sábado, 7 de julho de 2012

O andarilho





Eu tenho algumas estórias boas com andarilhos. Eu gosto de observar e se der até conversar com eles porque alguns tem uma vida rica em acontecimentos mesmo perdidos com suas loucuras e maluquices.
Uma vez eu comprei um cartão pra dar de presente a uma menina que eu namorava, eu fui no bar que fica lado do meu serviço, com o cartão na mão e estava pensando no que eu poderia escrever, quando entrou no bar um desses andarilhos. 
O cara estava bem fidido, com a pele cor de sujeira de asfalto, com o cabelo tipo Bob Marley, vestindo uma jaqueta de exercito toda cheia de desenhos feitos com caneta bic, tipo umas carinhas do Che Guevara, outras do Raul Seixas e uns embleminhas de "não nazismo", com uma suástica cortada. Ele também tinha uns trinta colares feitos com aquelas travinhas de latinhas de cerveja. Parecia um personagem de estórias em quadrinhos. 
Ele entrou, ficou bem no meio do bar e começou a falar em voz alta: - Eu sou fruto desse sistema falido! Porque o homem é produto do meio! Desgraçada... Eu prefiro ser essa metamorfose ambulante do que ter aquela velha apinião... Vagabuuunnnda!!! Achei que as urnas iriam me salvar dessa vez, mas olha o preço que está a pinga!
Então ele olhou pra mim de cima embaixo e falou: - Gordinho, deixa eu escrever nesse cartão pra você?
- Tá maluco? - Eu falei sem acreditar no que estava ouvindo. - Esse cartão custa dinheiro...
- Eu tenho dinheiro - falou ele enfiando a mão no bolso e tirando uma bolota de notas amassadas - se eu estragar o cartão o dinheiro é seu, se ficar bonito você me paga uma pinga!
- Ah então tá bom. - Falei entregando o cartão pra ele.
Ele se apoiou no balcão perguntou o nome da menina que eu namorava, então se virou meio escondendo o que iria fazer e me falou: - Vaza gordinho, seu curioso, depois você vê quando estiver pronto.
Eu fiquei olhando de longe e o cara tirou uma caneta que estava presa na orelha e começou a fazer uns rabiscos no cartão e eu pensei: "Caramba agora vou ter que ir na papelaria comprar outro cartão!" 
Depois de alguns minutos, e muitos rabiscos, ele entregou o cartão pra mim.
Eu não acreditei! O Andarilho escreveu o nome da menina na vertical em letras góticas tipo aquelas de diploma e em cada linha escreveu  um verso de um poema... Puxa! Como ficou legal isso!
Eu falei então pro dono do bar sorrindo contente: 
- Pode dar a pinga dele seu Realino. Melhor, pode dar duas pingas!
- Me coloca num copo descartável por favor - falou o andarilho.
Ele pegou a pinga molhou a garganta e falou pra mim: 
- Foi bom negociar com você gordinho, mas toma cuidado que mulher é coisa do capeta! - Então ele saiu cantarolando  "eu prefiro seeerrr essa metamorfóse ambulante..."  
Eu nunca mais o ví!
Essa foi uma lição que aprendi na vida, não olhar para as pessoas com os olhos críticos do preconceito, porque a gente pode ser surpreendio.
Esse andarilho deve estar andando por aí com suas idéias malucas, com seus "Rauls" na cabeça, e escondendo uma pessoa culta, que sabe escrever em letras góticas, que certamente estudou, e que talvez por uma decepção amorosa foi viver num mundo só seu... Um mundo particular, onde nada é o que parece ser!

Amigos! Essa é mais uma re-postagem de um texto que gosto muito.

33 comentários:

  1. Texto maravilhoso,linda lição! Quantos preconceitos temos por vezes,não?

    Lindo!!abração,chica

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    1. Uma lição realmente Chiquinha!

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  2. Olá, amigo André!
    Dizem "que quem ver cara não ver coração" nem "se julga um livro pela capa".
    Conheço muitos deses que sabem até uma língua estrangeira. Esse aí tem o senso crítico melhor que muitos ditos mais sociáveis.
    Seus textos sempre nos brindam com boas reflexões.

    Abraços!

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  3. Sempre acreditei que cada ser que olhamos tem uma estória de vida jamais imaginada, de forma correta, por nós. Daí a necessidade do respeito. Bjs.

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    1. Respeito sempre! Você sabe das coisas Mary!

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  4. ótima história!!!

    mas eu pensei que a lição que você tinha aprendido era que mulher é coisa do capeta...kkkkkkkkkkkk

    abração e bom domingão

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    1. Hahahahahahahhahaha não conta pra ninguém Edu!

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  5. Morei numa cidade chamada Lagoa da Prata que tinha um homem mais ou menos assim.
    Ele vivia pelas ruas tagarelando sozinho, brigando com as crianças que o implicavam e também todo sujinho.
    Mas na verdade era era muito "letrado", sabia inglês, francês, alemão, fiquei sabendo que ele era uma sumidade em física, e muito bom na matemática... enfim...
    Não sei pq ele resolveu largar a casa dos pais e vadiar pelas ruas, mas se que quem se sentava com ele de boa pra conversar sempre saia mais inteligente, ele era cativante.
    Preconceito é uma coisa pavorosa.
    É certo que nos dias de hoje é complicado vc sair se sentando com mendigos e supostos pedintes pra trocar uma prosa mais inteligente, não sabemos o que se pode acontecer, mas em todo caso se alguém chega perto querendo conversar pq negar só pelo fato dessa pessoa não estar vestida nos padrões da moda, ou não ter um corte de cabelo adequado( se é que devemos seguir adequação pra essas coisas...rs), ou ser gorda ou magrela, preta ou amarela...
    Lindo texto.
    Viviane
    Razão e Resenhas

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    1. As decepções da vida fazem as pessoas se perderem as vezes...
      Obrigado por aparecer Ví!

