terça-feira, 23 de abril de 2019

Saber amar


Gente tá meio grandinho, mas vale a pena ler! 






Cláudio acordou de um sono pesado, seu corpo inteiro doía, sua vista estava embaralhada, e seus sentidos pareciam estar desregulados.
Quando começou a recobrar a consciência ele firmou as vistas e observou ressabiado o lugar onde estava. À princípio ele julgou estar numa igreja. Notou que as janelas eram muito grandes, com vitrais coloridos. Cada uma delas era ladeada por colunas no estilo grego que pareciam segurar um teto muito, muito alto, tão alto que não dava para enxergar.
Cláudio coçou a cabeça sem entender o que estava acontecendo, quando ouviu uma voz, que vinha de uma pessoa, que parecia estar sentada em um trono, ou uma cadeira estilo Luiz XV talvez.
- Venha até aqui Cláudio.
“Esse cara me conhece? – pensou.”
- Conheço sim, eu sei tudo sobre você e sobre sua vida.
“Ele pode ouvir meus...”
- Pensamentos? – falou o homem precipitando-se em responder. – Posso! Até antes de você pensar!
Cláudio ficou de pé, e em passos lentos e cautelosos, se aproximou do homem. Quando chegou perto, suas vistas melhoraram e seus sentidos entraram nos eixos, por isso, ele pode ver, um homem que se parecia muito com o Jesus que ele sempre imaginava em pensamento, toda vez que orava.
- Je... Jesus?
- Sim, - respondeu um outro homem, que estava em pé, ao lado de Jesus, vestindo terno preto, camisa vermelha, com olhos esbugalhados, sorriso maroto e cavanhaque ruivo, - ele é Jesus e eu sou, como você costuma se referir a mim, o Capeta!
- Capeta! – falou Cláudio assustado, m... Mas o que vocês estão fazendo aqui juntos?
- Nós estamos aqui para julgar você! – respondeu o diabo. – Bem, - retificou – Ele vai te julgar, eu só vou apresentar seu histórico.
- Mas você? Apresentar meu histórico? Como assim? Você é o pai da mentira!
- Sim, - falou Jesus entrando na conversa – ele é o pai da mentira, mas também é o acusador! E mesmo eu te conhecendo, eu tenho que ouvir as acusações que pesam sobre você!
Cláudio fez cara de poucos amigos, mas em respeito ao que Jesus havia dito, franziu a testa e olhando para o diabo, esperou para ver o que ele tinha para apresentar de acusação.
- Eu tenho apenas uma acusação!
Cláudio sorriu e pensou: “Só uma acusação? Então está melhor do que eu imaginei.” – depois lembrando-se de que Jesus podia ouvir seus pensamentos, disfarçou e abaixou os olhos com vergonha, e pensou forçadamente: “Desculpe aí, Jesus...”
Minha acusação é simples – disse o diabo - eu não consegui encontrar uma pessoa, na Terra inteira, que você realmente amasse de verdade.
- Como? Você está louco Capeta! E meu filho?
- Seu menino ouviu a vida inteira que ele não te dava prazer porque ele não gostava de futebol.
- Uai! Futebol é coisa de pai pra filho!
- Mas ele não gostava e você não aceitava isso! Outra coisa, você achava estranho que com 18 anos ele ainda não tenha nenhuma namorada. Você implicava que ele ficava trancado no quarto lendo, você implicava que ele não cuidava do cachorro!
- Mas um homem tem que namorar! – respondeu Cláudio encolhendo os ombros. - Ficar trancado no quarto não é bom, porque pode dar depressão, e cuidar do cachorro é o mínimo que ele poderia fazer...
- Você implicava com o cabelo, com as roupas e com as músicas que ele gostava!
- Cabelo grande não é coisa de homem, roupa preta, camisa preta, calça preta é coisa sua! Olha aí a sua roupa! – disse Cláudio olhando para Jesus e apontando para o diabo. – E rock, a gente sabe que também é coisa sua!
O diabo então, sorriu, e olhando para Jesus, que acompanhava a tudo apenas observando falou:
- Não disse para o senhor? Ele não ama ninguém!
- Como não? – falou Cláudio ficando nervoso. – E a minha mulher? Vai falar que eu também não amava ela?
- Você implicava quando ela cozinhava escutando música, quando ela passava desinfetante com cheiro de lavanda na casa, quando ela dormia só de calcinha e quando ela colocava pimenta do reino na comida.
- Mas é lógico, - respondeu Cláudio abrindo os braços – vamos por partes: Cozinhar escutando som tira a concentração do serviço.
- Mas ela gostava.
- Desinfetante com cheiro de lavanda é terrível.
- Mas ela gostava.
- Dormir de calcinha não é legal, porque, porque, porque não é...
- Mas ela gostava.
- Pimenta do reino faz mal para os rins.
