segunda-feira, 13 de maio de 2013

O tempo, os sonhos e a morte




Na entrada do cemitério da Boa viagem, estava o jazigo da família Gouveia. Adalberto Gouveia era um homem amigo de muita gente, muito bem relacionado na cidade, entendia muito de muitas coisas. Na metade de sua vida, Adalberto sonhou em montar sua lanchonete, mas a situação do país e os problemas financeiros que assolavam a nossa economia não deram coragem para que Adalberto abrisse o tal negócio.
Na quadra de baixo, dois túmulos depois da esquina, do lado direito, estava o túmulo de Margareth Albuquerque.
Margareth foi a melhor aluna da cidade nos anos 80. Passou em quatro faculdades federais, sendo que em duas teve a nota mais alta de todo o vestibular. Tal era sua inteligência que Margareth foi convidada a estudar na Inglaterra com todas as despesas pagas pelo governo inglês. Mas o pai de Matgareth, "seo" Albuquerque, como era conhecido, não deixou a filha ir sozinha para uma terra tão distante.
Descendo mais algumas quadras, chegamos ao tumulo de Antonio Caldeiras. Um jovem rapaz que trabalhava de mecânico de automóveis, numa pequena oficina da cidade. Quando estava para se casar, Antonio teve a chance de ser contratado por uma grande montadora de automóveis que estava se instalando no Brasil. Ele faria alguns cursos e treinamentos e assim teria uma grande chance de se tornar um chefe de setor na grande montadora. Mas a sua futura esposa não queria deixar a cidade e assim ficar longe de sua família.
Ao lado de Antonio estava enterrada a "irmã" Ana. Uma freira que depois de uma tentativa não bem sucedida de se casar e ter filhos, resolveu se enclausurar num convento e levar uma vida de religiosa.
Mais três quadras à esquerda e bem no meio do cemitério estava a carneira de João Francisco Nunes, o mais promissor jogador de futebol que a cidade já teve. Quando rapazote ele chegou a ser sondado por Flamengo, São Paulo, Corinthians e Botafogo, mas a vida era muito boa em sua adolescência, com muita bebida e muitas mulheres.
Muitos sonhos estavam alí naquelas ruas do cemitério, enterrados juntos com seus sonhadores. Pessoas que morreram frustradas por não ter corrido atrás de seus desejos enquanto podiam. Pessoas que não lutaram com a vida e com as situações para alcançarem seus objetivos. Pessoas que simplesmente se perderam no meio do caminho.
Adalberto Gouveia morreu trabalhando de empregado numa banca na feira.
Margareth se aposentou como costureira e morreu anos depois num asilo.
Antonio Caldeiras se suicidou depois que sua esposa foi pega com o vizinho em sua cama.
Irmã Ana, morreu no convento tristemente por não ter constituído família e não ter podido ser mãe.
João Francisco morreu quase como indigente, se não fossem os documentos velhos e amassados que ele carregava dentro de uma mochila gasta e fedida. João Francisco era um andarilho.
Como esses, incontáveis sonhos estão enterrados pelos cemitérios do mundo. Sonhos esses que poderiam ter mudado uma vida, uma cidade ou até um país... Sonhos que não voltam mais. A não ser que sejam sonhados por algum vivo, que ainda tem tempo e coragem de realizá-los...


Resolvi hoje republicar esse texto que gosto muito e que publiquei a muito tempo atrás. Hoje os seguidores do blog mudaram um pouco e se renovaram. Ainda bem que essa renovação acontece e que muitos seguidores e amigos antigos ainda estão por aqui! Isso deixa minha vontade de escrever viva! E meus sonhos cada dia mais reais. Obrigado por seguirem, por comentarem e por se interessarem pelas minhas verdades e bobagens!

32 comentários:

  1. Lindo e vale a republicação! Sonhos sempre são enterrados mesmo... O difícil é algum vivo reeditá-los. Podem aparecer "vivaldinos", isso sim! abração, chica

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  2. Olá menino
    Por isso devemos correr atrás de nossos sonhos, para que quando chegar a nossa hora, sejamos enterrados com todas as nossas vitórias.
    Muito bom o texto.
    Abraço

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    1. É Wand, concordo com vc!
      Obrigado pela visita!

