quarta-feira, 4 de maio de 2016

Virgem Maria - final






A multidão atônita e os guardas prostrados como estátuas, encaravam a Miguelito sem conseguir mexer um músculo enquanto ele declamou todo o poema. Monsenhor Fernando ao fim da “apresentação” se virou para os guardas e, aos berros ordenou: - Prendam esse Miguel de Cervantes!
- Calma Monsenhor, no seu julgamento faltam algumas perguntas. - retrucou Miguelito. - O senhor não deu chances de Juan de Castro se defender, e fez perguntas que certamente lhe condenaram sem julgamento algum.
Os guardas rapidamente chegaram até Miguelito que levantou as mãos colocando-as atrás da cabeça num claro gesto de que estava desarmado e se entregando.
- Mais perguntas? - falou Monsenhor Fernando.
- Logicamente que sim. - respondeu Miguelito sendo levado para perto do Monsenhor pelos guardas. - Ou o senhor quer que algumas dúvidas sobre sua moral e lisura caiam como pulgas atrás das orelhas desse povo todo que está aqui assistindo ao tal “julgamento?”
- Então faça você as perguntas que salvará o pescoço do senhor Juan de Castro seu amigo, e faça-as bem feitas, porque ao declamar esse poema o senhor também cometeu crime de morte.
Miguelito virou-se para Juanito e falou: - Juan de Castro, o senhor escreveu esse poema para uma mulher normal ou uma mulher inatingível?
- Para uma mulher inatingível.
- Então na verdade, o senhor escreveu esse poema para uma mulher especial?
- Oras! - se irritou Monsenhor Fernando. - Onde essa ladainha vai dar?
- Calma Monsenhor - falou Miguelito, e virando-se para Juan novamente continuou. - Senhor Juan de Castro é verdade que o senhor fez esse poema, “preste bem atenção a minha pergunta”. - Miguelito falou essas últimas palavras em um tom de apreensão e com um gestual dizendo para Juan entender as entrelinhas da pergunta. - Para a virgem, Maria?
- O quê! - intercedeu Monsenhor Fernando. - Rapaz, ele está sobre juramento e se mentir vai para o inferno...
- Por favor Monsenhor deixe eu perguntar, assim o senhor atrapalha o julgamento e as pessoas estão ali esperando e não querem pensar-lhe mal. - virando-se mais uma vez para Juanito, Miguel voltou a perguntar:
- Juan de Castro, é verdade que o senhor fez esse poema para a virgem, Maria?
            - A virgem, Maria?
- Isso. - falou Miguel em tom de afirmação. - A virgem... Maria!
Foi quando Juan entendeu o verdadeiro significado da pergunta e respondeu: - Isso mesmo, eu realmente escrevi esse poema para a virgem, Maria!
Nesse momento um alvoroço se ouviu de novo no meio da multidão e aproveitando-se dessa situação de bagunça Miguelito gritou alto: - Povo de Manzaneda! Quem de vocês não sente a mesma coisa quando estão diante da virgem Maria?  
As pessoas que falavam umas com as outras, discutiam, questionavam, pararam por um momento e olharam, dando atenção a Miguelito que continuou:
- Quem de vocês não sente a face enrubescer, ou se sente indefeso, ou sente que precisa da sua luz, ou sente que não é nada perto da virgem Maria? Quem de vocês não sente tudo igualzinho ao poema quando se tem um pouquinho de fé na virgem? Imagina um garotinho estudante de um mosteiro e educado segundo as rígidas leis católicas, tão plenamente aplicadas pelo disciplinador frei Augusto? Eu exijo que Juan de Castro, que agora sim teve chance de se explicar, seja libertado!
- Liberta-o! - gritou seu Armando do meio da multidão. – Liberta meu filho!
- Liberta o garoto! - outra pessoa gritou também.
A multidão em coro começou a se manifestar em gritos e brados de “liberta o garoto, liberta o garoto!”
Monsenhor Fernando, derrotado pela manifestação da multidão, abaixou a cabeça coçando a nuca, como se isso fosse abrandar a sua ira, e chegando-se perto de Miguelito falou baixinho entre os dentes:
- Eu e a santa igreja, vamos nos lembrar dessa humilhação, senhor Miguel de Cervantes Saavedra e nem que você se esconda entre os moinhos de vento holandeses, eu ainda vou te perseguir!
Miguelito abriu um largo sorriso de contentamento e abriu os braços como se comemorasse uma vitória.
            - Solte Juan de Castro! - ordenou Monsenhor Fernando.