- Mas ela gostava!
- Mas eu não gostava e por isso explicava pra ela.
- Ah... Explicava mesmo, - disse o diabo com cara de dó – explicava sim... Da mesma forma que você não deixava ela trabalhar e não dava dinheiro pra ela comprar as roupas que queria, não dava dinheiro pra ela ir na academia, não dava dinheiro pra ela ir no salão de cabeleireiro... Né?
- Pra quê? Eu amava ela do jeito que ela era. Pra quê roupa nova todo mês?
- Toda década você quer dizer?
- Olha ele falando mentira! – disse Claudio voltando-se para Jesus, que não aguentou e começou a sorrir.
- Cláudio, - disse o Capeta se aproximando – eu quero a sua alma, porque você na verdade nunca amou ninguém no mundo! Você amava as pessoas do jeito que você queria que as pessoas fossem.
- Hã? Como assim?
- Você queria que seu filho fosse diferente, você nunca se interessou em saber o que ele achava disso. Você nunca tentou escutar as letras dos rocks que ele escutava, que para o seu governo eram em sua maioria música gospel. Você nunca perguntou porque ele não tinha namorada, você não percebeu que ele era muito tímido e inseguro, você nunca deu apoio pra ele, muito pelo contrário, você queria mudar ele, para que ele fosse do jeito que você queria que ele fosse!
- Mas, Jesus... – disse Cláudio em tom de súplica.
- Espere ele terminar, depois você fala.
- Obrigado Jesus, - falou o diabo continuando: - Você não amava a sua mulher do jeito que ela é, você queria que ela se enquadrasse na forma que você queria que ela fosse! Você não se perguntava se ela ficaria feliz com outro corte de cabelo, se ela ficaria feliz em escutar música enquanto cozinhava, se ela ficaria feliz em compra roupas novas de vez em quando, se ela ficaria feliz se você a respeitasse como ser humano, que tem vontades, desejos e direitos! Você não amava ela, você amava o protótipo de mulher que você imaginou na sua cabeça!
- Mas Jesus... – disse novamente olhando para o filho do Pai.
- Cláudio, eu acho que a coisa está pesando contra você...
- Mas Jesus, eu amo o senhor e te aceitei como meu único e suficiente salvador, por isso eu sou um salvo e não vou para o inferno!
- Mentira! –disse o Capeta. – Você aceitou o Jesus que você instituiu aí dentro da sua cabeça, que é um Jesus que tem que mandar sua sogra pro inferno, que tem que jogar um raio na cabeça de cada traficante, que tem que mandar um tsunami em todos os países muçulmanos, que tem que justificar as suas chatices com as pessoas, que tem que justificar as suas verdades e seu jeito sistemático, que tem que mandar um infarto no seu vizinho, que não pode salvar nenhum católico, nenhum espírita, nenhum índio, porque na sua opinião isto estaria fora da Bíblia, e você nunca aceitaria ver essas pessoas no céu! Você quer um Jesus que mande pro inferno quem gosta de rock, quem gosta de pagode, quem bebe meia cerveja, quem usa biquíni fio dental na praia, quem acende incenso mesmo que não seja por religião, enfim, você quer enquadrar até Jesus dentro dos seus padrões! Então meu amigo, você não aceitou Jesus coisa nenhuma...
Nesse momento, Jesus se levantou, e com olhar triste se dirigiu até Cláudio, enquanto uma voz dizia insistentemente: - Cláudio... Cláudio, Cláudio... Acorda Cláudio!
Ele acordou com um chacoalhão de sua esposa.
- Acorda Cláudio, você não ouviu o despertador? Você está atrasado para o serviço.
- Hã? Ser... Serviço? – falou sorrindo!
- É serviço! Está ficando bobo?
Cláudio respirou fundo, e pensou: “Ufa! Era só um sonho.”
Naquela manhã, Claudio deu o cartão de crédito para sua esposa, pediu pra ela gastar com ela, disse pra ela comprar umas roupas novas, disse pra ela entrar na academia e colocar o tempero que quiser na comida. Antes de sair pra trabalhar, foi até o quarto de seu filho, deu um beijo e um abraço nele, e pediu:
- Filho, me empresta aquele pen drive com aquelas músicas que você estava escutando ontem?
- Porque? O senhor vai jogar fora?
- Nunca filho, é um gosto seu e eu resolvi te respeitar e te amar do jeito que você é!
Cláudio fez a pazes com sua esposa, seu filho, disse o quanto os amava e saiu para o trabalho. Antes de sair, colocou o pen drive do menino no rádio do carro, e fazendo uma careta com os primeiros acordes da guitarra, pensou: “Eu amo esse menino de gosto ruim pra música, mas eu o amo, mesmo assim...”


