Zezé é um menino.
Um menino que não tem celular, não consta nos
dados do Google, não tem conta no Facebook e que não sabe o que é watsapp.
Zezé é um menino que vive à margem da
sociedade. Uma margem, ao contrário do que a maioria pensa, feita de multidões
e multidões de rostos invisíveis.
Ele não entende nada sobre esquerda, direita,
democracia, socialismo, nazismo e não sabe qual é o tipo de governo do Brasil. Ele
não sabe quem é o presidente, quem é governador e muito menos o ministro da
justiça. Na verdade, ele não sabe o que é um governador, nem o que faz um
prefeito ou um vereador.
Zezé não sabe nem de onde veio, imagina se
iria ficar preocupado em decorar nomes, de pessoas tão distantes.
Nem em sua lembrança mais antiga ele
reconhecia um rosto para chamar pai.
De vez em quando, ao examinar essas
lembranças antigas, ele via em alguns flashes uma mancha disforme, que sorria
para ele. “Essa mancha deve ser a minha mãe.” – pensava, coçando a cabeça.
Ele, com vergonha, sempre acompanhado de uma risada
nervosa, brinca dizendo para todo mundo que é filho de pai sem mãe e de mãe sem
pai.
Zezé foi criado por uma irmã mais velha; Marcia,
apenas três anos a mais que o irmão, um dia se viu abandonada não sabe por quem,
de mãos dadas a um garoto, de não mais de três anos, andando com ela pelas ruas
da cidade.
Juntos, eles cresceram comendo restos de
comida encontrados em latas de lixo, dormindo em terrenos baldios, ou nos jardins
das praças. Eles se cobriam com jornal e trapos velhos, e quando o frio
apertava muito, eles cheiravam cola para sumir desse mundo um pouco.
Em um lindo dia de primavera, acharam o corpo
de Marcia num matagal atrás do campo de futebol, comida pelos humanos e pelos
vermes.
A polícia achou normal, afinal, tratava-se apenas
uma menina de rua.
Ela foi enterrada como indigente, e com o
caixão lacrado.
Zezé nunca ficou sabendo da passagem de sua
irmã. Em sua cabeça, ele imaginava que ela tinha encontrado um homem bom, e que
se esquecera dele, assim como seu pai e sua mãe um dia se esqueceram.
Andando sozinho em meio à multidão, Zezé
reparou que de repente as pessoas estavam usando máscaras.
- Dona, - perguntou a uma mulher que saía de uma
loja – por que todo mundo está usando esse negócio na cara?
- Você não tem máscara? – respondeu a mulher
examinando-o de cima abaixo. – Não está com medo do covid?
-
Medo de quem?
-
Do corona moleque! Você não tem medo corona? Você tem que se cuidar!
-
Quem é esse corona?
-
O vírus chinês! Onde você estava nos últimos três meses, que não sabe disso!
“Onde
eu estava?” – pensou Zezé confuso.
Depois do sumiço de sua irmã, Zezé continuou
sua vida. Uma vida difícil, porém, para ele, feliz! Afinal, ele já tinha
quatorze anos e uma mulher: Carol.
Carol, tinha treze anos e os dois tinham um
filho de quatro meses.
- Por que sô feliz? - perguntava Zezé para
todos que diziam que ele andava sorrindo pela rua. – Sô feliz porque eu sô pai!
Depois que o neném nasceu, a comida
encontrada nas latas de lixo não estava dando para os três, por isso Zezé
começou a fazer pequenos furtos para comprar marmitas.
Ele sabia que era errado roubar, pelo menos
ele ouviu o padre falando isso em uma missa. Mas será que o padre sabia o que
era passar fome?
De vez em quando eles mendigavam no calçadão
ou na porta do mercadão. Carol, desnutrida, não tinha muito leite, mas Zezé
ouviu um homem falando na banca de jornais, que frutas e legumes ajudavam a
mulher a ter mais leite.
Zezé sabia que as pessoas jogavam muitas
verduras boas no lixo do mercadão, por isso sempre passava ali em busca de
alguma coisa que desse para comer e quando estava com sorte encontrava além das
frutas e verduras, alguns pacotes de bolacha.
Uma vez
uma mulher que viu ele e Carol revirando o lixo e acharem um pacote de
bolachas, disse para eles não comerem, porque a bolacha estava vencida e
poderia fazer mal.
Zezé deu risada e virando-se para Carol
falou:
- Faiz mal é a barriga da gente doê e a gente
não tê nada pra comê.
- Liga não – respondeu Carol – essa mulhé
deve sê lôca!
Na rua, vários moleques que viviam pela
cidade, acabavam por formar uma família, que dormia, comia, cheirava cola e
conversava junto. Uma vez, em uma noite de muito frio, eles fizeram uma
fogueira dentro de um tambor na praça, e ficaram em volta jogando conversa
fora.
- Hoje uma mulhé me falô que tem um chinês aí
quereno matar todo mundo. – disse Zezé a seus amigos.