A viagem de volta era longa, mas era muito mais feliz do que havia sido a vinda. Mas apesar da felicidade, uma coisa não deixava a paz adentrar o coração de seu Armando.
            - Filho, eu estou preocupado, porque você estava sobre juramento e mentiu dizendo que fizera aquele poema para a virgem Maria...
            - Não senhor Armando - interpelou Miguelito - ele disse que escreveu para a virgem “virgula” Maria, foi assim que eu perguntei.
            - Mas em quê isso melhora a situação? - falou seu Armando.
            - É que eu escrevi para a Maria filha do senhor Arquibaldo nosso vizinho. E como ela tem treze anos e é tão bem criada, eu tenho certeza que ela ainda é virgem...
            - Entendeu senhor Armando - falou sorrindo Miguelito - Maria a virgem filha do senhor Arquibaldo, ou simplesmente, a virgem, Maria!
            - Tudo bem, mas aí, você Miguel, fez as pessoas pensarem que era da virgem Maria mãe de Jesus, que o poema falava!
            - Tudo bem senhor Armando - respondeu Miguelito num largo sorriso. - Eu não estava sobre juramento mesmo.



                                                                                                           FIM





domingo, 1 de maio de 2016

Virgem Maria - parte 9






Os guardas trouxeram Juanito, que ainda estava encapuzado e com as mãos amarradas nas costas e o colocaram junto a Monsenhor Fernando.
- Tirem o capuz e desamarrem suas mãos. - ordenou o santo homem.
A olhos atentos esta era uma visão surreal, dois guardas enormes, com aquelas armaduras reluzentes, e suas espadas afiadas e prontas para atravessar facilmente as entranhas de qualquer inimigo, desamarrando cuidadosamente, um garotinho de alguns poucos anos de vida, com a estatura normal de uma criança, com as mãozinhas normais de uma criança, amaradas como se fossem de um leão prestes a atacar e engolir toda aquela multidão.
Monsenhor Fernando pegou uma Bíblia, colocou-a na frente de Juanito e falou:
 - Senhor Juan de Castro, o senhor reconhece que esta é a Bíblia sagrada e que ela é a palavra de Deus entre os homens na terra?
Juanito olhou a sua volta, viu os rostos das pessoas que o encaravam como se encarassem o próprio demônio, com olhares de desaprovação e condenação, e no meio da multidão, reconheceu seu pai, com o olhar marejado, aflito e triste que a situação merecia.
- Sim Monsenhor Fernando – falou o menino - eu reconheço que a Bíblia é a palavra de Deus.
- Senhor Juan de Castro - prosseguiu Monsenhor Fernando - o senhor sabe que um juramento feito publicamente e com a mão sobre a Bíblia é um juramento muito sério e que se tratado com injúrias pode te levar para o inferno sem salvação?
- Sim Monsenhor Fernando eu sei.
- Senhor Juan de Castro o senhor sabe que queimando na fogueira santa, você poderá pagar seu crime com o sofrimento e depois de um tempo no purgatório terá absolvição para sua alma?
- Sim Monsenhor eu sei.
Monsenhor Fernando, com um sorriso de sarcasmo, olhou para a multidão e com um leve balançar de ombros como se dissesse “eu tentei ajudar” continuou o juramento:
- Senhor Juan de Castro, o senhor, então ciente de tudo o que eu lhe expliquei, mesmo assim, ainda quer fazer o juramento com a mão sobre a Bíblia?
Juanito dá uma rápida olhadela para seu pai que faz que sim com a cabeça e diz: 
-  Sim senhor eu quero.
Sua resposta causou um alvoroço sobre a multidão que não entendia como uma pessoa preferia a punição eterna ante a chance de salvação.
- Senhor Juan de Castro repita comigo - falou Monsenhor Fernando. – Eu, Juan de Castro.
- Eu Juan de Castro.
- Prometo com as mãos sobre a Bíblia.
- Prometo com as mãos sobre a Bíblia.
            - Reconhecendo nela a palavra de Deus.
            - Reconhecendo nela a palavra de Deus.
            - Que falarei toda a verdade, nada mais que a verdade e não impedirei com nenhuma injúria que meu julgamento seja feito na mais correta justiça.
            - Que falarei toda a verdade, nada mais que a verdade e não impedirei com nenhuma injúria que meu julgamento seja feito na mais correta justiça.
            - Muito bem senhor Juan de Castro - falou Monsenhor Fernando entregando a Bíblia para um dos frades - o senhor está sobre juramento santo, então me diga, foi o senhor mesmo que escreveu aquele poema?
            - Sim senhor, fui eu mesmo.
          - O senhor sabe que é proibido escrever qualquer tipo de coisa que tenha como tema os sentimentos carnais entre homens e mulheres?
- Sim senhor eu sei.
- O tal poema que o senhor escreveu o senhor se lembra dele?
            - Sim me lembro.
            - Ele foi escrito para uma mulher?
            - Sim senhor, foi escrito para uma mulher!
            - Hahahaha, obrigado senhor Juan de Castro! - falou Monsenhor Fernando se virando aos soldados. - Amarrem ele de novo e vamos começar o sacrifício da purificação de sua alma.
Foi então que do meio da multidão Miguelito, subiu em cima de um barril e começou a declamar em alto e bom som: 
- “Ó mulher que suga meu ar.
Que faz minha face enrubescer.
            Não sou nada sem sua presença.
            Nem sequer existo longe de ti.
            E quando chego-me perto de ti, percebo minha insignificância.
          Apenas me sinto uma planta, indefesa, imóvel, que necessita de seus raios! De sua energia!
Ó mulher, és a melhor entre as mulheres.
            És aquela por quem meu coração dispara.
         És aquela por quem minha vida grita a plenos pulmões! Quero ser teu escravo, quero ser teu súdito, quero ser seu!
            Agora e para sempre!
            Todos os homens, se te conhecessem fariam assim como eu!
            Jurariam amor, jurariam fidelidade.
            Agora e para sempre!”





