segunda-feira, 7 de setembro de 2026

Tudo converge para o Texto

 


Eu tenho feito postagens no Instagram afirmando que o problema do mundo é a interpretação de texto.
Há alguns anos, quando ainda lecionava, eu percebia como os alunos do colegial tinham dificuldade em ler um texto.
Prestem atenção: eu disse que eles tinham dificuldade em ler. Nem falei interpretar.
Eu escrevo, muitos amigos aqui sabem disso.
Tenho dois romances policiais publicados e vários contos espalhados em coletâneas por aí.
Já escrevi para colunas de vários jornais, revistas eletrônicas e até para uma revista de Moçambique.
Mas e daí?
O que adianta escrever se cada vez menos as pessoas entendem o que leem? Se cada vez mais as telas de celular e as postagens sem nexo estão fazendo a cabeça das pessoas?
Escrever para quê?
Oras... Escrever é tipo um vício.
É respirar, beber água, acordar, andar, dormir...
Escrever, para quem gosta, é uma questão de sobrevivência.
E foi procurando mais sustância para esse vício, que cheguei ao livro: Tudo converge para o texto, de William Campos da Cruz.
Que livro bacana!
Ele traz lições de gramática disfarçadas em textos gostosos de ler. Quase crônicas. Quase conversa dessas que se tem com quem se gosta.
Sabe aquele amigo, que a gente fofoca e dá risada aleatória?
Então. O livro é isso.
Uma coletânea de fofocas que te ensinam sobre verbo, pronome, fonema, prosódia, crase, produção de texto, vocabulário, dicionário e como ler uma receita para fazer arroz.
Um arroz bem-feito depende de interpretação de texto.
Quando eu era criança eu achava que tinha que fazer chá de sal e usar uma colher desse chá em quase todas as receitas...
Interpretação de texto!
Bagagem literária.
É por isso que o brasileiro é um povo facilmente engambelado por políticos cada vez mais toscos.
Nós sempre deixamos para os segundos turnos das eleições: o ruim contra o menos ruim.
Sabe por quê?
Porque nos falta interpretação de texto.
Falta literatura.
Falta fofoca gramatical!
Precisamos urgentemente de mais livros como esse do William.
Um livro acessível. Fácil de ler, gostar, interpretar — e que consegue a façanha de nos fazer gostar da gramática.
 
Recomendo.



