sábado, 15 de julho de 2017

Que som corre em suas veias?




Em 1988 eu me mudei de São Paulo para Barretos. Muitas coisas mudaram na minha vida, além dessa mudança de cidade.
Os meninos da capital não são criados tão soltos pela vida, como os meninos do interior. Eu que achava que viria para uma cidade pacata do interior, descobri que as emoções aqui, andam muito mais aceleradas que na capital. Aqui os meninos namoram mais, as meninas namoram mais e a noite é mais longa nos finais de semana.
Eu poderia falar de inúmeros acontecimentos e aventuras aqui nesse texto e em outros tantos, mas hoje eu quero tratar de uma coisa que não mudou dentro de mim... A música!
Eu fico me interrogando, se são nos primeiros anos de vida que uma força externa e imutável, determina qual tipo de música que a gente vai gostar pelo resto de nossos dias. Eu, sinceramente, acho que sim.
Nos anos 80, na cidade de São Paulo, o rock era a moda. Bandas de punk rock, new wave, rock nacional, blues e rock de garagem, era o que fazia parte das minhas ideias. Baixo, guitarra e bateria, pra mim, é a melhor combinação de qualquer coisa que o homem tenha inventado nesse mundo, desde que Adão foi expulso do paraíso.
Em Barretos, no começo, foi difícil pra mim. Aqui as pessoas adoram a música sertaneja, e isso está enraizado no povo daqui, demorou mais de ano, pra que eu encontrasse algumas pessoas, que assim como eu, tinha rock nas ideias. Aos poucos nós organizamos encontros de bandas de rock, organizamos alguns bares que tocavam rock e nos tornamos os diferentes da molecada.
O jeito de pensar, o jeito de falar, o jeito de vestir, os roqueiros no interior, são mais diferentes para a sociedade, do que os roqueiros da capital. Mas graças a Deus, essa diferença não fez de mim um rejeitado, ou deixado de lado pelas pessoas, porque, logo cedo eu percebi, que não dava pra competir com a cultura do lugar, não dava para impor meu gosto pessoal, em meio a uma multidão de gosto desigual.
Tem gente que se prende dentro de uma cápsula, onde só o mundo dele é importante, e só seus gostos são importantes, e por isso, ficam isolados de tudo e de todos... Eu aprendi a me divertir com as pessoas daqui, fiz vários amigos que detestam minhas músicas, mas que tirando isso, convivem muito bem comigo. Esse é o segredo! Aceitar que nem todo mundo é igual a gente, e respeitar o gosto pessoal dos outros, mesmo que os outros não respeitem o seu, assim, com o tempo, as pessoas vão começar a te entender, e o respeito por você virá naturalmente.
Hoje, eu ainda escuto o que eu gosto, tenho amigos roqueiros dos anos 80, e musicalmente vivo minha vida à parte da grande massa.
Minha cabeça e meus pensamentos ainda funcionam ao som do rock e blues, e parece que isso vai me acompanhar até o fim dos meus dias, é como a letra da música que está no clipe abaixo: Um DJ invisível, que fica dentro das moleiras da gente, discotecando e colocando um som agradável, talvez não à todos, mas pelo menos, pra gente, o DJ é bom, e ajuda a passar os dias mais felizes.








