segunda-feira, 6 de agosto de 2012

A morte, o tempo e os sonhos

Na entrada do cemitério da Boa viagem, estava o jazigo da família Gouveia. Adalberto Gouveia era um homem amigo de muita gente, muito bem relacionado na cidade, entendia muito de muitas coisas. Na metade de sua vida Adalberto sonhou em montar sua lanchonete, mas a situação do país e os problemas financeiros que assolavam a nossa economia não deram coragem para que Adalberto abrisse o tal negócio.
Na quadra de baixo, dois túmulos depois da esquina, do lado direito, estava o túmulo de Margareth Albuquerque.
Margareth foi a melhor aluna da cidade nos anos 80. Passou em quatro faculdades federais, sendo que em duas teve a nota mais alta de todo o vestibular. Tal era sua inteligência que Margareth foi convidada a estudar na Inglaterra com todas as despesas pagas pelo governo inglês. Mas o pai de Matgareth, "seo" Albuquerque, como era conhecido, não deixou a filha ir sozinha para uma terra tão distante.
Descendo mais algumas quadras, chegamos ao tumulo de Antonio Caldeiras. Um jovem rapaz que trabalhava de mecânico de automóveis, numa pequena oficina da cidade. Quando estava para se casar, Antonio teve a chance de ser contratado por uma grande montadora de automóveis que estava se instalando no Brasil. Ele faria alguns cursos e treinamentos e assim teria uma grande chance de se tornar um chefe de setor na grande montadora. Mas a sua futura esposa não queria deixar a cidade e assim ficar longe de sua família.
Ao lado de Antonio estava enterrada a "irmã" Ana. Uma freira que depois de uma tentativa não bem sucedida de se casar e ter filhos, resolveu se enclausurar num convento e levar uma vida de religiosa.
Mais três quadras à esquerda e bem no meio do cemitério estava a carneira de João Francisco Nunes, o mais promissor jogador de futebol que a cidade já teve. Quando rapazote ele chegou a ser sondado por Flamengo, São Paulo, Corinthians e Botafogo, mas a vida era muito boa em sua adolescência, com muita bebida e muitas mulheres.
Muitos sonhos estavam alí naquelas ruas do cemitério, enterrados juntos com seus sonhadores. Pessoas que morreram frustradas por não ter corrido atrás de seus desejos enquanto podiam. Pessoas que não lutaram com a vida e com as situações para alcançarem seus objetivos. Pessoas que simplesmente se perderam no meio do caminho.
Adalberto Gouveia morreu trabalhando de empregado numa banca na feira.
Margareth se aposentou como costureira e morreu anos depois num asilo.
Antonio Caldeiras se suicidou depois que sua esposa foi pega com o vizinho em sua cama.
Irmã Ana, morreu no convento tristemente por não ter constituído família e não ter podido ser mãe.
João Francisco morreu quase como indigente, se não fossem os documentos velhos e amassados que ele carregava dentro de uma mochila gasta e fedida. João Francisco era um andarilho.
Como esses, incontáveis sonhos estão enterrados pelos cemitérios do mundo. Sonhos esses que poderiam ter mudado uma vida, uma cidade ou até um país... Sonhos que não voltam mais. A não ser que sejam sonhados por algum vivo... Que ainda tem tempo de realizá-los...

41 comentários:

  1. Oi querido,

    Tudo bem? O seu texto me emocionou. Estava indo dormir e me lembrei do sonho que me ronda e resolvi continuar.

    Obrigada!

    Beijos.

    Lu

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    1. Valeu Lú! Continue sim minha amiga! Sempre em frente!

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  2. Olá!Boa noite!
    Tudo bem, André?
    Amigo.... S.Jobs dizia "Ser o homem mais rico do cemitério não me interessa. Ir para a cama à noite dizendo que fizemos algo maravilhoso, isso importa para mim”, e infelizmente, igual à esses 5 citados por você, muitos outros sonhos são enterrados diariamente... não adianta só sonhar com algo que você quer muito, você tem que acreditar e lutar, correr atrás e por mais difícil que seja,nunca desistir.A vida é muito breve!O desafio não espera. A vida não olha para trás!
    Boa semana!
    Abraços

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    1. Vicer e tentar ser feliz!
      Valeu Felisão!