terça-feira, 9 de abril de 2019

A salvação de Jonas







Jonas olhou a sua volta, tudo estava escuro, a lama cobria-lhe o joelho, a cada passo que tentava dar, se atolava mais e mais.
Jonas não via saída, o caminho estava difícil demais. O sol já não iluminava mais seu rosto, a floresta de galhos e espinhos era muito densa, as arvores encobriam o horizonte e Jonas não enxergava além de alguns metros à frente.
Ali, perdido dentro da vegetação, ele ouvia sussurros, risadas de escarnio e gritos. Parecia que falavam dele, mas não dava pra ter certeza, pois as vozes partiam de sombras, que ora apareciam por detrás das folhas e ora sumiam fazendo algazarra.
- Ei! - Gritou Jonas - vocês aí, me ajudem, estou perdido!
Não adiantava, a cada grito de Jonas, a cada pedido seu, as vozes se calavam e apenas olhos esbugalhados apareciam em meio ao breu. Esses olhos pareciam curiosos pra saber se Jonas iria sair da enrascada em que estava mas não pareciam querer ajudar.
Jonas, aflito, e com esforço sobre-humano, dava pequeninos passos, que vagarosamente o faziam prosseguir. Ele levantava uma perna da lama pegajosa, inclinava seu corpo pra frente e pisava mais adiante, depois repetia com a outra perna, e assim, tentava se desvencilhar desse pesadelo.
De vez em quando Jonas sentia que alguém segurava sua perna e lhe puxava pra baixo, parecia, para ele, que de vez em quando pessoas saiam das sombras e colocavam mais lama no meio do caminho.
Mas Jonas precisava vencer, Jonas precisava prosseguir, Jonas precisava respirar, Jonas precisava sair dessa situação.
Foi quando uma pessoa de aparência conhecida apareceu do outro lado do caminho.
- Olá! - falou Jonas. - Você não é a minha professora da quarta série?
A pessoa não respondeu, mas jogou um livro para Jonas, o livro se depositou no fundo da lama e Jonas pôde se apoiar nele.
De repente, mais pessoas apareceram ao lado do caminho. Todos pareciam conhecidos de Jonas, uns pareciam antigos professores, um parecia com o dono de uma livraria que ele sabia onde ficava, outro parecia o dono da banca de jornais, outro parecia seu pai! E uma mulher parecia sua mãe!
As vistas de Jonas ainda estavam embaçadas, por isso ele não tinha certeza da identidade dessas pessoas, pois no estado em que estava, ele via apenas silhuetas e imagens distorcidas. Essas pessoas em um gesto em conjunto, começaram a jogar livros e mais livros para Jonas.
Ele notou que essas pessoas, que hoje vinham lhe ajudar, eram as mesmas que no decorrer de sua vida, tentaram lhe aconselhar, mas ele não havia dado muita importância. Mesmo assim, as pessoas não desistiram dele e continuavam arremessando revistas, jornais e muitos livros.  
Jonas começou a usar esses livros como escada, subindo, subindo, saindo da lama, até que conseguiu sair do buraco em que estava e atingir terra firme!
Jonas saiu da lama, saiu da floresta de espinhos, caminhou até um lindo jardim e notou que o sol iluminou novamente o seu rosto! As cores da vida tornaram a aparecer.
Então, Jonas sorriu!

Amigos, eu tive uma conjuntivite muito forte e por isso me afastei da tela do computador. Ainda hoje estou vendo as letras um pouco embaçadas, e por isso me ausentei esses dias. Aos poucos vou visitar seus blogs.
Esse texto é uma republicação. Pra quem já conhece, pode ler novamente e relembrar, e pra quem não conhece, é uma chance de ler e pensar.
Um abraço a todos!





sábado, 9 de março de 2019

A ciranda







Pedro detesta novela que tem como personagem, algum casal homossexual, mas ele não perde um capítulo.
Manoel fala que o Brasil vai de mal a pior, e que esses políticos que estão aí são todos ladrões, mas a cada eleição, ele vota nas mesmas pessoas.
Barbara não gosta das baixarias que os participantes do Big Brother fazem, mas ela assiste, torce e às vezes até vota.
Claudete fala que sua vizinha é fofoqueira, e que ela detesta fofoca. Ela fala isso pra uma, pra duas, pra três, quatro, cinco... Vinte pessoas.
Juliano acha que nos atuais programas de humor tem muitas mulheres seminuas e indecorosas e que isso não faz bem para a sua família, mas ele assiste e dá muita risada com os comediantes e suas piadas repetidas.
Marcio fala que o que acaba com nosso país é a malandragem, mas ele tem uma antena pirata instalada em sua casa.
Andressa acha que nenhum homem presta. Vive dizendo que os homens são todos iguais, mas no último ano teve cinco namorados.
Paulo detesta seu serviço, fala mal de seus patrões pelas costas, tem o sonho de ter seu próprio negócio, mas trabalha no mesmo lugar a treze anos.
O pastor Lauro ensinou na igreja que o que está acabando com as famílias é a tecnologia, e que a internet é coisa do capeta, mas ele tem uma conta no Google, facebook, watsapp e um tablete de última geração.
Raul é racista, não gosta de negros e nem de nordestinos, mas Raul adora samba, dobradinha, forró, baião de dois, vatapá, carnaval e ler a sorte nos búzios de vez em quando.
Ana critica as prostitutas, mas trai seu marido.
João Alfredo brada em alto e bom som, que lugar de ladrão é na cadeia, mas ele vira seu hidrômetro todo mês, para roubar a companhia de agua e esgoto da cidade. 
Todo mundo tem uma reclamação sobre a forma que o mundo gira, mas infelizmente somos os primeiros a entrar na roda, somos os primeiros a entrar na ciranda. A ciranda da esperteza, a ciranda de Gerson, a ciranda do malandro, que leva vantagem sobre um e joga a culpa no sistema, no governo, na TV, no diabo e as vezes até em Deus.




