Eu estava indo para casa.
Parei na encruzilhada da avenida Major Leitão Brás com a rua Juca Teixeira.
Era horário de pico, e o trânsito estava tenso. Foi nessa hora que eu parei ao lado de um carro prata, acho que um Corolla e pensei: — Pôxa, aqui deveria ter um semáforo, porque a gente não consegue ver quem vem na avenida.
Eu estava escutando Boys don't cry, da banda The Cure, e me divertindo, porque mesmo com a tensão do trânsito eu consigo dirigir feliz.
Pra mim, o trânsito não é um problema, e esse tempo que passo sozinho é até agradável.
Eu não conseguia ver se vinha alguém na avenida, mas a pessoa que dirigia o Corolla conseguia, então, quando ele seguiu para atravessar a pista eu segui também.
Foi aí que um caminhão cegonha atropelou nós dois. Arrastou nossos carros e esmagou nós dois no muro da esquina.
Do Corolla parece que só sobrou um montinho de ferro retorcido, enquanto o meu virou uma sanfona branca, chapiscada de vermelho.
— Cara, você é maluco? — eu falei para o homem que estava do lado do que restava do Corolla.
— Como assim?
— Você não viu o caminhão? Seu cego do caralho!
— Vi sim... Você não viu?
— Não vi, porque você estava tampando a minha visão.
— Me desculpe, mas você deveria ser mais precavido. Nunca ouviu que a gente tem que dirigir pra gente e pros outros.
— Cara, você é doente?
— Depressão, esquizofrenia e síndrome do pânico.
— Como?
— Você perguntou se sou doente, não perguntou? Então; depressão, esquizofrenia e síndrome do pânico — repetiu ele levantando um dedo para cada doença.
— Puta que pariu! Só tem maluco.
— Maluco não meu amigo! Eu tenho problemas, mas não sou maluco!
— Ah é... Então por que você entrou na frente do caminhão?
— Porque eu queria me matar.
— Ah... E não é maluco?
— Não! Isso é um direito meu.
Nessa hora fui atingido com uma sensação estranha. Olhei para as pessoas que estavam a minha volta e de repente vi uma mulher que passou por dentro do cara que eu estava conversando. A ficha caiu!
— Nós morremos?
— Agora que você descobriu?
— Cara você é um merda hein! Você queria se matar, porque é maluco... E me levou junto.
— Depressão, esquizofrenia e síndrome do pânico, maluco não!
— Véio... Se você não estivesse morto eu juro que te matava.
— Ninguém mandou você confiar no motorista do lado.
— Seu idiota! E dirigir não é confiar no motorista do lado? Quantos milhares de motoristas a gente já cruzou em esquinas, semáforos, estradas? Se a gente não confiar o que a gente vai fazer?
— Tomar mais cuidado, ué! Só um besta confia cegamente no motorista do outro carro.
— Eu não acredito... Ele acha que ainda está certo.
— E não estou?
— Eu já te expliquei que dirigir é confiar no outro. Quer que eu desenhe?
— Você morreu por isso. Quer que eu desenhe?
Nesse momento pararam duas Vans ao nosso lado. Mas o mais incrível é que as pessoas atravessavam pelo meio das Vans, da mesma forma que a moça atravessou o motorista do Corolla.
Em uma das Vans estava escrito: Suicidas.
Na outra estava escrito: Passageiros normais.
As portas das Vans se abriram e uma voz rouca falou: — Vamo, vamo, vamo vamo! Vocês dois! Acham que nós temos a eternidade aqui, só para esperar vocês ficarem aí batendo boca?
Nós olhamos assustados, e um homem com uniforme de cobrador de ônibus deu uma passagem para cada um de nós.
— Você vai na Van dos passageiros e você na dos suicidas.
— M... Mas por que isso? Por que essa distinção?
— Uai? — falou o cobrador. — Você acha que vai pro mesmo lugar que os outros sem ficar um tempo pagando por ter se matado?
— Acho bom mesmo! — eu disse sorrindo com cara de escárnio. — Eu não quero mesmo viajar na mesma Van desse maluco!
— Maluco não! Eu tenho, depressão, esquizofrenia e síndrome do pânico!