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  3. Seu texto me lembrou de uma fase em que eu vivia no cemitério na minha cidade, com minha tribo Dark era comum aos fins de semana pularmos o cemitério e tomar um vinho lendo poesias, ou proseando com o coveiro que contava histórias de várias pessoas que havia ali enterrado, mas eu amava principalmente aquelas que se pareciam muito com essas que vc contou. Tinha a Rosa Sabina, uma negra linda que foi estuprada por caminhoneiros, a deixaram quase morta e grávida, então a coitada lutou pra se manter numa casa de família que aceitou, mas morreu no parto, hoje o túmulo dela é sagrado aqui, as pessoas vão lá acender velas e tal, enfim, são inúmeras histórias de vidas, como vc mencionou.
    Amei, como sempre meu amigo.
    Beijão.

    Ps.: Net com problemas, por milagre agora consegui acessar seu blog na página de comentários sem cair minha conexão, espero que entenda, não sumi, foi problema técnico mesmo .

    Vivi
    Razão e Resenhas

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    1. Eita Vívi! Vc foi dark! Hahahahahahhahaha, bons os tempos das tribos urbanas pacíficas e inteligentes né?

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  4. Dedé, meu amigo!
    É.... acho que o teu melhor texto, menino!

    Fiquei emocionada. Porque a vida é muito breve, mesmo que a gente conseguisse viver uns 100 anos. O que são 100 anos, não é mesmo?
    Temos que fazer jus a esse dom divino que é a vida, e honrá-la com a busca dos nossos sonhos, o bem-estar das pessoas que amamos também e tantas coisas para fazer. Não dá para ficar com o bumbum parado, não se mexer, vegetar e achar que isso é vida.

    Parabéns! Muito bom!
    Lembrei-me da música do The Smiths: Cemitery gates.

    Abração para ti e o povo daí! Beijinhos no Samuelzinho!

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    1. Que bom Cissa! Fico feliz toda vez que vc fala que esse é o meu melhor texto! Hahahahahahahahahahhahahahaha.

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  5. Oi André! Bom dia! Muito lindo o seu conto!
    É a mais pura verdade...
    Eu perdi uma sobrinha em 2010 aos 07 anos...E aprendi muito com o seu sofrimento e morte!
    A vida, muitas vezes é breve e tem pressa!
    E é preciso que não sejamos econômicos, tanto em viver, como em amar as pessoas!
    Tem uma música que gosto muito, cujo refrão é assim:
    "...Eu já não alcanço o passado
    Meus limites reconheci
    O hoje é tudo o que tenho, isso entendi
    Preciso trazer a memória histórias que desprezei
    Não posso me esquecer, venho te oferecer
    Flores em Vida
    Enquanto é dia!
    Já não me esqueço, hoje ofereço
    Flores em Vida
    Enquanto..."
    ("Flores em vida" - Paulo César Baruk).
    Mais uma vez, parabéns pelo post! Lindo e profundo!
    Um abraço, Adelisa.

    p.s.: segue um dos links que escrevi sobre ela.

    http://adelisa-oquerealmenteimporta.blogspot.com.br/2010/10/o-que-eu-diria-juju-neste-dia.html

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    1. Muito linda a letra Adelisa! Valeu pela visita!

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  6. Nem me fala!!Como é breve nosso tempo por aqui mesmo.E há os que até pra morrer querem ser mais que os outros!!

    E ali, naquele lugar, estão enterrados todos,uns em jazigos lindos, outros simples, mas ali, com seus sonhos, tudo mais... LINDO e tocante texto! abração,chica e parabéns!!

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  7. Caramba Dé que critica bacana!
    Tapa na cara da gente pra parar de ser medroso e correr atrás do que quer né? Gostei!

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    1. Hahahahahhahahahahhahaha é Camila! Verdade verdadeira!

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  8. Muito bom seu texto, devemos encarar a vida e não esquecer da morte que é a unica coisa certa para todos nós.

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    1. Assim dizia Chicó!

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    2. Ha ha ha, só sei que é assim.

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  9. É, meu amigo, sonhos não realizados são praticamente a regra. Muitas vezes eles simplesmente não acontecem, mesmo que se tenha lutado para realizá-lo. Outros, é verdade, batem em nossa porta e nós deixamos passar. Penso muito nisso. Em morrer e não fazer tudo o que eu sonho. Por isso, talvez, a melhor coisa a se fazer é não sonhar tão alto...

    abraços

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  10. Oi André,

    Muito bacana a sua crônica.
    Alguns, por mero comodismo, deixam de buscar a realização de seus sonhos. Outros não lutam por eles por medo de se arriscarem. E a vida passa. No final são enterrados com seus sonhos, como os personagens de seu conto, nada realizando em prol de sua satisfação ou nada produzindo de útil, e passam pela vida sem viver ou deixar sua marca.

    Gostei demais!