sábado, 9 de fevereiro de 2019

A morte de Aristide Cozinha




Este é um conto que escrevi para uma coletânea aqui da minha cidade. Vocês vão notar que o conto é bem específico, centrado na cidade de Barretos, mas é uma história policial, que poderia se passar em qualquer lugar.
Pelo conto ser um pouco grande e pelo valor literário que dou nele, eu vou deixa-lo pelo menos um mês no foco do blogue. Por isso não vou postar mais nada nesse mês, mas vou visitar os blogues de vocês regularmente.
Leiam, comentem e principalmente divirtam-se!


A morte de Aristide Cozinha


O delegado Castilho desceu da viatura com cara de dor, colocando as mãos nas costas, andou com cuidado desviando das poças de barro até a porta do bar, onde mais um corpo foi encontrado.
- Alguém sabe quem é ele?
- Parece que é um tropeiro, doutor. – respondeu o soldado agachado do lado do corpo.
- Parece, ou é um tropeiro? – perguntou Castilho seco.
- É um tropeiro, - respondeu alguém no meio do pequeno aglomerado de pessoas que observavam a cena.
- O senhor é quem? – disse o delegado virando-se para o homem.
- Antônio Candido, senhor, - respondeu o homem olhando para o chão, e segurando seu chapéu na altura da cintura, como se temesse encarar o delegado.
- O senhor o conhecia, senhor Antônio Cândido?
- Sim senhor, - falou o homem ainda sem levantar a cabeça – ele era cozinheiro da nossa tropa. A gente trouxe uma boiada de Goiás na sexta feira, e já ia sair hoje de volta.
- De que cidade de Goiás vocês vieram?
- Itaberaí, senhor.
- De Itaberaí até Barretos tem chão hein companheiro? – falou o delegado colocando-se ao lado de Antônio e estendendo-lhe a mão para um cumprimento.
- Tem sim senhor, mas o patrão é o dotô Miguel Junquêra, que tem fazenda em Bebedouro e Olímpia, por isso a gente sempre vem com a boiada pra matar no frigorífico de Barretos.
- Certo, - falou o delegado arqueando a sobrancelha – quem era o chefe da sua tropa?
- O Zé Celso.
- Onde está esse Zé Celso agora? O senhor sabe?
- Ele ficou aqui no Café Goiano até de madrugada jogando baralho, e despois disse que ia dormir na casa da Matilde.
- Na zona? – falou Castilho sorrindo. – A Matilde da zona?
- Sim senhor.
- Você estava aqui no Café Goiano também?
- Sim senhor.
- E esse rapaz morto aqui, o cozinheiro, estava aqui com vocês também?
- Sim senhor.
- Como é o nome dele?
- Aristide, mas o pessoal da tropa chamava ele de Cozinha.
- Cozinha?
- É dotô, - disse o Antônio inquieto – ele era o cozinheiro, então o povo só chamava ele de Cozinha.
- Até que horas você ficou aqui no bar?
- Até bem tarde, despois também fui pra casa da Matilde.
- O Aristide estava fazendo o que, na hora que você foi embora?
- Estava jogando baralho em outra mesa.
- O senhor se lembra com quem ele jogava?
- Ah, dotô... – falou Antônio olhando pra cima como se estivesse vasculhando a memória. – Na mesa dele tinha um homem gordo, com um bigode bem grande e com chapéu de feltro branco, e uma mulher de vestido preto, que parecia japonesa, e mais um que não lembro.
- Tudo bem Antônio, - disse o delegado batendo com a mão espalmada nas costas do tropeiro – eu quero que o senhor fique na cidade por uns dias, pode ser?
- Tudo bem dotô, eu vou ficar na casa da Matilde, o senhor sabe onde é?
- Sei... Todo mundo na cidade sabe onde fica a Matilde, a Dinorá, a Marlene, pode ficar tranquilo que eu te acho se precisar de você.
Dizendo isso, o delegado Castilho olhou mais uma vez para o corpo no chão, e enrugando a testa, disse ao seu subordinado:
- Gilmar, ele tem marca de tiros?
- Não doutor, nada de tiro e nem perfuração de faca.
- Ele tem dinheiro nos bolsos? A carteira dele está aí?
- A carteira está senhor, mas está vazia, nada de dinheiro.
- O corpo dele tem algum hematoma visível? Sinal de briga?
- Não doutor, - respondeu Gilmar reparando melhor no cadáver – nenhum de sinal de luta corporal.
- Então passa o rádio pra ambulância vir buscar esse cadáver. Quero que o levem pra Santa Casa, e quero que o doutor Figueiredo analise o corpo, pra saber se ele também foi envenenado como os outros.

