sexta-feira, 15 de dezembro de 2023

Cartinha de Natal

 


            Eu vejo essas pessoas que falam que se lembram de tudo o que aconteceu com elas desde que eram crianças, desde que tinham três ou quatro anos, que se lembram “como se fosse hoje”, aí eu penso que então eu sou meio ruim das ideias.

            Eu não me lembro de quase nada! Na verdade, eu tenho uns flashes de algumas coisas que me aconteceram e que geralmente, não sei porque, são lembranças de momentos não tão felizes.

            O pensamento mais antigo que lembro é um muito triste, ele é de um homem que vendia biju na rua.

            Hoje não se vê mais isso, mas o “bijuzeiro” era uma pessoa que andava pela rua, com uma coisa barulhenta na mão, que se chamava matraca. Essa matraca era uma plaquinha de madeira, que tinha uma alça e uma dobradiça, que o bijuzeiro balançava girando o braço, o que fazia a dobradiça bater pra cá e pra lá e fazer um barulho, tipo: “plac plac plac plac!

            — Olha o bijuuuuuuu!” — eles gritavam.

            E a criançada corria para comprar isso, que nada mais era, do que uma massa doce, quase igual a massa do sorvete cascão que a gente compra hoje nas sorveterias.

            Eu devia ter uns quatro anos, (sei disso pela casa em que a gente morava) e ainda não sabia contar o dinheiro. Eu lembro que fui correndo em casa e peguei uma nota qualquer que estava por ali e corri pra comprar o biju. O homem disse que o dinheiro não dava. Então eu voltei correndo e peguei outro dinheiro que encontrei, fui correndo e ele disse que ainda não dava. Eu falei pra ele esperar e voltei correndo vasculhei a casa toda e arranjei mais umas notas e moedas, voltei de novo ao bijuzeiro, que pegou as notas todas amassadas na minha mãozinha de criança e falou para as outras crianças que estavam em volta dele:

            — Olha o dinheiro desse gordinho! Hahahahaha! Não dá pra nada e até parece dinheiro de bêbado, todo amassado! — e virando-se pra mim, sorrindo com um sorriso de demônio banguela, disse. — Vai embora moleque, seu dinheiro não dá pra comprar nada.

            Todos os meninos deram risada da minha cara... Essa é a lembrança mais antiga que eu tenho: um bijuzeiro velho, banguela e desumano. Na verdade, acho que lhe faltava só os atacantes... Os laterais ele ainda tinha, naquela boca feia.

            Outra lembrança muito antiga, deve ser do ano seguinte, no Natal, que é o Natal que eu recebi meu primeiro presente do papai Noel, e olha eu já tinha quatro anos.

            Até então, meu pai que trabalhava muito, mas que também adorava gastar com as maravilhas da noite, não deixava faltar o básico em casa, que era comida, aluguel, água e luz; mas fora isso, tudo era luxo! Chocolate eu acho que ganhava uma barrinha a cada três ou quatro meses. Refrigerante deveria dar pra uma semana e não era toda semana que tinha. Bolacha recheada, iogurte, salgadinho... Eu nem sabia que essas coisas existiam.  Nesse contexto de humildade e pobreza, eu pedi numa redação da escola que o papai Noel me desse uma bola “dente de leite”, que era uma bola que tinha naquele tempo, e que parecia uma bexigona. Hoje em dia as crianças não querem nem ver uma bola dessas, seria quase um motivo de bulling, mas pra gente no final dos anos 70 era um brinquedo sensacional.

            Lembro que era de noite e meu pai foi a cozinha, voltou, e se deitou na cama com minha mãe. Eu dormia numa cama ao lado, porque nossa casa só tinha um quarto, um banheiro e uma cozinha.

            Depois de algum tempo meu pai falou como se estivesse assustado:

            — André, você escutou esse barulho na cozinha? Vai lá ver o que é?

            Eu fui e me lembro da bola ali em cima da pia! Embrulhada num papel vermelho. Puxa vida! — eu pensei. — O papai Noel havia leu a minha redação!

            Meu Natal não teve nada além da bola, eu nem sabia o que era panetone, não teve refrigerante, leitoa assada, churrasco... Imagina se isso era possível. Mas não importava nada disso, porque eu tinha ganhado uma bola dente de leite! O que mais que eu iria querer na vida?

            Essa, apesar de hoje eu saber que não era uma situação fácil e que não foi um Natal feliz, mesmo assim, acaba sendo uma lembrança boa.

            Meu primeiro presente de Natal, esse a gente nunca esquece.

            Esses dias eu estava pensando em como a vida melhorou, apesar de não ter mais meu pai aqui entre nós.