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  6. Uma grande lição André.
    Realmente podemos ser surpreendidos.

    Um abraço

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    1. Verdade Nilson! Obrigado por comentar!

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  7. Essas pessoas me interessam bastante também.
    Uma vez eu estava num ponto de ônibus vestido, digamos, criativamente, com um cabelão enorme e tal, daí um cara negro de camisa branquinha e colar de prata se aproximou de mim e cantou no meu ouvido uma música.
    Depois ele se foi, recebendo um sorriso meu..
    Nunca vou saber que música era, mas não importa.
    Nunca vou esquecer dele.

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    1. Alfumas cenas marcam mesmo a nossa história de vida né Rebel?

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  8. hauhsauhs.........bem assim.........

    Abçs

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  9. É... podemos ser surpreendidos e às vezes ser surpeendido é bom. (:

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    1. Hehehehhehehehehhehe falou a sábia da montanha, Lala!

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  10. Por que esse tipo de histórias sensacionais não acontecem comigo? :( rs
    Muito bom.
    Andarilhos sempre surpreendem.

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    1. Hahahahahahhahahahahha a gente tem qu deixar elas acontecerem Sá! Hahahahahhahahahahhaha.

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  11. Dedé, tudo bem?
    Lembro-me deste teu texto, e também que gostei bastante.
    E o que mais me tocou é que a sabedoria vai além da condição, não é mesmo?

    Não sei se você soube que conheci pessoalmente a Lu Santinha, sabia? Ela veio aqui para o RS! Legal, não?

    Abração a todos e um beijinho no Samuelzinho!

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    1. Valeu Cissa!
      Ah, e fiquei feliz pelo seu encontro com a Lú Santinha!

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  12. Olá!Bom dia!
    E aí?Amigo! Tudo bem?
    Belo texto...
    poderia dizer o clichê básico, que as aparências nos enganam...mas, não são as SÓ as aparências que nos enganam... o que nos engana é o fato de não olharmos ATENTAMENTE para as pessoas e situações com as quais nos envolvemos... o fato de generalizarmos nossas conclusões e a dificuldade que temos em assumir que nossas decisões e julgamentos estão equivocados...
    Obrigado pelos comentários em meu blog!Gostei dos versos!Logo, postarei, rsrs
    Boa semana!
    Abraços

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    1. Hahahahahhahahaha obrigado Felis! Você falando bem de meus versos, já é motivo para eu ganhar o dia! Hahahahahhahahahaha. Valeu!

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  13. ESTAFETA SEM RUMO

    Sou Andarilho Peregrino
    Trem Sem Trilho
    Gramíneas Sem Milho
    Maquinista Valdevino

    Sou Andarilho Peregrino
    Com Alma De Aventureiro
    Espírito Forasteiro
    E Sonho De Menino

    Sou Andarilho Peregrino
    Cego Romeiro Errante
    Perdido De Mim Clandestino
    Fugido Da Vida Viajante

    Sou Andarilho Peregrino
    Garimpeiro De Ilusão
    Na Gruta Escura Do Destino
    Passarinho Sem Alçapão

    Sou Andarilho Peregrino
    Destemido Caçador
    Adulto Pequenino
    Semente De Lavrador


    Marcus Deminco

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  14. andré, meu querido amigo,
    uma das maiores qualidades do ser humano é a capacidade de surpreender e de se deixar surpreender. isso contraria qualquer preconceito e reclama abertura e pluralidade; o teu texto é a alegoria do que acabo de dizer.
    é sempre um gosto ler-te, porque (e julgo já to ter dito por mais do que uma vez) há sempre, num registo narrativo fluído e espontâneo, qualquer coisa que nos amarra e que jamais se faz superficial.

    grande abraço, meu amigo!

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    1. Obrigado Jorginho! Você é que é muito gentil!

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  15. André, você tem toda razão. Já tive e vivi experiencias fascinantes com esses malucos belezas. Apesar de ser um devoto fã do Raul Seixas, nada tenho a ver com o estilo todo próprio dos caras, porém, por detrás de toda estética estranha que aos olhos pode parecer, existem cabeças pensantes maravilhosas. O resto você já disse tudo. Um fraternal abraço meu caro.

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  16. Uauuuuuuuuuu... Dezinho, o tal do preconceito é danado. rsrsrsrsrs.... ainda bem que vc arriscou! Tem o ditado que "quem não arrisca, não petisca"... um faturou um poema e o outro, duas pingas! hahahahaahahah

    Abç JoicySorciere => CLIQUE => Blog Umas e outras...

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  17. uahuahau que história legal Dé! A mais legal que já li aqui com certeza!
    Poxa vida!

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  18. Acho que ele não era um andarilho, era um punk! kkkkk

    É realmente curioso como, mesmo nós que batemos no peito e nos dizemos anti-preconceitos, cometemos a injustiça de às vezes julgar uma pessoas por suas roupas e por seus modos... Reconheço que já aconteceu comigo também

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  19. Eu penso que estes andarilhos, os quais passam despercebidos ou quando o são, são visto com os olhos dos preconceitos, sempre tem uma história de vida forte que não foi revelada e que os levou a ficarem assim.
    A cultura dele denota isto, denota um passado cultural que teve, uma boa educação, mas que talvez um acontecimento traumatizante tenha lhe "transformado" nesta metamorfose ambulante.

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