terça-feira, 18 de agosto de 2026

Encruzilhada



Eu estava indo para casa. 
Parei na encruzilhada da avenida Major Leitão Brás com a rua Juca Teixeira.  
Era horário de pico, e o trânsito estava tenso. Foi nessa hora que eu parei ao lado de um carro prata, acho que um Corolla e pensei: — Pôxa, aqui deveria ter um semáforo, porque a gente não consegue ver quem vem na avenida.
Eu estava escutando Boys don't cry, da banda The Cure, e me divertindo, porque mesmo com a tensão do trânsito eu consigo dirigir feliz. 
Pra mim, o trânsito não é um problema, e esse tempo que passo sozinho é até agradável.
Eu não conseguia ver se vinha alguém na avenida, mas a pessoa que dirigia o Corolla conseguia, então, quando ele seguiu para atravessar a pista eu segui também.
Foi aí que um caminhão cegonha atropelou nós dois. Arrastou nossos carros e esmagou nós dois no muro da esquina.
Do Corolla parece que só sobrou um montinho de ferro retorcido, enquanto o meu virou uma sanfona branca, chapiscada de vermelho.
— Cara, você é maluco? — eu falei para o homem que estava do lado do que restava do Corolla.
— Como assim?
— Você não viu o caminhão? Seu cego do caralho!
— Vi sim... Você não viu?
— Não vi, porque você estava tampando a minha visão.
— Me desculpe, mas você deveria ser mais precavido. Nunca ouviu que a gente tem que dirigir pra gente e pros outros.
— Cara, você é doente?
— Depressão, esquizofrenia e síndrome do pânico. 
— Como?
— Você perguntou se sou doente, não perguntou? Então; depressão, esquizofrenia e síndrome do pânico — repetiu ele levantando um dedo para cada doença.
— Puta que pariu! Só tem maluco. 
— Maluco não meu amigo! Eu tenho problemas, mas não sou maluco!
— Ah é... Então por que você entrou na frente do caminhão?
— Porque eu queria me matar.
— Ah... E não é maluco?
— Não! Isso é um direito meu.
Nessa hora fui atingido com uma sensação estranha. Olhei para as pessoas que estavam a minha volta e de repente vi uma mulher que passou por dentro do cara que eu estava conversando. A ficha caiu!
— Nós morremos?
— Agora que você descobriu?
— Cara você é um merda hein! Você queria se matar, porque é maluco... E me levou junto.
—  Depressão, esquizofrenia e síndrome do pânico, maluco não! 
— Véio... Se você não estivesse morto eu juro que te matava.
— Ninguém mandou você confiar no motorista do lado.
— Seu idiota! E dirigir não é confiar no motorista do lado? Quantos milhares de motoristas a gente já cruzou em esquinas, semáforos, estradas? Se a gente não confiar o que a gente vai fazer?
— Tomar mais cuidado, ué! Só um besta confia cegamente no motorista do outro carro.
— Eu não acredito... Ele acha que ainda está certo.
— E não estou?
— Eu já te expliquei que dirigir é confiar no outro. Quer que eu desenhe?
— Você morreu por isso. Quer que eu desenhe?
Nesse momento pararam duas  Vans ao nosso lado. Mas o mais incrível é que as pessoas atravessavam pelo meio das Vans, da mesma forma que a moça atravessou o motorista do Corolla.
Em uma das Vans estava escrito: Suicidas.
Na outra estava escrito: Passageiros normais.
As portas das Vans se abriram e uma voz rouca falou: — Vamo, vamo, vamo vamo! Vocês dois! Acham que nós temos a eternidade aqui, só para esperar vocês ficarem aí  batendo boca?
Nós olhamos assustados, e um homem com uniforme de cobrador de ônibus deu uma passagem para cada um de nós.
— Você vai na Van dos passageiros e você na dos suicidas.
— M... Mas por que isso? Por que essa distinção?
— Uai? — falou o cobrador. — Você acha que vai pro mesmo lugar que os outros sem ficar um tempo pagando por ter se matado?
— Acho bom mesmo! — eu disse sorrindo com cara de escárnio. — Eu não quero mesmo viajar na mesma Van desse maluco!
— Maluco não! Eu tenho, depressão, esquizofrenia e síndrome do pânico! 



segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Agora

 Um dia podemos pensar:
— Que bom! Está tudo bem. Saúde boa, contas em dia, trabalho fluindo... Relacionamentos sadios. Tudo bem!

De repente, 

uma esquina,
um semáforo que abre,
um carro apressado...

De repente,

um sufoco,
nervoso exacerbado,
uma crise.
O coração que acelera,
uma artéria que não suporta.

De repente,


uma canetada do governo,
a Bolsa que quebra,
as ações que despencam,
o dinheiro que some.

De repente,

uma preocupação que brota, ninguém sabe de onde,
a imunidade que cai,
um vírus que se aproveita.

De repente,

Deus olha lá de cima e diz:
— Venha meu filho...
E tudo se acaba!

A vida fluindo. 
As economias. 
Os relacionamentos. 
A saúde...

Por isso, viva agora...
Não viva depois.

Viva esse momento.

Respire esse ar.
Beba essa água.
Sorria dessa piada.
Abrace esse abraço.
Beije essa boca.
Coma essa comida.

Viva!

Depois... pode ser tarde.
E agora...
... agora é o momento!



quarta-feira, 22 de julho de 2026

O Sombra





"Quem conhece o mal que se esconde no coração dos homens? O Sombra sabe!"