quinta-feira, 28 de abril de 2016

Virgem Maria - parte 8







- E agora Miguelito o que vamos fazer?
- Calma senhor Armando, nós vamos dar um jeito de salvar seu filho. - cochichou Miguel ao pé do ouvido de seu Armando.
Com grande rufar de tambores, todos os aldeões emudeceram e centralizaram suas atenções em Monsenhor Fernando, que saudou a todos com o símbolo da cruz de Cristo e começou a falar:
- Eu, Monsenhor Fernando, com o poder de julgar e absolver qualquer pessoa, conferido a mim pelo santo Papa no dia da minha nomeação como homem santo da igreja, venho aqui dizer para que vocês soldados, amarem essas três almas impuras no mastro ao centro da fogueira, para que através das labaredas santas eles possam encontrar o destino que eles mesmo procuraram, quando resolveram se desviar dos ensinamentos da santa igreja, com seus feitiços, ofensas e heresias.
Os soldados, acompanhados de mais um rufar de tambores, pegaram os dois homens e também Juanito, e os encaminharam para o centro da praça, onde o terrível palco de horrores santos estava armado.
Foi nesse momento que seu Armando não aguentou, e se jogou aos pés do Monsenhor gritando:
- Clemência Monsenhor, peço por meu filhinho que só tem poucos anos e não sabe a heresia que fez, por favor Monsenhor, pelo amor de Cristo!
Na multidão, ouve um grande burburinho de vozes cochichando, e os aldeões com olhares desacreditados, não conseguiam entender a atitude daquele homem.
- Não fale no nome de Cristo pedindo clemência por um herege; homem sem fé! - bradou Monsenhor Fernando se desvencilhando de Armando, e virando-se para os guardas falou: - guardas, segurem esse homem!
Alguns guardas vieram feito cães raivosos pra cima de seu Armando, mas por sua sorte, o primeiro que o segurou fazendo sinal aos outros de que tudo estava sob controle foi Natanael.
- Mas como o senhor vai queimar um garotinho sem nenhum julgamento? - falou Miguelito do meio da multidão.
- Como você ousa contestar a minha autoridade? - respondeu rispidamente Monsenhor Fernando.
- Eu ouso porque sei o que Juanito escreveu, e sei que não tem heresia nenhuma.
As pessoas se entreolharam não acreditando que alguém ousava discutir com o santo homem.
- Quem é você meu jovem, que se atreve tanto a atrapalhar a justiça divina. - falou Monsenhor Fernando já perdendo a paciência.
- Meu nome é Miguelito.
- Me perdoe, mas Miguelito não é nome. Como é seu nome?
- Miguel de Cervantes Saavedra, é meu nome inteiro, e eu estou indignado com a arbitrariedade desse seu julgamento, ou melhor, dessa condenação sem julgamento.
- Ah é senhor Miguel de Cervantes Saavedra? - falou Monsenhor Fernando com uma feição de superioridade. - E o que você sugere então?
- Eu sugiro que pelo menos seja dada a palavra a Juanito para que ele possa explicar sobre esse tal poema.
Monsenhor Fernando olhou para o povo, acompanhava aquela discussão com muita atenção, e resolveu ceder um pouco para que sua idoneidade não fosse contestada.