terça-feira, 11 de julho de 2017

Vida perfeita






Rodolfo Siqueira estudava dia após dia para passar na OAB, ele queria muito isso, e todos os dias saia do trabalho de caixa no banco, e mergulhava nos livros.
Zé Siqueira, estudava todos os dias um jeito de ser mais feliz e viver a vida. Todos os dias ele saia do trabalho de servente de pedreiro e passava no bar pra bater papo com os amigos.
Rodolfo Siqueira depois de três anos estudando, fazendo cursinho, se abstendo de festas, namoros, bebidas e amigos, finalmente passou e agora exige que o chamem de “doutor” Rodolfo Siqueira.
Zé Siqueira depois de três anos de diversão em todos os bailes, forrós, pagodes, churrascos e festas possíveis, resolveu namorar sério com Judite, se casou, teve um filhinho e agora exige que o chame de papai.
Doutor Rodolfo Siqueira estudava dia após dia para passar no mestrado e depois no doutorado e depois no MBA. Ainda não tinha vida social, mas se vestia bem, tinha um bom carro, escritório e por isso chamava atenção de algumas mulheres.
Zé Siqueira ainda estudava um jeito de ser feliz, mas agora ele queria que Judite e Zézinho Siqueira, também fossem felizes junto com ele. Vivia fazendo festa em casa, churrasco com os amigos, saia com a esposa quando a sogra podia tomar conta do Zézinho, e apesar da vida dura no serviço, ele conseguia se divertir muito.
Rodolfo, ops! Doutor Rodolfo Siqueira, se casou com uma linda mulher, que se vestia muito bem, que era super educada, bem relacionada, que fazia exercícios e dietas regularmente, que gostava de ir ao cabeleireiro, manicure, massagista, cineminha com as amigas, cafezinho com as amigas, loja de roupas, de bolsas, de carros e de escolher empregadas. Tinha uma para lavar a roupa, outra para arrumar a casa, outra para fazer comida, um rapaz para dirigir seu carro e outro para fazer a jardinagem da casa.
Judite gostava de estar perto de Zé Siqueira, seu marido tomava uns gorós e dava trabalho de vez em quando, mas ela achava muita graça, e sempre tinha uma boa história pra contar. Ela pintava seu cabelo, fazia sua unha, trabalhava de diarista, lavava a roupa de sua família, fazia comida e adorava deixar a janta prontinha para a hora que Zé Siqueira chegasse à noite. Ela andava muito de bicicleta, o que a ajudava a manter a forma, e adorava cuidar se suas plantas no fundo do quintal e de ter uma pequena horta de temperos, plantada em potes de margarina.
O doutor Rodolfo Siqueira morreu com o sentimento de dever cumprido. Estudou, se formou, montou escritório, chegou a ser promotor, construiu uma bela casa, casou-se com uma linda mulher, teve um filho que não viu crescer, mas pagou escola, caratê, judô, natação, vídeo game, celular e psicólogo pra ele. Quando morreu, sua esposa esperou um ano de luto e se casou com outro doutor, que somou seus bens aos bens que doutor Rodolfo Siqueira havia deixado.
Zé Siqueira morreu feliz! Ele queria ser feliz a vida toda mesmo. Deixou para a esposa uma casa na COHAB, mas que era bem cuidada e até bonitinha. Deixou um fusca vermelho, e uma TV de 28 polegadas. Seu filho o acompanhou desde pequeno para as obras onde trabalhava, para as pescarias que fazia com seu compadre João Magrelo, para o futebol que jogava nos finais de semana, para as festas que sempre arrumava todo final de semana e por isso os dois se tornaram os melhores amigos um do outro.
Zé morreu e sua esposa Judite nunca mais se casou. Até teve uns namoricos, mas ela achava que o melhor homem do mundo havia sido Zé Siqueira, e por isso ele seria insubstituível em sua vida.
No dia do enterro do doutor Rodolfo Siqueira, a viúva estava dura, centrada, de cara séria, mas aguentando a dor, e seu filho dizia a todos: - Meu pai morreu e a gente nem se conhecia direito.
No dia do enterro de Zé Siqueira, a viúva Judite deu o maior escândalo, desmaiou, teve se ser socorrida pelo SAMU, e tomar remédio de pressão. Zézinho estava inconsolável, chorando copiosamente ao lado do caixão.
Os amigos do Zé contavam piada e diziam como ele era um cara bacana, e que certamente faria uma falta danada.
Os dois viveram... Certamente se realizaram de maneiras diferentes. Talvez uma mistura dos dois seria uma vida perfeita, mas no caso dessa mistura não poder ser feita, acho que o Zé sofreu mais e sorriu mais que o doutor.
Hoje o filho do doutor Rodolfo Siqueira é conhecido como doutor fulano de tal, e o filho do Zé Siqueira, que na verdade se chama Paulo, é conhecido como Zézinho Siqueira, filho do amigo que faz uma falta danada.