*****

  Em menos de três meses, cinco corpos de tropeiros envenenados foram encontrados em Barretos. O corpo de Aristide Cozinha era o sexto corpo, mas diferentemente dos outros, que foram encontrados em caminhos desertos e corredores boiadeiros, sem testemunhas e sem história, dessa vez, o corpo foi encontrado em frente a um bar, onde algumas possíveis testemunhas poderiam dar alguma pista útil à investigação.
O delegado Castilho entrou na viatura, e seguiu até a casa de Jorge Mauro, que pela descrição do tropeiro se encaixava bem na figura do gordo, bigodudo de chapéu de feltro branco. Em sua cabeça, o delegado achou melhor começar a investigação por ali, porque Jorge era um cidadão querido na cidade, e até que se prove o contrário, um homem de bem.
- Bom dia doutor Castilho. – disse o homem gordo e bigodudo vindo atender o portão.
- Bom dia Jorge!
- Mas a que devo essa visita as nove da manhã do domingo?
- O senhor estava nesta madrugada no Café Goiano, não estava?
- Estava sim, - disse Jorge fazendo cara de desentendido – porquê?
- Um homem que estava jogando cartas com você ontem foi encontrado morto na calçada bem em frente ao Café.
- Quem? O Mário eletricista?
- Não, - disse o delegado já descobrindo quem era o quarto integrante da mesa no bar – não foi o Mário, foi um tropeiro.
- O Cozinha? – falou Jorge arregalando os olhos.
- Ele mesmo. Você se assustou porquê? Conhecia ele?
- Ele já veio várias vezes de Goiás para Barretos trazer boiada pra matar no Anglo. Sempre que vinha a gente jogava cartas no Café Goiano. Ele era um rapaz muito bacana, mas muito ruim com as cartas, coitado, sempre perdia todo o dinheiro que ganhava, ali na mesa do bar. Geralmente ele ia embora sem um puto no bolso, mas ontem não sei por qual milagre, ele limpou todo mundo.
- Ah... E ele ganhou muito dinheiro?
- Uma bolada! Dinheiro pra ficar três meses quietinho lá na terra dele, sem ter que viajar com a tropa pra lugar nenhum.
- Alguém viu o dinheiro que ele ganhou?
- Só eu, o Mário eletricista e a Suzana Yoda, porque nós fomos os últimos a sair do bar.
- Que horas eram?
- Quatro e meia, mais ou menos.
- Essa Suzana Yoda, - falou o delegado já abrindo a porta do fusca preto e branco, que era a mais nova viatura da cidade – eu já vi essa mulher várias vezes no Café Goiano, de onde ela apareceu?
- Quem conhece ela bem é o Nestor, dono do bar, mas pelo que eu saiba, ela veio do Rio de Janeiro, parece que trabalhava em um bordel lá, mas não era prostituta não. O Nestor um dia apareceu com essa mulher aqui e disse que ela iria ajudar no bar.
- Ajudar como?
- Ela sabe fazer uns drinks muito bons, as receitas são de lugares chiques lá do Rio de Janeiro, e tem gente que fala que alguns desses drinks são bebidas tradicionais nos Estados Unidos e na França, ela faz esse drinks para alguns clientes lá no bar, mas eu nunca tomei nenhum, porque custam muito caro.
O delegado Castilho sabia que o Café Goiano era um ponto de encontro de peões que traziam gado para o frigorífico, de jogadores inveterados, de fazendeiros e também de comerciantes da cidade, que na calada da noite sempre apareciam por ali procurando algum tipo de diversão. Apesar da fama perigosa, o lugar tinha essa clientela variada, e alguns drinks caros poderiam ser muito vendáveis mesmo, pensou Castilho se despedindo de Jorge apenas com um aceno de cabeça e entrando na viatura fazendo careta de dor.
“- Essa viaturinha, pra um homem do meu tamanho, com dois metros e três, é muita maldade pra uma pessoa só, - pensou o delegado saindo para conversar com Nestor – qualquer dia vou mudar de viatura e pegar a Veraneio velha, porque minhas costas não aguentam mais esse fusca.”