            Ele poderia ter sido muito mais feliz e fazer da gente uma família muito mais feliz também, mas reconheço que alguns anos antes dele morrer, ele já havia resolvido ser pai de família de verdade e a situação melhorou muito.

            Há algum tempo eu assisti uma reportagem sobre garotos muito pobres que estavam pedindo ao papai Noel lhes trazer alguma coisa no Natal. Um carrinho, uma bolinha, uma roupinha, qualquer coisa.

            Os correios têm uma iniciativa muito bacana, aonde você pode ir até lá, ler alguma das cartinhas endereçadas ao papai Noel e se resolver, dar o presente para a criança.

            Eu sei que só vai o presentinho que a criança pediu. Não vai churrasco, nem leitoa assada, e talvez essa criança também nem saiba o que é panetone, mas eu me lembro da felicidade que fiquei quando o papai Noel me trouxe aquela bola dente de leite e posso falar que valeu a pena!

            Talvez, se a gente, que hoje pode, resolver ter uma atitude de presentear uma criança dessas, essa atitude possa ser daqui a 30, 40, 50 anos, uma lembrança boa na cabeça de algum adulto, que talvez não quebre a corrente, e continue fazendo alguma criança feliz por aí.

            O que acha?

 


sábado, 2 de dezembro de 2023

Limpem os túneis

 

 

            Todo dia era a mesma coisa!

            Eles nem se lembravam mais, qual foi o primeiro dia em que eles começaram a trabalhar naqueles tuneis. No começo o percurso era menor e os tuneis eram novos e fáceis de trafegar, mas com o passar do tempo o percurso só foi aumentando e os túneis cada vez mais foram ficando cheios de obstáculos.

            O serviço deles era de vital importância nesse sistema. Eles tinham que levar oxigênio para o controle central, e de lá, esse oxigênio era distribuído para todos os departamentos por esses túneis.

            O problema, é que com o passar dos anos, o gerente dessas instalações não tomou as devidas providências para manter os túneis limpos e fáceis de trafegar. Esse gerente deixou muito lixo se aglomerar nas paredes dos túneis, o que infectou e degradou todo o sistema com produtos tóxicos que estragaram quase todas as vias.

            Assim, os funcionários responsáveis pelo transporte de oxigênio estavam com muita dificuldade de executar o seu serviço, o que exigia que o comando central mandasse cada vez mais energia nos túneis, em uma tentativa muitas vezes inútil, de fazer com que o fluxo de oxigênio continuasse correspondendo as necessidades. O descaso com a malha de túneis era tanta, que o controle central não conseguia socorrer em todas as direções, e por isso, o processo e o sistema inteiro estava sofrendo, e poderia até, entrar em colapso.

            O setor responsável pela filtragem da água não filtrava direito e mandava impurezas para todos os lugares, o setor responsável pela renovação do oxigênio dos túneis não conseguia sugar e nem transferir esse ar para o sistema, o setor responsável pela inteligência do comando central e pela mecanização do todo, começava a falhar e tudo estava desencarrilhado, como engrenagens que não se encaixavam mais... Até que um dia; o sistema todo parou!

            — Vamos tentar mais uma vez — falou o médico na ambulância!

            — Carregando! — respondeu o enfermeiro com os olhos arregalados. — O senhor pode colocar os eletrodos no peito dele.

            — Pronto!

            — Então vamos. — falou o enfermeiro olhando para o médico. — Um, dois, três, lá vai!

            O corpo estrebuchou e o coração deu novamente sinais de vida.

            — De novo! — gritou o médico.

            — Um, dois, três... Lá vai!

            O corpo estrebuchou de novo e o médico começou a fazer massagem no peito do paciente e respiração boca a boca. Depois de mais de quinze minutos de luta, finalmente os socorristas conseguiram salvar o paciente.

            Ele foi internado na UTI e por lá ficou mais de uma semana. Quando saiu, o médico lhe passou um regime, um plano de exercícios e alguns remédios. O médico falou que seu corpo estava muito descuidado e debilitado e que se ele não se cuidasse fatalmente não teria muitos meses de vida.     — Ainda dá pra recuperar, — advertiu o médico — só depende de você!

            Assim as coisas foram melhorando para as células que eram os funcionários dos túneis. Agora eles poderiam levar oxigênio para todo o corpo e assim continuar a semear a vida. As placas de gordura foram sumindo das veias, as artérias foram se limpando, o sangue conseguia levar vida a todos os órgãos e por isso, o sistema conseguiu uma sobrevida melhor e com mais qualidade.

            O controle central parecia que estava mudado. Parecia que tinha entendido que as engrenagens necessitavam de cuidado constante... Os funcionários dos túneis agradeciam.

            A vida melhorou para todos