- Tudo bem - falou concordando - traga aqui o herege Juan de Castro!





segunda-feira, 25 de abril de 2016

Virgem Maria - parte 7




As pessoas da cidadela sabiam que ao raiar do dia a fogueira santa seria acesa e todos os bruxos e hereges seriam queimados vivos.
Assim a justiça divina seria feita e essas almas, sofrendo aqui na Terra, com essa tortura enorme, poderiam talvez ser perdoadas e ganhar a salvação eterna, sem deixar antes, de passar algum tempo no purgatório, para se purificar e deixar de vez, a influência maligna sobre seus seres.
Seu Armando e Miguelito passaram a noite em vigília esperando que a guarda da cidade e os santos monges trouxessem as pessoas para o sacrifício, assim eles fizeram turnos onde um ficava acordado três horas passando a “guarda” para o outro que ficava outras três horas na espera e assim sucessivamente.
Miguelito até conseguiu dar uns cochilos na escadaria da igreja mas seu Armando não conseguiu pregar os olhos, pois talvez aquelas fossem as últimas horas de vida de seu filho, e ele, como pai aflito, ainda não tinha nenhum plano ou saída, que lhe desse esperança de salvação para Juanito.
As cinco da manhã o povo começou a chegar das casas e se aglomerar na praça em frente ao amontoado de lenha que fora milimetricamente colocado ao centro da praça, com várias madeiras encaixadas e sobrepostas formando uma espécie de pirâmide, que viraria cinzas, assim que Monsenhor Fernando desse a ordem de atear fogo.
Ao cantar dos primeiros galos a comitiva que trazia o alcaide Arguiles, Monsenhor Fernando, mais uma dúzia de monges e uma grande quantidade de cavaleiros e soldados, apareceu no final da pequena ruela que começava na porta do convento. A comitiva vinha em passos quase fúnebres, como aquelas comitivas que acompanham um caixão para a cova, a frente, os noviços estudantes do convento, vinham entoando cânticos em latim e rezando ladainhas antigas, enquanto, mais atrás, alguns monges marcavam o passo com instrumentos de percussão, e a cada quatro passos eles soltavam um baque surdo e pesado, no couro cru do tambor, fazendo o ritmo da comitiva continuar, feito os ponteiros de um relógio, sem atrasar nem adiantar nenhum minuto.
Após esses monges três pessoas encapuzadas e com as mãos amarradas pra trás vinham atrelados uns aos outros por uma corrente que prendiam seus pés, não deixando nenhuma chance de fuga.
Quando a comitiva se aproximou da praça da igreja, as pessoas abriram caminho e deram passagem, até que com rufar dos tambores e um estanque seco a comitiva parou bem de frente a lenha preparada para a fogueira onde os hereges seriam queimados.
Monsenhor Fernando abriu caminho pelo meio da comitiva e se colocou à frente de todos. Quando viram o Monsenhor, todas as pessoas se dobraram fazendo reverência a ele como se realmente ele fosse um ser divino ou divinizado por Deus, para guiá-los na terra. Com gesto suave levantando o braço, o Monsenhor dispensou a todos da reverência, que se postaram em pé, calados e ávidos pelo show macabro que estava pra começar.