Em 1930 nos Estados Unidos, antes da criação da TV e das séries de cinema, as pessoas acompanhavam atentas as novelas e séries policiais do rádio.
A imaginação ganhava vida, enquanto os narradores, atores e sonoplastas davam vida a personagens que se tornariam famosos, e que ao passar dos anos ganhariam outras mídias.
Um deles é o Sombra.
Ele surgiu em 1930, como narrador de um programa de rádio americano chamado Detective Story Hour. 
De narrador, ele passou a personagem principal das tramas, como um detetive sombrio e violento, que solucionava os crimes e assombrava os bandidos da cidade.
A primeira migração foi em 1931. 
O Sombra saltou do rádio para os romances pulp, escritos principalmente por Walter B. Gibson.
Estudiosos do personagem dizem que o Sombra narrador e o Sombra dos pulps, eram dois personagens distintos. Essa ideia fomenta debates entre os fãs, que dizem um foi a evolução do outro.
Quem era o Sombra?
Durante muito tempo imaginou-se que seu alter ego era o milionário Lamont Cranston. Mas posteriormente foi revelado seu verdadeiro nome: Kent Allard. 
O Sombra era um vigilante misterioso que combatia o crime usando, inteligência extraordinária, poderes hipnóticos, duas pistolas, disfarces e o poder de nublar a mente das pessoas e parecer invisível.
Ao contrário do Superman ou do Capitão Marvel, o Sombra não era um super-herói tradicional.
Seus poderes eram mais sugestivos do que reais.
Ele também agia diferente, pois era violento, assustador e frequentemente matava seus inimigos, algo comum nos heróis pulp daquela época.
A segunda migração aconteceu quando o Sombra apareceu em uma tira de jornal diária, lançada em 17 de junho de 1940, escrita por Walter B. Gibson e desenhada por Vernon Greene. 
Essa foi sua estreia nos quadrinhos em formato de jornal.
Em revistas, o Sombra estreou, já como grande atração, no título: Shadow Comics, da editora Street & Smith.
A ideia da Street & Smith era aproveitar o enorme sucesso que o Sombra já fazia no rádio e nas revistas pulp para atrair leitores para os quadrinhos. A estratégia deu certo: Shadow Comics durou 101 edições, publicadas entre 1940 e 1949.
Essa revista tinha 68 páginas, e além do Sombra, trazia a participação de Doc Savage, Frank Merriwell, Iron Munro, entre outros.
Para os quadrinhos, a violência do personagem foi diminuí
da, e o tom investigativo e heróico ganhou espaço. 
Crianças e adolescentes colecionavam os quadrinhos do Sombra, e a editora achou de bom tom, suavizar um pouco as histórias, alcançando todos os públicos.
O Sombra foi muito influente nos quadrinhos da Era de Ouro.
Personagens como Batman, Spirit, Besouro Verde e Roscharch, beberam na fonte de suas histórias e seu clima noir.
O Sombra ao longo dos anos foi publicado em diversas editoras:  Street & Smith (1940–1949), Archie Comics (1964–1965), DC Comics (1973–1992), Dark Horse Comics (1993–1995) e Dynamite Entertainment (2012–atualmente).
O Sombra também apareceu diversas vezes no cinema, em video-games, em séries e adaptações para televisão.
Hoje o Sombra já não tem a popularidade de seus anos de ouro, mas continua sendo um dos personagens mais influentes da cultura pop. 
Seu legado pode ser visto em dezenas de heróis e vigilantes modernos, especialmente no Batman. 
Quase um século após sua criação, o Sombra ainda surge em novos quadrinhos, reedições e projetos especiais, provando que como ele mesmo diz: "Quem conhece o mal que se esconde no coração dos homens? O Sombra sabe!"


Amigos, esses dias passei por uns problemas de saúde com minha esposa e depois comigo.
Isso me fez parar de escrever e me desinteressar por várias coisas e querer estar mais junto com a família.
Mas não quero deixar o blog morrer.
Então resolvi postar esse texto, que na verdade escrevi para uma revista, mas que achei legal colocar aqui também.
Me desculpem se estou sumido. Graças a Deus, tudo está muito melhor.
Quase 100%.
Um abraço!



quinta-feira, 11 de junho de 2026

O cego Bartimeu

 