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  3. Olá meu amigo, bom dia! Acho que já havia lido esse seu texto!
    Mas muito boa a republicação! Faz a gente refletir...
    Temos mesmo é que correr atrás dos nossos sonhos enquanto ainda é tempo!
    E a meu ver: nunca é tarde pra sonhar!
    E pra correr atrás, e realizar os nossos sonhos...
    Um grande abraço, e que Deus realize todos os desejos do seu coração!
    Com carinho...Adelisa.

    http://adelisa-oquerealmenteimporta.blogspot.com.br/

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    1. E o tempo sempre corre também né Adê, hahahahahaha,

      Valeu!

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  4. André...nossa!!!Lendo seu artigo, deu-me arrepios!!!!!!
    A vida é assim...! Muitos hoje têm grandes possibilidades de mudar o rumo das suas vidas e não fazem, pensando que terão sempre essas oportunidades...acham que o tempo não passa, que as coisas não mudam nunca!!Pura ignorância!

    A história desse pessoal poderia ter sido linda e vitoriosa, se eles aceitassem, mas pela fraqueza, desistiram de serem felizes.

    Deus na sua misericórdia e bondade, nos dar chances de um novo recomeço! Enquanto há vida, temos chances de colocarmos em prática nossos objetivos.A vida é curta, mas imensagmente prazerosa!

    Seu texto é reflexivo!!! Uma grande lição de vida!!!Mostra o quanto é importante fazermos as coisas hoje, não deixando para amanhã...pois a morte pode chegar a qualquer instante!

    A vida está sempre nos dando oportunidades para um novo recomeço.
    Obrigada por republicar novamente, compartilhando conosco algo tão repleto de conhecimento!
    Beijos André e parabéns pela postagem.

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    1. Obrigado Adeladia, que legal que tenha gostado do texto! Obrigado pela visita!

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  5. Boa tarde. Teu texto é belo e muito reflexivo. Um dia, estaremos todos neste mesmo cemitério, quer tenhamos realizado nossos sonhos ou não. Dá uma erta angústia pensar assim, mas também, uma certa calma.

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    1. Verdade Ana, as vezes parece que estamos correndo atrás do vento, mas a vida é assim né?

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  6. Um texto muito belo e uma profunda reflexão.
    Ás vezes dou comigo a pensar nas coincidências do ceitério cada vez que vou à sepultura dos meus pais. Um exemplo curioso. Meu pai teve um grande amigo o Bernardino, caseiro da Seca do Bacalhau onde meu pai era o Manel da Lenha. De sitios opostos do país, meu pai era do norte e o Bernardino do sul. Foram ter à mesma seca em busca de emprego e por lá ficaram toda a vida. Faziam anos no mesmo dia, 20 de Abril, um nascido em 1914 o outro em 1918. O Bernardino faleceu a 28 Março de 2005. Meu pai faleceu a 28 Março de 2009. Acredita que estão sepultados lado a lado no mesmo cemitério? Quatro anos de diferença, quanta gente morreu nesses 4 anos e foi sepultado naquele cemitério, e meu pai foi ficar exatamente ao lado do amigo. Mais curioso ainda terem nascido e morrido exatamente na mesma data e terem vivido o mesmo tempo.
    Um abraço e uma boa semana

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    1. Puxa que história legal Elvirinha!

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  7. Anônimo14.5.13

    É Andre, infelismente os sonhos morrem, assim como nós. As vezes me pergunto se ainda estou vivo, pois muitos sonhos já morreram.
    Abraços.

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    1. Que isso meu amigo! Não morra antes da hora! Os sonhos tem que se renovar sempre!

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  8. É sempre muito bom fazer uma republicação André, principalmente de um texto tão interessante.
    Sempre deveremos correr atrás dos nossos sonhos...ao menos tentar né?
    Não devemos parar de sonhar, de almejar coisas boas, mesmo que o sonho não se concretize, outros virão...quem sabe aquele não era pra ser, por isso devemos manter as esperanças e Deus nos abrirá
    uma nova porta!
    Obrigado André pelo seu comentário!!
    Abração
    Mariangela

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    1. Quê isso Mary! É um prazer visitar seu blog!