sexta-feira, 22 de abril de 2016

Virgem Maria - parte 6




Os cem metros daquele corredor pareciam os cem metros mais compridos que seu Armando e Miguel já haviam percorrido, no caminho eles passaram em frente várias celas e viram muitos rostos famintos, sofridos, com doenças e muita sujeira, na cela não havia água pra banho, havia apenas uma pedra com uma esteira de palha que servia de colchão e um penico que servia de latrina, as pesadas grades fechavam aquelas celas como se elas fossem túmulos, que trancavam em seu interior almas penadas que esperavam a “salvação” que seria sair dali, mesmo que fosse para uma forca ou para a fogueira. Mais alguns passos e eles chegaram até a última cela à esquerda, senhor Armando ficou com o coração chocado quando viu seu filho Juanito, sentado no fundo da cela de cócoras, segurando suas pernas com seus bracinhos de criança e olhando fixamente para uma fresta de luz que vinha da rua por uma rachadura na parede de pedra.
-  Filho!
Juanito não se mexeu e nem acordou do transe de tristeza em que estava mergulhado.
- Ei Filho, sou eu, o papai!
Juanito levantou seu olhar para aquelas duas pessoas encapuzadas na porta de sua cela. O menino fitou os dois por um longo instante, e abriu um leve sorriso assustado e incrédulo, quando percebeu que um deles era seu pai, que notando o susto do menino, foi logo fazendo sinal para que ele não gritasse e nem fizesse barulho.
- Papai – sussurrou Juanito correndo até as grades - como o senhor entrou aqui?
- Fique tranquilo filho, eu vim pra te levar para casa!
- Mas como papai? – disse o menino deixando escorrer algumas lágrimas.
- Ainda não sei filho, mas eu vou te tirar daqui – repetiu Armando, também com os olhos lacrimosos.
- E você? - falou Juanito se virando para Miguel que havia retirado o capuz – eu te conheço da escola, porque você veio junto com meu pai?
- Filho, - falou seu Armando chamando a atenção de Juan - eu preciso saber se você escreveu mesmo essa tal poesia?
- Escrevi sim pai, mas não sabia que era um crime tão terrível...
-Você se lembra o que escreveu? - perguntou Miguel.
- Lembro bem.
- Você poderia declamar essa poesia pra gente escutar?
- Posso sim:
“Ó mulher que suga meu ar.
Que faz minha face enrubescer.
Não sou nada sem sua presença.
Nem sequer existo longe de ti.
E quando chego-me perto de ti, percebo minha insignificância.
Apenas me sinto uma planta, indefesa, imóvel, que necessita de seus raios! De sua energia!
Ó mulher, és a melhor entre as mulheres.
És aquela por quem meu coração dispara.
És aquela por quem minha vida grita a plenos pulmões! Quero ser teu escravo, quero ser teu súdito, quero ser seu!
Agora e para sempre!
Todos os homens, se te conhecessem fariam assim como eu!
            Jurariam amor, jurariam fidelidade.
Agora e para sempre!”
- Puxa que lindo Juanito. - falou Miguel limpando uma lágrima que teimava em escorrer. - Você escreveu isso com amor mesmo.
- Filho, amanhã na hora da execução fale que não foi você quem escreveu!
- Não posso pai, as perguntas são feitas depois de um juramento sobre a Bíblia sagrada. E foi eu mesmo que escrevi.
- Eu sei filho - lutou senhor Armando - mas você vai preferir morrer?
- Eu sei pai, mas como vou jurar, me salvar agora e depois ir para o inferno eternamente?
- Deixe Sr. Armando, nós vamos arrumar uma forma de salvar Juan! O senhor se importa de ir andando na frente porque eu tenho uma pergunta particular para fazer a ele?
- Pergunta particular?
- Isso mesmo, uma pergunta que me veio à cabeça e que talvez seja a nossa salvação, mas isso é entre eu e o Juan.
O senhor Armando se ajoelhou junto a grade, segurou a mãozinha do seu filhinho, lhe deu um beijo na testa, e evitando chorar diante dele, se afastou com o coração esmagado pela dor de deixar sua cria num lugar tão triste e desumano como aquele.