*****

A “viaturinha” encostou à porta do Café Goiano, que agora as dez da manhã, já estava de portas abertas. Antes de entrar, o delegado olhou novamente a calçada, examinando o lugar onde o corpo de Aristide foi encontrado, e sem notar nada que servisse de pista, entrou no bar dirigindo-se até o balcão.
- Oi Nestor, bom dia!
- Oi delegado, - respondeu o homem ruivo detrás do balcão, onde abastecia a geladeira com cerveja, sem levantar os olhos e nem dar muita bola para a autoridade – imagino que o senhor esteja aqui por causa do corpo do tropeiro que encontraram aqui na porta hoje.
- Isso mesmo.
- Olha, - falou Nestor continuando seu serviço – como eu já sei que o senhor vai perguntar, já vou logo te dizendo que a hora que eu fechei o bar, ele foi o último a sair, e eu não vi ninguém na rua, que por sinal estava um breu.
- Ele estava normal?
- Se ele estava bêbado o senhor quer saber?
- Não, quero saber se queixou de alguma coisa, alguma indisposição.
- Como assim? – disse Nestor se levantando e encarando o delegado. – Eu não estou entendendo.
- Ele morreu sem marca de faca ou bala de revólver, e eu estou achando que ele foi envenenado como os outros cinco cadáveres que encontramos esses dias.
- Nossa... Coitado! Será?
- O doutor Figueiredo está examinando o corpo e vai me falar daqui um pouco o que descobriu.
Nestor colocou as duas mãos na cintura, suspirando como se estivesse cansado de colocar cerveja na geladeira, e com um sorriso sínico de canto de boca falou:
- Esse negócio de gente envenenada está estranho, o senhor não acha? Antigamente o povo só morria de tiro, facada, paulada, mas envenenado é uma modalidade nova pra morrer.
- Não entendi esse seu cinismo, - retrucou o delegado – o senhor tem alguma coisa pra me falar?
- Tenho, - respondeu o dono do bar saindo de trás do balcão e caminhando até o delegado, para depois olhar fixamente olho no olho de Castilho e falar – o senhor veio até aqui procurando alguma pista sobre a morte desse rapaz, tudo bem, porque ele foi encontrado aqui na frente, mas todo mundo que morre nessa cidade, o senhor sempre vem me aborrecer.
- Infelizmente só estão morrendo peões e tropeiros, e o ponto de encontro deles é aqui no seu bar, eu não posso fazer nada.
- Mas pelo que me consta, as pessoas estão morrendo em várias partes da cidade, e eu acho que nesses três meses desde que o primeiro corpo apareceu, o senhor não fez progresso nenhum na investigação, e em todas as vezes, o senhor apareceu aqui, como se suspeitasse de algo.
- É verdade Nestor, os outros corpos foram encontrados abandonados na beira de estradas e em locais remotos, mas eu tive que vir aqui, porque como eu disse aqui é o lugar de encontro desse pessoal, mas o Aristide é diferente, pois como você mesmo disse, ele foi o último a sair do seu bar, e pelo que apurei ele ganhou muito dinheiro no carteado ontem.
- Ah, ganhou? – falou Nestor espantado. – Ele sempre perde até as calças.
- Ele ganhou ontem, e pelo que consta, ele estava jogando com o Mario eletricista, o Jorge e uma funcionária sua, Suzana Yoda. E sabe mais? O dinheiro que ele ganhou no carteado foi roubado, então isso transforma esse caso, de uma simples morte, para um latrocínio.
- Bom, - respondeu o rapaz ruivo com um novo sorriso – agora sim parece que o senhor está tendo algum resultado na investigação.
- Essa tal Suzana Yoda, - falou doutor Castilho ser dar atenção para as provocações de Nestor – ela é sua funcionária?
- Ela é uma mulher muito especial que eu contratei lá do Rio de Janeiro, ela fica de dia na casa da Iolanda, e a noite faz uns drinks aqui pra mim, mas não é funcionária. Ela apenas faz uns bicos, porque esses drinks caros saem muito pouco.
- Ela fica na casa da Iolanda na zona? Ela é prostituta?
- Não doutor, - respondeu o sorridente Nestor – ela faz massagem e acupuntura.
- Massagem e acupuntura, na casa da Iolanda, que é uma casa que só recebe peão de trecho e tropeiro?
- Recebia, - retrucou Nestor – agora com os serviços da Suzana, a clientela da Yolanda está melhorando.
- Você sabe se numa hora dessas eu encontro essa Suzana lá?
- Acho que sim delegado.
- Então eu vou lá conversar com ela, e, enquanto isso, você vai pensando em alguma coisa que possa ter acontecido por aqui ontem, em alguma atitude suspeita, qualquer coisa.


*****

O delegado Castilho, com cara de poucos amigos, chegou até a Santa Casa de Barretos e foi direto até a sala do doutor Figueiredo.
- Doutor, tudo bem? – disse batendo à porta.
- Olá Castilho, entre por favor, e sente-se aqui. – respondeu o médico apontando uma cadeira à sua frente.
- E aí? - disse o delegado indo direto ao assunto. – O que deu no exame do cadáver?
- Envenenamento mais uma vez.
- O senhor tem certeza? – falou Castilho colocando a mão nas costas.
- Tenho certeza porque o corpo tinha as mesmas características, o fígado estava preto, seco, como se estivesse sido carbonizado, e os olhos não tinham a parte branca, só tinham a íris e o resto era vermelho por causa de um derrame, igualzinho os outros cinco corpos.
- Meu Deus, - falou o delegado em meio a um suspiro – mais um pra coleção!
- O senhor está com uma cara de dor? O que foi?
- Esse fusquinha que me arrumaram para viatura particular.
- Ele é novinho, o senhor não gostou?
- Esse tipo de carro é bom pra anão, doutor... Não pra um cara do meu tamanho. Minhas costas estão me matando!
- O senhor quer tomar uma injeção de analgésico? É tirar com a mão.
- Agora não doutor, - falou o delegado já se retirando da sala – analgésico me dá o maior sono e o serviço só está começando.

