Estamos à procura de negros com cara de trabalhador braçal.
— Trabalhador braçal?
— Trabalhador braçal. — respondeu ela se ajeitando na poltrona, antes de continuar.
— E estamos procurando gordos, também.
— Gordos?
— Sim, mas o gordo não precisa ser negro. Tem que ser gordo, tipo obeso mórbido, sabe?
— Obeso mórbido?
— Isso, e queremos gente desnutrida também. Com manchas de sol no rosto, cabelo queimado de sol. Cara de pobre.
— M... Mas... Por que isso?
— Inclusão social.
— Inclusão social?
— Inclusão social. — disse ela se levantando e estendendo a mão para o rapaz como se estivesse forçando uma despedida.
— Mas a senhora e a agência estão sendo muito radicais. Na sua sociedade não tem gente bonita?
— Anda na rua. Olha para o brasileiro. A grande maioria da periferia é normal. Nem lindo e nem feio.
— Mas e eu?
— Você é anormal. Criado a leite e mel. Faz parte da minoria dos brasileiros. Sabe aquele um por cento que detém noventa por cento da renda?
— Pois saiba a senhora que eu não sou rico, não nasci em berço de ouro. Meus pais sempre trabalharam. Ganham salário.
— Tudo bem! Mas infelizmente você teve o azar de nascer bonito.
— Azar de nascer bonito?
— É, — explicou a psicóloga — o que antes parecia uma dádiva, hoje é um fardo.
— Eu não estou entendendo essa sua agência.
— Parece que você não está entendendo o mundo.
— Como assim?
— Você hoje é a minoria. E o mundo é cruel com as minorias.
— Então eu sou minoria, o mundo é cruel comigo e na sua agência não tem lugar para caras assim como eu?
— É, — respondeu a psicóloga abrindo a porta. — Se eu fosse você eu me preparava para o pior... Seu estereótipo está cada vez mais fora de moda...




segunda-feira, 16 de março de 2026

Dezesseis de março de 2026

 




