quarta-feira, 13 de junho de 2012

Vozes periféricas - 3



Eaí irmão! Tudo beleza?
Qui legal que cê veio aqui na periferia passeá di novo mano.
Rapá, nóis tá na correria du mêmo jeito, tá ligado? Aqui o baguio é lôco mano. Si a gente não fazê os córre o leite num pinga nas panéla lá de casa... I si os leite num pingá meus irmãozim abre o mó bocão.
Cê já viu criança cum fome? Si não viu irmão... Num quêra ver, é mó tenso...
Intão irmão, semana passada eu levei um sinhorzinho alcólatra que morava na calçada di frente do mercado, pra fazê uns exâme lá no postinho. O sinhorzinho tava só o pó. Acho que é a tal das cirrózi que dá no figo di tanto qui ele bebia. Aí, cê acredita qui os médico falô qui só tinha vaga pra atendê o sinhorzinho daqui treis mêis? Ô lôco irmão! O sinhorzinho já tava c'os pé na cova e os médico fazêno cú dôce pra atende o véio! Imagina o qui aconteceu? O véio morreu hoje. E me pergunta si os médico atendeu ele? Lógico qui não né irmão... Pra falá a verdade acho que os home qui manda nesse país, acha é bão quando morre um indigenti desses aí...
É um peso a menos pro país, né verdadi?
Eu fiquei chatiado irmão, porque o sinhorzinho era bebão, mas era gente boa.
Ele tinha umas conversinha legal. Falava pra gente que os filho dele tinha colocado ele no asilo, mas que ele não aceitava isso di jeito nenhum, por isso que fugiu e veio morá nas rua. Uma veis ele falô que todos os filho dele era bacana i bem di vida, tinha um advogado e dois médico...
Mais o qui qui adianta isso si os cara num tinha coração? Eu fico pensano essas coisa di veis in quando.
É irmão, aqui na periferia tem mais coisa aconteceno qui cê pódi imaginá. Hoje o sinhorzinho alcólatra foi interrado igual um cachorro. Sem nome, sem familia, sem caxão bonito, só nóis que falava sempre cum ele aqui nas rua e descolava o rango pr’ele comê todo dia é qui tava lá. Minha mãe até rezô um terço encomendano a alma dele pra Deus cuidá.
O caxão era do IML e o túmulo era daqueles coletivo... Foi triste irmão! Os filho dele se um dia si lembrá qui ele existia nunca vão sabê onde procurá. Mas fazê o que né irmão? A gente fica triste mas tem qui vivê. Quem morre é quem ta morto né irmão? Nóis tem é qui lutá pra vive melhor todos dia, né mesmo?
E aí irmão? Veio vê uns DVDzim do Paraguai? Póde escolhê intaum véio... Cê é mó genti fina! Sempre lembra di nóis aqui da periferia!

43 comentários:

  1. É mermão, o baguio é loko, é caixão e vela preta pro pobre, é como se diz o sábio provérbio popular: "o pobre só leva fumo".

    Legal teu texto, irônico e bem humorado.

    Abração pra ti mano.

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    1. Hehehehehehehhe, verdade Chengão!

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  2. Desistiu de desenhar o personagem??

    Pois é, o cara gostou de pintar por lá. E esse pessoal da periferia sempre admira quem os visita sem medo. Já escutei muito disso nesse meio.

    É aquela realidade: morre-se e enterra-se como indigente, postos de saúde cada vez mais trolhados. Má vontade nos atendimentos. Etc.

    Deve ter feito uma boa pesquisa de campo para escrever esses contos das vozes periféricas.

    Abss!

    ----
    Site Oficial: JimCarbonera.com
    Rascunhos: PalavraVadia.blogspot.com
    Rasuras visuais e sedentárias: The-Tramp-Mind.tumblr.com

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    1. Hehehehehe, não é isso Jim. É que eu tenho facilidade pra imitar sotaques e pessoas, então depois é só eu passar pro texto.
      Se eu conversar com você um pouquinho eu já consigo imitar seu jeito de falar e qualquér sotaque que tiver, hehehehhehehehehhe, é coisa de maluco isso!

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  3. Dedé, meu amigo!
    Muito bom!
    Você é o escritor dos sotaques!

    Mas... é uma triste realidade, gente vira bicho, parece aquele poema do Manuel Bandeira, vou reproduzir aqui, abraço para ti e família:

    O Bicho

    Vi ontem um bicho
    Na imundície do pátio
    Catando comida entre os detritos.