*****

A zona do baixo meretrício era um local movimentado na cidade, meninos sendo inaugurados, as vezes levados ali pelos próprios pais ou irmãos mais velhos, homens casados, homens solteiros, forasteiros, tropeiros, malandros e cafetões, faziam parte dos dias daquele lugar.
As prostitutas trabalhavam em casas que ao olhar desatento parecia uma casa normal, mas com um pouco mais de atenção, se reparava que na calçada ou alpendre de cada uma dessas casas, sempre estavam duas ou três meninas, com roupas provocantes sentadas à espera de alguém.
Geralmente essas casas eram gerenciadas por uma prostituta mais velha, que agenciava as mais novas, apresentando-lhes clientes e garantindo estadia e alimento. As prostitutas pagavam por esse serviço, com uma porcentagem pelos seus programas, que variavam de vinte a trinta e cinco por cento.
Castilho estacionou em frente à casa de Iolanda, uma das casas de prostituição mais antigas de Barretos, e entrou sem cumprimentar as meninas que estavam sentadas na calçada.
- Nossa delegado! – disse uma delas. – que cara feia! Não conhece mais a gente não?
O delegado chegou até a sala da casa, e logo viu sentada num sofá com estampa de pele de onça, a senhora de traços finos, cabelo ruivo, vestido elegante e olhar provocativo.
- Oi Iolanda, tudo bem?
- Castilho! Mas a que devo uma visita tão ilustre?
- Eu quero falar com uma de suas meninas.
- Uma de minhas meninas? – falou Iolanda com cara de malícia. - Você quer tirar o atraso?
- Não Iolanda, - respondeu o delegado sorrindo – eu só quero conversar com a Suzana Yoda.
- Ah, me desculpe delegado, mas ela não faz programa, ela só faz massagem e acupuntura.
- Bem que uma massagem nas minhas costas seria uma boa, - disse o delegado com cara de dor – mas no momento eu estou em serviço.
- Ah, - retrucou a linda velhinha – mas as mãos da Suzana fazem mágica, tenho certeza que ela concertaria suas costas em um minuto.
- Eu acredito, mas no momento eu não poss...
- O senhor quer falar comigo? – disse abruptamente uma linda mulher de traços orientais, bem vestida com um elegante vestido negro, entrando pela sala e na conversa ao mesmo tempo.
- Suzana Yoda? – disse o delegado.
- Sim senhor, em que eu posso te ajudar?
- Acho que com uma massagem, - falou Iolanda se antecipando a resposta de Castilho.
- Agora não, - falou o delegado sorrindo encabulado – eu já disse que estou em serviço.
- Quê isso delegado, - falou a mulher oriental, chegando perto do delegado e deixando seu perfume chegar até o homem da lei – enquanto a gente conversa eu faço uma massagem no senhor, que está mesmo com um semblante muito tenso.
- É o carro que me deram pra dirigir, - explicou o delegado outra vez – ele acabou com as minhas costas.
- Então venha até aqui! – disse Suzana puxando Castilho pela mão. – Enquanto a gente conversa eu vou te ajudar nessas costas.
O delegado, como que hipnotizado pela beleza da mulher e pelo cheiro de seu perfume, sem conseguir resistir, entrou em um quarto decorado com quadros orientais, bambus em arranjos dentro de vasos espalhados pelo cômodo, que no meio, tinha uma espécie de maca forrada com um tecido vermelho parecido com veludo, e logo acima, algumas luminárias japonesas, davam um tom exótico ao local.
- Tire a camisa e deite-se aqui de barriga para baixo. - ordenou a moça com voz firme.
O delegado que já tinha entrado no clima da massagem, deitou-se de barriga para baixo e tentou relaxar.
- O que o senhor quer falar comigo, - falou a moça umedecendo as mãos com óleo de amêndoas – a gente nunca trocou nenhuma palavra antes.
- Eu sei, - respondeu o delegado sentindo as mãos delicadas da moça que começaram a lhe massagear as costas – mas o negócio é que um rapaz que estava jogando cartas até hoje de madrugada com você, morreu envenenado na porta do Café Goiano.
- Ah é? – disse a moça em tom de espanto. – Envenenado? Como assim?
- Não sei, mas várias pessoas, todos tropeiros estão morrendo envenenados na cidade, já foram seis.
- Meu Deus!
- Então, - continuou o delegado – esse moço de hoje, se chama Aristide, mas todos o chamavam de Cozinha, porque era o cozinheiro da tropa. Ele foi morto e roubado.
- Morto e roubado?
- Sim, - respondeu o delegado já sentindo melhora nas costas - eu sei que ele rapou o dinheiro de todos vocês ontem no jogo de cartas, mas hoje na hora que o encontraram, ele não tinha nada na carteira e nem no bolso.