    Grande abraço.

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    1. O duro quando é mero comodismo!

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  11. André, beijinhos de boa noite!!

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  12. André! Meu amigo, que beleza de cronica!!

    Só temos uma vida... e cada dia é uma oportunidade!
    A vida não da nada pronta...temos que sonhar e ir em frente!
    Muito bom te ler.. beijinho no seu filhinho e na tua esposa..outro pra vc..

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  13. André, é comum pensarmos que podemos deixar passar uma oportunidade, quando jovens, de tanto que nos dizem que não faltarão outras. Mas não é esse o caminho que a vida oferece. Os sonhos têm tempo de amadurecimento e de realização. Existe a hora certa para o abraçarmos. Bjs.

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    1. É Mary! Acho que essa teoria é mesmo a certa!

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  14. Anônimo8.8.12

    Segundo a Bíblia, devemos adquirir tesouros no céu, porque na terra as traças destroem e no céu é eterno.

    Na morte não se leva nem o corpo neh?

    Abraços

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  15. Anônimo8.8.12

    Alguns já estão mortos em vida, não sabem que estamos em um teste e que Deus cobrará cada ação ou intenção. Depois da morte darão conta a Deus, mas isto é com eles neh, os anjinhos....rsrsrs

    Abçs

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  16. Deu pra sentir daqui o seu texto, querido! Muito lindo!

    Beijos,
    http://eppifania.blogspot.com.br/

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  17. é incrível este teu texto, querido amigo. ressuscitar os mortos é o que fazes nesta crónica que versa muito mais sobre vida do que sobre morte. até porque só enquanto há respiração há sonho e vontade.

    o que mais me impressiona no teu texto é este olhar sobre um lugar que nos habituamos a conotar com a morte e que tu, tão sagazmente, impregnas de vida.

    abraço com admiração, andré!

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    1. Hahahahahahahahaha, vindo de você meu amigão! Fico muito feliz!!!!!!

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  18. Anônimo9.8.12

    Esta noite tive outro sonho, amanhã te conto, tá?

    Bjinn

    ...rs

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  19. Paz,

    Visitando alguns blogs me deparei com o seu comentário e me agradei em conhecer seu espaço.
    Gostei dos posts. E aqui estou para convidar a também visitar meu blog.
    http://frutodoespirito9.blogspot.com/
    Se gostar, o convido a seguir-me, e eu retribuirei o carinho.

    P.S. Estou indicando o blog de um irmão, que postou algumas mensagens polêmicas para alguns, as mesmas denunciam as calamidades que ocorrem no meio evangélico. Espero que goste!
    Acesse e confira:

    http://discipulodecristo7.blogspot.com/

    Em Cristo,

    ***Lucy***

    Aguardo visita e comentário...

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  20. André, fazendo uma ligação com o brilhante e inteligente texto que acaba de publicar, podemos refletir e pensar: quantos são aqueles que ao longo de suas vidas não enterram seus sonhos, seus desejos e suas vontades nos túmulos recônditos de nossa consciência humana. Não podemos sepultar nossos sonhos enquanto ainda vivemos, pois isso significa morrer, antes da morte propriamente dita. O texto também pode nos levar a essa reflexão caro André. Um grande abraço.

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  21. Parece ridículo até... mas toda a vez que leio uma lápide ou vejo uma casa abandonada e em ruínas na beira da estrada, ou no meio do campo... eu penso... que sonhos tiveram aquela pessoa enterrada ali ou aquelas que construíram e viveram naquela casa?
    Será que morreram sem realizá-los? Será que foram felizes ou tristes? Me dá até uma certa nostalgia, ou tristeza... ou sei lá eu o que... o certo é que penso: quero viver muito, muito mesmo, mas quero que essa vida seja a cada dia melhor e mais feliz para mim e para aqueles que me cercam. E um dia (daqui a 60 e tantos anos), quando a dita me levar, que eu tenha podido realizar o sonho primordial de todo ser humano: ser feliz!

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  22. as vezes eu paro para pensar nisso tbm.Cada lápide representa alguém como nós, que teve sonhos, que lutou por alguma coisa, ou pessoas que não conseguiram realizar seus sonhos por não terem tido tempo.É estranho, pessoas das mais diversas idades, algumas morrem muito jovens, outras morrem crianças e outras muito velhas.E cada vida é única, ninguém mais vai viver o que essas pessoas viveram.Pessoas das mais diversas épocas, que tiveram um monte de problemas, mas tbm com certeza tiveram alguns momentos bons.Mas um dia todo mundo se vai.É o destino de todos nós.

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