Jesus e os discípulos chegaram à cidade de Jericó.
Bartimeu, filho de Timeu, era um cego que esmolava na rua mais movimentada da cidade. 
Mesmo sentado em seu lugar de costume, ele sentiu que alguma coisa diferente estava acontecendo. As pessoas estavam mais agitadas, caminhando para cá e para lá.
O cego, atento, escutava as murmurações e discussões.
Alguns conversavam ao pé da orelha sobre um homem que fazia milagres. Outros defendiam os mestres da sinagoga, reprimindo esse homem e dizendo que ele era impostor.
Jesus aproveitou seu tempo na cidade e pregou sua palavra. 
Cada vez mais as pessoas ouviam e se admiravam da narrativa e do conhecimento daquele homem.
Alguns vinham nem tanto pela palavra, mas pelos milagres que o viam fazer.
E outros vinham porque escutaram que ele alimentava a multidão multiplicando pães e peixes. 
Quando Ele estava saindo da cidade acompanhado pelas pessoas que o seguiam, passou pelo caminho onde Bartimeu estava sentado esmolando. 
Percebendo um grande alvoroço, o cego esticou seus ouvidos para entender o que estava acontecendo e se alegrou quando ouviu alguém dizer que era Jesus de Nazaré que estava passando. 
— Jesus! — gritou o cego aflito — Filho de Davi! Tenha pena de mim!
— Pare de gritar, Bartimeu. Você acha que esse homem vai te escutar.
— Jesus! — gritou o cego mais alto.
— Alguém o faça se calar. — disse outro homem que olhava a comitiva passar.
— Ele está incomodando. — reclamou outro.
— Jesus! — continuou Bartimeu sem ligar para as críticas a sua volta. — Oh... Filho de Davi, tenha pena de mim.
Em volta de Bartimeu houve um princípio de desentendimento entre pessoas que entenderam o desespero do cego e outros que achavam que o cego era desprezível para o Messias.
Mas Jesus, percebendo a situação, parou e disse: 
— Chamem o cego.
— Mas Senhor... — murmuraram alguns. — É só um cego pedinte, que vive de esmolas.
— Não importa, tragam-no até mim. 
Os discípulos, e algumas pessoas, se aproximaram de Bartimeu e o guiaram pela mão, dizendo. 
— Coragem, cego. 
— Ele te ouviu.
— Levante-se, ele está chamando você.
Então Bartimeu jogou a sua capa para um lado, levantou-se depressa e foi até o lugar onde Jesus estava. 
— Por que você estava gritando?
— Porque só o Senhor pode me ajudar.
— E por que me chamas de filho de Davi?
— O senhor é o Cristo! O Messias! Aquele que as Escrituras anunciaram. Aquele que viria da  linhagem do rei Davi.
— Eu vejo que é grande a sua fé, Bartimeu. — revelou Jesus, olhando para a multidão à sua volta, que observava a tudo interessada. — O que é que você quer que eu faça? 
— Mestre, eu quero ver de novo! — respondeu Bartimeu. 
— Então assim seja, Bartimeu! Você está curado porque teve fé! — afirmou Jesus.
O cego Bartimeu piscou os olhos várias vezes. Olhou para o rosto de Jesus à sua frente. E caindo de joelhos, chorou de alegria.
— Estou vendo! Estou vendo Jesus! Filho de Davi.
— Pois não era isso que desejava? 
— Sim, mestre. E de hoje em diante eu vou te seguir! Enquanto meus olhos puderem ver. Eu o seguirei. 



quarta-feira, 3 de junho de 2026

O olhar e a vida...



Eu olhava e não via.
Pensava e não percebia.
Ou não pensava?
Só sei que não entendia.
Não sabia que o mundo era assim...
... tão mundo.
E nem que as pessoas eram assim...
... tão pessoas.
Até hoje sou meio bobo.
Ainda não entendo esse ego.
O ego é maior que as pessoas?
Sabe com quem está falando?
Hã...? Seria com uma pessoa?
Igual a todos?
— Todos não são todos, rapaz!
Depende de quem seleciona.
Seleciona alguns, diz que são todos e separa os feios.
Mas quem disse que o feio não é bonito?
Quem ama o feio, bonito lhe parece.
Dizem que a vida é bela.
Será que ela é feia?
Ou é apenas vida...



terça-feira, 19 de maio de 2026

Escolha do cliente

 


Olhar para quem olha uma vitrine de doces.
Carolinas, macarrons coloridos, camafeus, mil folhas, sonhos de padaria.
Sonhos...
Conversa de padaria.
Alegre.
Casual...
Sem compromisso com o sonho.
Sonho de creme ou de doce de leite?
O cliente escolhe seus sonhos.
Obrigado!
Servimos bem para servir sempre.
Estava no saco de papel pardo.
Hoje vem na sacolinha.
Sem a frase.
Sem o sorriso.
Sem o sonho...
O baleiro de vidro não roda mais.
Roda, roda baleiro atenção...
Eu quero a bala de goma.
Eu quero a Chita.
Eu quero a que engasga...
Obrigado!
Agradecemos pela preferência.
Estava na plaqueta em cima do caixa.
Ninguém agradece mais nada.
Os sonhos vem de moto.
Do aplicativo.
Obrigado!
Volte sempre...
Volte onde?