terça-feira, 19 de abril de 2016

Virgem Maria - parte 5




O último raio de sol brilhava no horizonte quando Armando e Miguelito se apresentavam as portas da masmorra conforme o combinado com o capitão Antônio Fernandes. Na verdade, ele era chamado por todos de capitão, mas era apenas um soldado que tinha um pouco de privilégios, pois servia à guarda do reino de Aragão a muitos anos, nunca fora condecorado “cavaleiro” pois nunca participara de guerras, nem recebido o código de honra dos cavaleiros da santa igreja, mas certamente gozava de muito prestígio entre os nobres e homens importantes do reino, tanto que fora designado para chefiar a masmorra de Manzaneda, cidadela que abrigava o mais importante mosteiro de frades copistas oficiais da santa igreja católica e que tinha como representante maior o ilustre Monsenhor Fernando que praticamente ditava as regras do reino. A população do reino de Aragão, e principalmente dos arredores de Manzaneda diziam: primeiro Deus, depois o papa e em seguida Monsenhor Fernando.
Bastaram duas batidas na porta, para que uma fresta se abrisse e um soldado encapuzado aparecesse. Com apenas um movimento de olhos o soldado os convidou para entrar.
Em seu interior, a masmorra tinha um fedor de umidade e bolor que deixava o ar tão pesado que rapidamente era percebido por qualquer um que viesse da rua. O negro das paredes emboloradas ganhava contornos assombrados pelas luzes das tochas, que presas nas paredes dos corredores, lutavam bravamente contra o breu para trazer um pouco de claridade para aquele triste local.
            O guarda guiou-os até a sala do capitão Antônio Fernandes sem dizer uma única palavra. Chegando a porta, apenas apontou com a mão trêmula e acenou com um gesto de cabeça para que eles entrassem.
O capitão Antônio Fernandes estava esperando, e, logo que entraram ele disse apressado:
- Coloquem esses capuzes e sigam até o final do corredor, seu filho está na última cela à esquerda, não deixem ninguém ver a cara de vocês e não conversem com ninguém, não falem alto para que outros presos não os escutem, não falem nomes e não ousem citar que me conhecem, senão vocês não sairão vivos daqui! Entenderam?
 - Sim Capitão - falou Miguelito - nós nunca ouvimos seu nome!




