domingo, 1 de dezembro de 2019

Xadrez






- Bom Dia!
- Hã? B… bom dia!
- O senhor poderia responder uma rápida pesquisa que estou fazendo?
- Que pesquisa?
- A diferença de oportunidades na sociedade brasileira em relação à raça e classe social.
- Nossa! Que bacana! Posso sim.
- Qual a sua cor?
- Como?
-Sua cor? Negro, branco, amarelo, pardo?
- Uai? A senhora não está me vendo aqui?
- Eu estou vendo, mas o senhor tem que declarar a sua cor.
- Hummm, então eu acho que sou pardo.
- Por quê?
- Porque sou moreno, bem moreno.
- Seu pai era negro?
- Não… na verdade meus avós paternos vieram já casados lá de Portugal, minha avó materna era italiana e meu avó materno era bem pardo, mais escuro do que eu, mas não era negro.
- Hummmm, então vou marcar aqui que você é pardo.
- Isso a gente pode ver só de olhar pra mim.
- Eu sei, mas a gente tem que chegar nessa conclusão depois de investigar direito, a nossa metodologia é científica.
- Ah tá… legal!
- Qual seu grau de escolaridade?
- Estou na faculdade.
- Certo, então vou marcar aqui branco.
- Branco? Mas eu não sou pardo?
- É pardo, mas com esse grau de escolaridade é branco.
- Como assim?
- Nossa pesquisa é científica, baseada na escola Juliana francesa e na escola de Frankfurt da Alemanha.
- Ah… Desculpa! Então deve ser coisa séria.
- Lógico que é séria. Posso continuar?
- Pode, uai.
- O senhor tem casa própria?
- Não, moro de aluguel.
- Então é negro.
- Negro? M… mas dona? Eu não era pardo e depois branco?
- Mas nesse quesito o senhor é negro!
- Aiaiaiaiai… vai, continua…
- Que tipo de música o senhor gosta?
- Rock, eu sou roqueiro.
- Ah… Branco…
- Branco?
- Isso, porque quem gosta de rock é branco! Negro gosta de pagode e axé…
- Dona, de onde é esse seu método científico mesmo?
- Escola Juliana francesa e de Frankfurt na Alemanha.
- E essa sua pesquisa é pra quem?
- Para um jornal e uma TV, que agora não posso revelar.
- Hummmm.
- Continuando: Que tipo de comida é a sua preferida?
- Feijoada.
- Negro.
- M… mas…
- Com que regularidade o senhor come feijoada?
- Umas duas ou três vezes no ano.
- E que tipo de comida o senhor mais come na sua casa?
- Arroz, feijão, carne, legumes, macarrão.
- Branco.
- Branco?
- É… Comida balanceada é de branco, mas vou colocar uma observação de subnutrição negra.
- Subnutrição negra!?
- É.
- Mas por quê?
- Porque o senhor come feijoada só duas ou três vezes no ano.
- Mas subnutrição? Olha o tamanho da minha barriga!
- Isso não importa na nossa metodologia científica.
- O senhor disse que gosta de rock.
- Disse e por isso a senhora me disse que sou branco.
- Certo! Aí, já está entendendo. Mas me diga, com qual frequência o senhor vai aos grandes shows de rock, tipo Lollapalooza, Rock in Rio etc?
- Nunca fui.
- Negro.
- Uai, mas quem gosta de rock na sua metodologia não é branco?
- É… mas quem não tem direito à cultura é negro.
- Olha dona, essa sua pesquisa é furada! Me desculpe, mas segundo a senhora eu sou pardo, branco e negro, dependendo da ocasião e isso não está certo!
- É a metodologia…
- Metodologia furada e ridícula! Eu não vou mais responder isso não!
- Branco!
- Hã?
- Pessoas avessas a pesquisas sociais são brancas...






6 comentários:

  1. Bahhhhhhhhhhhhhh...Eu teria desistido já na segunda pergunta...Que pesquisa!!rs Muito bem bolada tua crítica tão verdadeira!!! Tudo papo furado nessas pesquisas e o preconceito come solto,rs abração,chica

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  2. Que gostoso de ler aqui, gostei, tivestes uma ótima inspiração!
    Quem vive em função da pesquisas morre de estresse, mas com tantos preconceitos o seu texto nos dá a alegria de rir com isso, pois a vida está ficando cada vez mais complicada para todos.
    Amei ler, que bom que você apareceu, ja estava com saudade!
    Abraços apertados!

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  3. Uma excelente critica a determinadas pesquisas.
    Adorei.
    Abraço

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