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  9. Muitos se vão tendo deixado morrer os sonhos. Creio, porém, que, para alguns, foi opção pensada e repensada. Para outros, falta de coragem para enfrentar os desafios. Os que se acovardaram, certamente viveram infelizes. Os que substituíram os sonhos, por razões outras, encontraram novas luzes para os guiar. Bjs.

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    1. Os designios da vida as vezes são de opção particular né amiga? Tomara que todos encontremos essa luz...

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  10. Olá André,

    Lembro-me desta crônica. Quando se lê algo bom fica registrado na memória-rs.
    Quando não atendendemos aos nossos apelos íntimos e nos deixamos levar pela roda da vida, sem lutarmos por nossos sonhos, eles acabam mesmo enterrados sob o pó da infelicidade e partem conosco.

    Valeu a republicação. A crônica ajuda a dar uma sacudidela naqueles que ainda teimam em passar pela vida no comodismo e se deixando influenciar pelos obstáculos naturais que atravessam o caminho de todo sonhador.

    Grande abraço.

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  11. Olá!
    Bom dia
    Dedé, meu amigo
    sim...li da vez anterior. É um tema atemporal.Penso que o pragmatismo e a zona de conforto limita a vida ao que ela é. Tirando-lhe a possibilidade de Ser Mais.Os que terão seus sonhos realizados são aqueles que identificam a linha tênue entre a ousadia e a irresponsabilidade, mas abomina o comodismo. Sabe que mudar exige correr riscos. E os corre...
    Obrigado pelo carinho da visita
    Boa quinta feira
    Abraços

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    1. Obrigado a você Felisão que é sempre tão gentil!

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  12. Oi André
    Ainda bem que vc republica esses seus magníficos textos, esse eu não conhecia. Eu sempre incentivo meus filhos a sonharem, mas com os pés no chão, não adianta sonhar, e não estudar e trabalhar para que seu sonho vire realidade!
    Bjos.

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    1. Se pararem os sonhos para-se tambem a vida né Lú!

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  13. Belo texto meu amigo!
    Estamos correndo atras do nosso sonho né? Uma hora dá certo! Vc vai ver!

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  14. Bom dia,André!

    Nossa! Impossível não sentir certa tristeza lendo tantos casos de sonhos não realizados...e por não terem tentado! Que dor deve dar dentro do coração...
    Eu acredito nos sonhos! Por isso, depois de casada, mãe de dois filhos resolvi fazer faculdade!! Nunca é tarde.E não há nada pior do que carregar uma frustração!
    Belo texto! Gostei do seu estilo!
    Obrigada pela visita! Seja sempre Bem Vindo!
    Beijos!

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    1. Parabens Vivian! Nunca é tarde para recomeçar!

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  15. Este comentário foi removido pelo autor.

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  16. Dedé, tudo bem com vocês?
    Pois é, me lembro deste texto, sim.
    Penso sempre na brevidade da vida, de como teria sido se fosse diferente, ou mesmo, no meu caso, que já tive algumas situações em que corri risco real de vida, se tudo tivesse acabado ali... e agora, dia 21 de maio, completo 19 anos sem o pai. E tudo isso vai se somando..., e quer saber de uma coisa? O melhor é viver mesmo a vida, correr atrás de tudo que corre de nós haha e não perder muito tempo pensando, talvez não valha tanto a pena assim.

    Abração em vocês e um beijinho no Samuelzinho!

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  17. Meu caro André, já tive o prazer de ler esse texto certa vez, se não me engano, e ele não perde a atualidade e não perderá nunca. Pois essa realidade é algo que continuará fazendo parte da história de muitos pelos caminhos da vida. Um grande abraço.

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  18. Na Lapa, no Rio, tava voando, com asinhas de anjo e tudo, numa parede: "Liberte seus sonhos". Logo embaixo os sonhos de algumas pessoas escritos ali. O primeiro é mais amor.

    O afeto ajuda a realizar sonhos, sabe.

    O afeto é o que vem de quem te afeta.

    Abraço!

    F.

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