- Coitado, - falou Suzana aplicando um pouco mais de força em um musculo encavalado nas costas do delegado que gemeu de dor – mas como vocês chegaram à conclusão de que ele foi envenenado? Quem fez o teste?
- O doutor Figueiredo fez o teste nos outros cinco corpos, e disse que as características do corpo do Aristide era igual: fígado preto e olhos com derrame.
- Meu Deus! – falou Suzana mais uma vez.
- Nossa que massagem boa!
- Que bom que está gostando! Mas agora eu vou dar umas picadinhas de acupuntura no senhor, porque suas costas estão péssimas.
- Eu não sei se acredito nisso. – questionou Castilho querendo se levantar.
- Calma, - falou a moça contendo o delegado – deite-se aí, não vai doer nada.
- Tá bom, vamos ver se isso ajuda mesmo. – respondeu o delegado dando um tranco quando a primeira agulha entrou queimando em sua pele.
- Que pulo foi esse? – falou a acupunturista sorrindo. – Doeu?
- Não só queimou um pouco!
- Não seja mole delegado, - caçoou Suzana – já fiz acupuntura em várias crianças e elas não deram um pulo desses.
- É que eu nunca fiz isso antes, sou um bruto minha filha!
- Hahahahaha, mas os brutos é que não deviam dar um pulo desses!
- Há controvérsias...
- Pronto, - disse a moça dando um tapinha no ombro do delegado – pode se levantar.
O delegado sentou-se na maca, com as costas novinhas em folha, olhou para um lado, olhou para o outro, mexeu o pescoço e com cara de feliz, disse para a moça oriental.
- Eu queria que você fosse até a delegacia hoje à tarde para eu poder pegar seu depoimento direito, porque aqui não deu certo.
- Porque não deu certo? Nós fizemos um bom serviço aqui.
- Você fez, mas eu não. – retrucou o delegado. – Eu tenho algumas perguntas pra te fazer, mas acho que é melhor fazer depois.
Dizendo essas palavras, o delegado Castilho saiu do quarto de massagem, passou pela sala feito um zumbi sem se despedir de Iolanda, e caminhou até o fusca.
Zonzo, o delegado sentou ao volante, e dirigiu por algumas quadras, até que sentiu uma forte dor no peito. Tentando respirar, mas com muito ar faltando, o delegado estacionou, e notou que alguém abriu a porta da viatura do lado do passageiro.
- Oi delegado, - disse a voz conhecida do Nestor, dono do Café Goiano – o senhor conheceu os serviços maravilhosos da Suzana?
Sem conseguir falar, e ainda com falta de ar, o delegado se virou para Nestor, que sorrindo continuou:
- Os tropeiros gastam dinheiro na cidade, porque eles trazem a boiada, recebem no frigorífico e ficam por aqui uns dias, gastando com as prostitutas, e nos bares de Barretos. Mas alguns deles, ficam hospedados em casas na zona, transando com as prostitutas, e depois de dias, quando chega a hora de ir embora, não tem dinheiro para pagar, porque perderam tudo em jogatinas, e cachaça. Alguns são honestos, e da próxima vez que vem até a cidade vão até a zona quitar as suas dívidas, mas outros não, eles voltam na cidade mas ficam hospedados em outra casa na zona, e assim, aplicam o mesmo golpe.
Castilho arregalando os olhos, tentou pedir socorro para Nestor que ainda sorrindo, continuou:
- Eu não sei se o senhor já tinha notado, mas pelo meu cabelo ruivo e cara fina, bem que poderia notar que eu sou filho da Iolanda. Minha mãe cansou de tomar calotes desses tropeiros, e por isso eu fui buscar a Suzana Yoda, que é mestre em manipular veneno em drinks, em porções e em agulhas de acupuntura. Eu só estou te dizendo isso, porque acho que você merecia saber que estava no caminho certo das suas investigações antes de morrer. O senhor estava certo em ir me importunar lá no meu bar, e suspeitar que alguma coisa errada acontecia ali.
Nestor abriu a porta da “viaturinha”, e dando a volta até o lado do motorista, sorriu para o delegado, que desesperado, puxava o ar e começava a babar pelo canto da boca.
- A gente não poderia deixar que o senhor descobrisse a nossa cobradora de dívidas, não é verdade? Me perdoe delegado, mas eu garanto que o senhor vai embora sem sofrer, nesse momento seu fígado deve estar em frangalhos e pela cor dos seus olhos, já chegou a sua hora. No fundo, apesar de nossas brigas, eu até tinha simpatia pelo senhor... Vai em paz!
Dizendo isso, o ruivo Nestor, virou as costas para o delegado e caminhando apressado, subiu a rua dezoito, no sentido da Catedral, até sumir no horizonte, enquanto para o delegado, que já não lutava mais para procurar ar, conformando-se com seu final, o mundo foi escurecendo, escurecendo, escurecendo... Escureceu!