- É... – respondeu Carlim. – Eu também escutei
essa conversa.
- Um homem lá na porta da padaria disse que
eu tinha direito a ganhar seiscentos reais do governo. – falou Craudia.
- O quê? E cê acredita nessa besteira, Craudia!
– falou Zezé se levantando e caminhando até mais perto do tambor. – Se o governo
dar esses seiscentos reais pra você eu dou o rabo!
Enquanto os moleques davam risada da fala de
Zezé, uma viatura encostou atrás da igreja, e dois policiais chegaram
furtivamente até onde eles estavam.
Zezé, Jão,
Carlim, Cráudia, Alê, Xixa, Carol e outros tantos moleques se assustaram quando
os policiais gritaram:
- Polícia! Ninguém se mexe!
- Calma senhor! – falou um dos moleques.
- O que vocês estão fazendo aqui e sem
máscara!
- Desculpa senhor! Mas a gente não tem
masc...
- Cala a boca moleque! Todo mundo tem
máscara!
- Mas a gente não tem nem comida! - falou
Zezé. Como é que a gente vai tê máscara?
- Já falei para calarem a boca! – gritou o
policial. – Vocês não sabem que está proibido aglomeração?
- Proibido o quê?
- Aglomeração, moleque! Não sabe não?
Os meninos se entreolharam sem saber o que
estavam fazendo de errado, e não entendendo nada da conversa do policial.
- E esse neném? – gritou mais uma vez o
policial. - Vamos levar pro juizado!
- Meu filho não! - Falou Carol agarrando-se
ao bebê.
- Vai ele e você! – respondeu o policial
retirando o bebê das mãos de Carol enquanto perguntava. - Quantos anos você tem
menina?
Carol sem responder a idade, se
atracou com o policial, e os outros moleques vendo a reação da amiga, também entraram
na briga. Foi uma confusão!
Os dois policiais foram cercados, e para se
defenderem, sacaram suas armas apenas para tentar impressionar e manter o
respeito dos moleques, mas de repente ao tentar impedir o ataque de um dos
meninos, um policial puxou o gatilho por instinto e atirou à esmo.
Zezé que já tinha visto muita coisa
nessa vida, viu sua mulher e seu filhinho caírem no chão.
Justamente quando Carol conseguiu retirar o
bebê das mãos do policial, a arma foi disparada. O tiro atravessou os dois.
Os moleques foram para cima dos policiais e Zezé
com uma paulada movida a muita raiva, acertou a nuca de um dos policiais, que
caiu morto ao chão.
As pessoas chamaram mais policiais, chamaram
a televisão, gravaram com seus celulares, postaram no Facebook, no Instagram,
no Youtube e repassaram esses vídeos incansavelmente pelo Watsapp!
Os moleques ao final da confusão, foram presos
e encaminhados para a delegacia mais próxima, para depois serem encaminhados
para as instituições que cuidam de menores infratores.
Um jornal noticiou que a população havia
reagido aos policiais porque estava revoltada contra governo federal, outro
jornal disse que essa atitude era associada a segunda onda, agora de pobreza e
dificuldades financeiras, que estava chegando após a pandemia.
Pessoas, todas donas da razão, brigaram em
suas redes sociais dizendo que o presidente já havia dito que isso aconteceria,
outros compartilhavam o vídeo da prisão dos moleques dizendo que eles eram de
esquerda, de direita, armamentistas, revoltados, contra o governador, contra o
prefeito, contra o presidente, e que principalmente, o mais grave de tudo! Eles
estavam aglomerados e não estavam usando máscaras!
Hoje Zezé está preso. Deflorado, surrado,
usado, pisado. Considerado um maldito por ter matado um policial.
Na detenção para menores infratores ele sonha
com o dia em que vai sair, e que vai ver a luz do dia novamente.
Ele sonha em encontrar alguém que goste dele
tanto quanto Carol gostava. Ele sonha em ter outro filho. Sonha também com sua
irmã.
A saudade bateu em seu coração e ele deixando
cair mais uma lágrima em seu rosto, deseja que Marcia esteja em um lugar feliz,
com um homem bom ao seu lado.
Zezé sonha em um dia, ainda conhecer seu pai
e sua mãe.
Ele pede, não sabendo bem para quem, proteger
seus pais e seus amigos contra o tal chinês.
Seus hematomas doem, suas costas, suas
costelas, sua cabeça... Tudo dói, mas, mesmo assim ele sonha.
Afinal, ele é criança, e crianças sonham
acordadas antes de dormir.
Sonhos de criança com as fantasias de
criança.
Apesar de tantas feridas causadas pela sua
pequena vida, a maldade ainda não impera em seu coração, suas revoltas são
muito mais por instinto do que por maldade, pois mesmo com toda sua história, ele
não deixa de ser apenas uma criança de quatorze anos.
Uma criança que sorri enquanto sonha. Que
sonha com dias melhores.
E que quando consegue dormir, sonha com os
Anjos!