    Quando achava alguma coisa,
    Não examinava nem cheirava:
    Engolia com voracidade.

    O bicho não era um cão,
    Não era um gato,
    Não era um rato.

    O bicho, meu Deus, era um homem.

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    1. Valeu Cissinha!

      Esse poema foi um dos que mais me marcaram na infancia... Uma vez minha professora leu ele pra gente e a gente fez um trabalho sobre ele.

      Um abração!

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  4. Lindo retrato de triste realidade.Infelizmente,não? Adoro te ler com teu jeito único...abração,chica

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  5. Tive que me colocar novamente como seguidora. Não aparece pra mim , na lista de leitura o teu blog. Estranho..Vamos ver se agora vai dar . Antes dava!! abração,chica

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    1. Brigadão Chica! Você é dez!

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  6. Triste a realidade do nosso país...
    Eu tenho vergonha.

    Parabéns pelos texto, ficou ótimo!
    Beijos
    Sah

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    1. Triste mesmo Sabrina.... Mas é a realidade né?

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  7. triste...mas tem pessoas que infelizmente a família não dá a mínima, fica esquecida, e as vezes a familia tem tudo.

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    1. Esse é o pior né? Revolta as vezes!

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  8. A verdade nua e crua.
    Infelizmente, é assim, mesmo (ou seria mêmo? kkkk)
    Você arrasa com seus textos!

    http://senhoritamoca.blogspot.com.br/

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  9. Situação muito mais frequente do que se pode imaginar. O "ter" afastou o "ser" e levou, junto, o coração de muitos. A maioria das pessoas abandonadas em asilos têm família, mas foram consideradas um peso e lá deixadas, com a desculpa de que seriam mais bem tratados. No fundo, o que mais desejariam é atenção e amor.
    Bjs.

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    1. Mas que amor se os familiares não sabem o que é isso?

      Um belo final de semana Mary!

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  10. Oieee, te achei na blogosfera...
    Ameiii seu bloguinhooo ")

    Tô te seguindoo..

    Me visita tbm, vou adorar.
    http://lidiepaulo.blogspot.com.br/]

    Beijocas :*
    Ótima 5ª Feira ")

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  11. Oi André
    Muito bom esse texto que vc escreve sobre a realidade nas ruas, para quem lê dá para ver, imaginar o cenário, sentir o que eles estão sentindo. Como eu já disse para a Cissa, quando eu crescer quero ser igual a vc.
    Bjão padrinho e um ótimo resto de semana.

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    1. Lú, obrigado pelo carinho e por estar sempre por aqui!

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  12. É bem assim mesmo Andre, os pais criam seus filhos, encaminham eles para seres pessoas melhores e na hora que ficam velhos e precisam de ajuda, eles viram as costas, triste sim, mais é a realidade e o que se pode fazer?
    Na minha opinião nada, os pais estão criando seus filhos ao contrario, sem respeito, sem limites e daí depois choram por estes mesmos filhos, tudo começa no seio da família, só assim teremos um futuro melhor.

    Belo texto.

    Valeu a força Andre, ando em uma fase dificil, logo irá passar, é o que eu espero... Bjs

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    1. Janinha minha amiga!

      Conte sempre comigo.
      Fico feliz por vc ser uma amiga tão legal!

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  13. Olá André,
    Cara ele pode falar tudo errado e cheio de gíria, mas em pouco tempo deu uma aula de vida! Infelizmente o abandono com os idosos não é fato raro, vez ou outra observamos tais situações por aqui também. Fico imaginando como pode um filho dormir ao menos com a consciência tranquila sabendo que seu pai está pelas ruas? É muito triste ver a condição de muitos velhinhos na maioria dos asilos... Mais um capítulo negativo do nosso Brasil, sil, sil, sil...

    Abraços, Flávio.
    --> Blog Telinha Crítica <--

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    1. Flavão!
      Amigo, infelismente pessoas como o peroférico, aprendem com a vida. Aí ou ele segue para o bom caminho ou o mal!

      Valeu pelo comentario!

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  14. Oi amigo querido,

    Tudo bem? Seu texto está no final e prometo que falo contigo esse final de semana.

    Quanto ao post, brilhante, pois reflete a verdade do indigente, que não tem atendimento, morre e em muitas ocasiões, é enterrado, sem nenhuma identificação. As vezes, faço a pergunta para mim sobre esse significado de diferenças e, não entendo, pois Deus é uno. Enfim, sofro com essa situação e me culpo também, porque ao ter casa, aceito o farrapo lá fora, sem questionar ao ver o fim de um indigente.

