A gente fazia parte de uma comunidade de uma banda de punk rock.
Ela, eu e mais alguns membros do grupo acabamos nos tornando amigos. Falávamos de shows, de música, de punk rock e assuntos aleatórios.
Muitas bandas e personalidades do punk pregam ideias anarquistas, contra o sistema, contra a família tradicional, contra a religião e contra as instituições governamentais.
Eu nunca fui adepto dessas ideias de forma integral.
Sempre tive a compreensão de que muita coisa na ideologia punk faz sentido, mas o radicalismo pregado não combina com meu jeito de ser.
A Rita era mais irreverente.
Fazia questão de ser a "porra louca do rolê."
Isso me incomodava, mas não a ponto de confrontá-la ou excluí-la.
Afinal, quem gosta de punk rock geralmente tem um quê de rebelde e aceitar os mais radicais também faz parte do pacote.
Mesmo com esse discernimento, eu e a Rita nunca chegamos a nos tornar amigos de verdade.
Apenas nos comunicávamos, porque fazíamos parte da mesma turma.
Uma vez, numa conversa paralela, no final eu mandei um: — Fica com Deus!
A Rita surtou!
— Não gosto que falem desse cara!
— Que cara, Rita?
— Deus! Hahahahaha, quem é esse?
— Calma Rita, é só uma forma de despedir da conversa te desejando uma coisa boa.
— Boa, na opinião de quem?
— Na minha...
— Então guarde essa sua opinião idiota pra você! E por favor, nunca mais fale nesse cara comigo!
Eu nunca mais falei de Deus com ela, até porque nunca mais falei com ela em particular.
Essa história tem pelo menos 20 anos.
A Rita, tinha atitudes e seguia uma "religião" baseando-se em versos de bandas de rock.
Ela pensava em espancar, bater, subjugar o "inimigo capitalista" e se dizia satanista.
Por isso quando disse: — Fica com Deus, eu falei para provocar.
Falei para colocar uma pulga atrás da orelha dela.
Uma pulga que a alertasse que suas atitudes passavam do limite do aceitável dentro de regras estabelecidas na sociedade.
O punk queria quebrar essas regras. Pregava intolerância e violência.
Soltando essa pulga eu também posso ter sido intolerante?
Posso...
Mas é como eu pensava na época.
Então você deve estar se perguntando:
Como é que eu me julgava punk e aceitava as regras da sociedade, sendo que a maior diretriz da ideologia punk é a anarquia?
Essa é uma boa pergunta, mas não é difícil de responder.
Eu sou contra todos os governos. Não tenho ideologia e nem político de estimação.
Tenho meus valores, e eles se encaixam as vezes com a direita e as vezes com a esquerda. Mas o espírito punk me fez perceber que o "sistema", seja ele qual for, nunca vai trabalhar realmente para o cidadão comum.
E não é a rebeldia, o extremismo, a intolerância que vai mudar o mundo.
O que vai mudar o mundo é a cobrança ao poder público e a educação.
A Rita acreditava que a intolerância era o caminho.
Hoje não sei em qual caminho ela está.
Eu estou aqui: Conversando, escrevendo e plantando minhas ideias para quem queira escutar.
Prego nos meus escritos que nós temos que nos enxergar como indivíduos importantes.
Aceito que temos que buscar a felicidade e também prosperidade.
Mas, acredito que podemos fazer tudo isso de maneira limpa.
Não quero acabar com o sistema como gritam as letras de bandas compostas por adolescentes — muitas vezes movidos a droga e alcool — rebeldes.
Eu quero uma faxina no sistema!
Cresci.
Entendi melhor o problema.
Acredito que o que vai mudar o mundo é a literatura, o incentivo à educação e principalmente interpretação de texto.
Sem isso, não enxergamos as entrelinhas e viramos — como somos — massa de manobra.
Faxina no sistema, já!
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