    5:00 da manhã; José Quispe sai de sua casa no alto de uma colina, aos pés da majestosa Huascaràn, uma das cinco montanhas mais altas da cordilheira dos Andes. 
    Durante a noite a temperatura chegou a - oito graus, mas nesse momento ela estava apenas dois graus negativos. José nem colocou o terceiro casaco.
    Ele abriu a porta, olhou para o horizonte e viu um condor planando ao longe! Isso era um bom presságio, certamente Pachamama; a deusa da terra, da fertilidade e da abundância estava feliz.
    Sorrindo e deixando à mostra seus quatro dentes, José pegou um balde e caminhou por entre a estradinha de pedras, que seus ancestrais fizeram há milhares de anos, e foi até a neve que cobria a vegetação rasteira ao lado de onde as lhamas estavam fechadas em um curral.
    Ele encheu o balde de neve e trouxe até sua casa, para aquecê-la em uma panela de pedra no fogão à lenha, para fazer a água, que ele misturaria com quinoa, gordura de lhama, leite de cabra e ovos, para assar e fazer seu pão, antes de sair com seus filhos para levar as cabras e as lhamas para pastar.
    5:00 da manhã; Patricio Pereira colocava mais uma leva de pães no forno.
    O dia em Lisboa estava começando movimentado. As pessoas corriam de ônibus, metrô, carros e motos, indo para seus trabalhos bater seus cartões, mas antes, passariam na padaria Nossa Senhora de Fátima, e não poderiam demorar.
    Pães, bolos, pasteizinhos de Belém, broas, leite, café e chá. Tudo deveria estar pronto, para as seis horas em ponto, quando as portas da padaria fossem abertas, e a enxurrada de clientes se acotovelassem no balcão.
    5:00 da manhã; e Xiao Luaoling deixava seu turno na fábrica em que trabalhava e seguia para sua casa que ficava no conjunto residencial número 17. Seu andar era o nono e seu apartamento era o 153.
    Ele agradecia todos os dias ao presidente Xi Jinping, porque tinha um trabalho indicado pelo governo, tinha moradia cedida pelo governo, seus filhos poderiam estudar em uma escola indicada pelo governo.
    Sorridente, ele pegava o café da manhã na cantina da fábrica e agradecido levava para casa, onde daqui há pouco todos estariam em volta da mesa, agradecendo ao presidente pela primeira refeição.
    5:00 da manhã; Omar El Kadri caminha pelos destroços do último ataque.
    Ontem a escola onde ele e a família estavam abrigados veio abaixo.
    Um míssil de Israel atingiu o telhado e a estrutura de madeira caiu. Graças a Alah (ele pensou), nenhuma telha ou viga caiu em ninguém de sua família.
    Depois do ataque eles se mudaram e agora estavam amontoados no quartinho que restava do antigo posto de saúde.
    Eles dividiam o espaço minúsculo com outras nove famílias, se revezando entre quem vigiava os ataques e quem dormia.
    Omar entrou na fila do pão. Os médicos sem fronteira e a ONU, distribuíam diariamente uma porção de pão sem fermento e um litro de leite para cada quatro membros de cada família. Se a família tivesse mais membros, eles poderiam pegar a porção dobrada.
    A cada 15 dias, todos deveriam comparecer à contagem, para atualizar o número de membros, pois a guerra era cruel, e as famílias diminuíam todos os dias.
    5:00 da manhã; o forno elétrico de Theodore Maxwel apitava três vezes: Piiiii... piiii... piiii...., indicando que o pão estava pronto.
    Theodore gostava de programar seu forno para que seu pão ficasse pronto 2 horas antes dele acordar, porque assim dava tempo de a farinha sem glúten descansar e absorver melhor o sabor das castanhas, da gordura de coco, dos grãos integrais e do açúcar mascavo.
    Theodore era um homem fitness e exigente com sua dieta. Diminuíra muito a carne vermelha e os açúcares. Diminuíra também as farinhas e grãos processados.
    Ele só almoçava em restaurantes da chamada “comida saudável”, que era uma organização que determinava o cardápio semanal das pessoas amigas da boa forma e da natureza.
    Theodore sabia que seus investimentos na bolsa de valores lhe davam essa mordomia, e ele não agradecia ninguém por isso, pois tudo o que ele tinha ou era, se devia a seu esforço pessoal.
    Uma coisa que deixava Theodore feliz, era que uma parte do dinheiro que gastava nos restaurantes da comida saudável, era revertido para o fundo de solidariedade aos pandas gigantes da Indonésia, que estavam em risco de extinção.
    A próxima campanha seria pelas girafas da Amazônia, e Theodore estava ansioso em poder ajudar.
    5:00 da manhã do dia dezesseis de março de 2026!
    Todos acordaram para mais um dia! Todos no mesmo planeta, mas vivendo em épocas históricas diferentes.
    Alguns indígenas acordaram para caçar o pão, imigrantes italianos na serra gaúcha fizeram polenta com fubá moído no moinho de pedra, alguns nordestinos dividiram uma porção de cuscuz entre nove irmãos, americanos do Alaska comeram bacon de alce, que estavam enterrados no gelo atrás da casa. 
    Idade Média, Idade Moderna e Idade Contemporânea se misturando na mesma volta do relógio...


  

segunda-feira, 9 de março de 2026

Tic-tac



Acorda cedo.
O relógio acorda depois.
Lavar rosto, tomar café, dar um beijo na esposa.
Afago no filho.
Minutos se passam.
Rua, trânsito, ônibus, metrô...
Horas se passam.
O relógio de ponto diz: — Obrigada!
Seria uma relógia?
Besteiras na cabeça.
Trabalha.
Trabalha.
Trabalha.
Horas se passam.
Chega o almoço.
Minutos se passam.
O relógio de ponto diz: — Obrigada!
Será que colocaram essa voz feminina para as regras ficarem mais doces?
Trabalha.
Trabalha.
Trabalha.
Horas se passam.
Hora de ir para casa.
Rua, trânsito, ônibus, metrô...
Horas se passam.
Janta, TV, beijo na esposa.
Afago no filho.
Minutos se passam.
O olho fecha, o olho abre.
Acorda cedo.
O relógio acorda depois.