sábado, 16 de abril de 2016

Virgem Maria - parte 4







Fazia algum tempo que Armando não vinha à cidade, toda sua vida era trabalhar todos os dias, de sol a sol, no plantio de cevada, trigo, batatas e na criação de porcos, cabras e coelhos. Raramente Armando tirava um dia para descansar com a família, geralmente quando fazia isso era porque a neve estava tão alta que emperrava a porta, deixando-os enclausurados dentro de casa. Seus produtos eram trazidos para serem vendidos e trocados na cidade pelo seu vizinho Honorato, que era quem geralmente vendia todos os produtos de todos os agricultores da sua aldeia. Por isso, Armando olhava admirado ao perceber o quanto a vila havia crescido e como as casas haviam se agrupado em volta do castelo, da prefeitura e do mosteiro da santa Igreja.
As pessoas andavam pela rua com pressa parecendo que iriam a algum lugar importante. Deu pra ver que na vila havia a loja do ferreiro, a loja dos mantimentos trazidos da roça e a loja de produtos importados, entre eles, especiarias vindas da África, azeite e vinho dos Algarves e lindos tecidos vindos do Oriente Médio. Armando e Miguel também repararam, que algumas mulheres usavam lindos vestidos de algodão e que algumas crianças já calçavam sapatos de couro e não chinelos de pano de saco com solado de madeira, como era lá na aldeia. “Meu Deus! - pensou Armando. - Como a cidade está mudada...”
Os dois andaram um pouco pela cidade procurando algum lugar para comer algo e esperar, pois o turno da tarde na masmorra ainda iria demorar algumas horas e o guarda Natanael falou que só deveriam entregar a carta ao tal chefe da guarda, Sr. Antonio Fernandes. Entraram os dois numa taberna e ajeitaram-se numa mesa. Uma mulher sorridente chegou perto deles e perguntou:
- Bom dia senhores, vão querer beber alguma coisa? Hoje temos vinho e cerveja fermentada de trigo.
            - Traga vinho e um bom pedaço de queijo com alguns pães para acompanhar a bebida. - falou Armando.
- Bom mesmo Sr. Armando, porque eu estou com muita fome. –falou Miguel, que virando-se para a atendente, perguntou: - Onde é o banheiro aqui senhora?
- Lá nos fundos meu rapaz, pode seguir por aquele corredor e virar à esquerda.
Miguel levantou-se e seguiu pelo longo corredor ladeado por mesas, todas cobertas com linho branco e com um candelabro de quatro velas ao centro, a taberna já devia ser bem antiga porque as teias de aranha desciam do telhado até os arcos que sustentavam as paredes, e assim, formavam desenhos que faziam a imaginação passear sobre a idade e as estórias que aquele lugar já viveu. Miguel olhou a sua volta e viu um homem sentado atacando ferozmente um prato de cozido de cabra, deu pra ver que este homem usava um uniforme igual ao do guarda da estrada, Miguel passou encarando-o tanto que o homem parou por um momento de comer e olhou fixamente para o rapaz.
Quando chegou ao banheiro, Miguel foi direto até a pia, lavar as mãos e o rosto, porque a poeira da estrada havia deixado seu rosto imundo e ele não conseguiria almoçar sujo daquele jeito, enquanto lavava o rosto, ele não percebeu, que alguém entrou furtivamente, feito um gato, pé ante pé, e se colocou bem atrás dele com a espada em punho esperando alguma reação sua. Miguel, distraído, se virou, e deu de cara com a ponta da espada em frente seu nariz.
- Posso saber porque o senhor passou por mim me encarando daquele jeito guri? - Perguntou o soldado faminto que a pouco estava sentado à mesa junto ao corredor.
- Nada senhor! - falou Miguel tremendo de medo. - Eu apenas estava olhando.
- De onde é você rapaz?
- Daqui de Manzaneda  mesmo, eu moro na área de plantação, meu pai tem um pedaço de terra...
- E o que você está fazendo aqui na vila?
            - Eu e o Sr. Armando meu vizinho viemos buscar o filho dele que foi preso injustamente, viemos procurar o soldado Antonio Fernandes, mas como o turno dele só começa daqui a algumas horas nós resolvemos comer alguma coisa antes.
            - De onde vocês conhecem o Antonio Fernandes?
- Foi o soldado Natanael quem nos indicou pra falar com ele. O soldado Natanael deu até uma carta de apresentação pra gente.
- Onde está essa carta? Me deixe vê-la!
- Está com o Sr. Armando lá na mesa.
O soldado aproximando-se de Miguel, o segurou pela orelha e saiu puxando para fora do banheiro falando: - Vamos ver se você está falando a verdade.
Quando passaram pelo batente da porta do banheiro, Miguel percebeu que Armando não estava mais sentado à mesa, foi então que o guarda que já quase arrancava sua orelha falou aos berros: - Onde está seu amigo, guri mentiroso?
- Estou aqui atrás de você companheiro - falou Armando encostando um punhal no pescoço do guarda - solte meu amigo Miguel e jogue sua espada no chão que nada vai te acontecer!
O guarda soltou a orelha de Miguel que latejava ardendo feito pimenta e jogou sua espada ao chão.
- Miguel, pegue essa espada - falou Armando – e o senhor, soldado, - disse encostando o punhal mais forte no pescoço do guarda - sente-se nesta cadeira a sua frente e ponha as mãos atrás da cabeça.
O soldado sentou-se e olhou para aquelas duas figuras a sua frente, um velho e um guri estavam lhe rendendo, logo ele um guarda da real corte da prefeitura de Manzaneda. Foi então, que com um simples golpe de sua bota, o guarda derrubou a espada das mãos de Miguel, e como um leão à caça, pulou em cima de Armando imobilizando-o e retirando o punhal de sua mão. Depois dessa facilidade toda, falou em meio a gargalhadas:
- Vocês dois achavam mesmo que poderiam render uma pessoa talhada na arte da guerra? Onde está a tal carta que Natanael mandou vocês me entregarem?
- O senhor é Antonio Fernandes?
- Capitão Antonio Fernandes meu rapaz, vamos, deixem eu ver a carta logo!
- Aqui está Capitão Fernandes - falou Armando entregando a carta ao homem - o soldado Natanael falou que o senhor nos ajudaria pois é um homem de bem.
- Hummm, deixe eu dar uma olhada nisso.
O capitão Fernandes leu tudo com atenção e depois de umas coçadelas na cabeça, olhou como se não acreditasse naquela situação, e falou: - Esse Natanael só me arruma encrenca mesmo! Tudo bem, vocês podem ir até a porta da masmorra ao pôr do sol sem falta, podem entrar que eu já vou deixar avisado, vou deixar vocês conversarem com esse seu filho alguns momentos, mas não serão muitos, então, pensem no que vão conversar para não perderem tempo.
Dizendo isso, o capitão Fernandes fez um gesto de cumprimento e, ao sair pela porta da taberna, frisou olhando para seu Armando com o dedo em riste:
- Até ao por do sol então, e não se atrasem.