    Deus com vocês!

    Beijos.

    Lu

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    1. Hahahahhahahhahaha, valeu Santina! Estou esperando!

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  15. Estas "vozes periféricas" retratam, com maestria, uma realidade dolorosa e cruel.
    São atos resultantes do desamor. Os filhos que abandonam os pais em instituições, por considerá-los um fardo pesado, esquecem-se de que amanhã poderão ser vítimas do mesmo ato por eles exemplificado. É a lei do retorno.
    Por outro lado, a questão da assistência médica do país continua caótica, não obstante as propagandas televisivas em sentido contrário. Se para uma repórter
    acidentada foi dada alta com várias costelas quebradas,sem o cuidado exigido,
    o que não seria feito por um indigente???

    Muito bom, André. Parabéns!

    Ótimo final de semana.

    Abraço.

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    1. É triste né Verinha? Mas ter dinheiro não quer dizer que se tem coração!

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  16. Oi André, beleza mermão?

    Mais um capítulo da vida real. Segue a vida, vamos lutar no que podemos para tudo isso melhorar um dia, né? Enquanto isso, vamos comprando ums DVDs paraguaios para ajudar no leite da crianças do irmão periférico; afinal de contas, criança com choro de fome é uma das coisas mais triste de se vê.

    abraços

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    1. Isso mesmo Edu!
      As autoridades não fazem nada, e a vida vai se desenrolando assim!

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  17. andré, meu querido amigo,
    o brasil é, presentemente, a 8ª economia mundial, mas isso não significa que todas as estruturas sociais funcionem harmoniosamente, verdade? e depois, ainda há as consciências de um passado recente que precisa de tempo para ser transformado.
    relato de um país real.

    abraço!

    p.s. hoje muito da europa, conforme a conheço há já duas décadas, se decide nas urnas do povo grego: eleições verdadeiramente decisivas.

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    1. É Jorginho!
      Eu fasso esses textoas aqui, mas na realidade eles servem pra quase que o mundo todo!

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  18. A vida e seus contrastes...
    Temos muito o que aprender sobre ela.

    Um abraço

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    1. Um abraço Nilson! Obrigado por aparecer!

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  19. André \o/
    Tudo bom com vc?
    Olha...esses seus textos tocam muito fundo no coração da gente...até dói. É essa realidade nua e crua que incomoda...que dá vontade de tentar fazer algo mas de que adianta se a cura dessas pessoas não está num hospital..está justamente nas pessoas que nem se importam com elas...
    ...vc pegou pesado no último comment hein..eu entedi..isso foi uma indireta bem óbvia tá? u.u Só não fico de mal e parto pra baixaria (kkkk) porque vc é um amigão da blogosfera e também é um pai de familia u.u. Mas vc sabe porque eu não consigo comentar em todos os seusp osts né? Com essa correria e um pequeno distanciamento da net é realmente complicado..sem falar que no trampo tá uma correria.
    Mas e vc? Como está conseguindo conciliar tudo? Está conferindo a novela Pelotosfera? Até a Frida feaz uma participação lá kkk.
    bjs

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    1. Hehehehhehehhehehhehehehe sabia que iria ter resposta, hehehehhehehehe. Tsu, vc é um barato!

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  20. Belo texto, André.
    Forte, meio triste, mas muito bom.
    Infelizmente, é a nossa realidade.
    Eu fico P da vida quando sei de uma situação como a deste senhor alcoólatra. Por isso que não tenho coragem de visitar um asilo. Vontade demais, mas não sei se conseguiria conter minhas lágrimas e arritmias. =/
    Brasil tá uma bosta mesmo =/

    Beijo
    Cléo - Acesse o blog Vejo Por Aí... Onde o útil, o fútil e o inútil se encontram.

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    1. Valeu Cléo!
      Obrigado por aparecer!

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  21. No fim tudo acaba bem. Os mano trabalha, as criancinha come, e o povo de boa.

    Nem tudo é o que parece.

    Abçs

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    1. Realmente, nem tudo é o que parece!

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  22. Olá Dé! Pra competir com sua brasilidade só esses posts da periferia né! Muito boa a forma que vc retrata a realidade tão sofridadessas pessoas! É outra maneira de escrever brasilidafed né?! Beijos!

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  23. Legalzão! Surpreendente como vc consegue escrever tão bem a linguagem informal-interiorana!

    Lindo texto e como falou alguém aí em cima, lembra-me sutilmente O BICHO de Manuel Bandeira, sim!

    Abraço!

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