sábado, 29 de maio de 2021

O tacho do capeta... Ou seria do Calvino?





Segundo a teologia cristã, haverá um dia em que eu, tu, ele, nós, vós e eles, seremos julgados!

Nesse julgamento ficará decidido que se você aceitou a Jesus como seu único e suficiente salvador, deverá ser salvo e ir morar no céu eternamente. Mas se você não aceitou Jesus e torceu pelo lobo mau a vida toda, fazendo parte da matilha ou não, certamente vai fritar no tacho do capeta eternamente e de vez em quando ainda vai levar uma cutucada do tridente do caramunhão pra ficar esperto!

O problema é que essa fritada no tacho não ficará pronta nunca, porque é eterna! E me desculpe, se você não entendeu ainda, eternamente é muito tempo meu amigo!

Bom, até que a conta é fácil de resolver: ouviu sobre Jesus, entendeu e aceitou vai pro céu, não aceitou vai pro tacho.

Porém, contudo, entretanto, nós, seres humanos complicadíssimos, complicamos as coisas. Aliás somos mestres nisso!

Um cidadão, inteligente pra burro, chamado João Calvino, arrumou um jeito de dizer, baseando-se em versículos da Bíblia meticulosamente escolhidos, que a coisa não é tão fácil assim!

Ele bolou uma trama teológica onde a simplicidade da salvação se dá apenas para um grupo de pessoas, que ele chamou de eleitos, ou predestinados.

Segundo Calvino, Deus, na marra, fará com que alguns escolham a Jesus e o aceitem, mesmo que não queiram, como seu único e suficiente salvador, irresistivelmente inspirados pelo Espírito Santo e pasmem (!) livremente.

A outros, Deus não dará a chance de escolher a Jesus! Mesmo que o cara assista e entenda uma pregação, absorva a palavra de Deus ou encontre uma Bíblia em uma ilha deserta e se convença de que Jesus é o caminho, Deus vai mexer os pauzinhos celestiais para que o coração desse fulano se endureça e ele não aceite Jesus verdadeiramente, porque ele não é um dos eleitos.

Gente! É inacreditável, mas na cabeça do Calvino, se Deus amolecer o coração do homem fazendo-o aceitar ou endurecer, fazendo-o não aceitar, calvinamente essa interferência não existe, e a “escolha” do homem é classificada como livre.

Esse Calvino tem milhões de seguidores no mundo todo entre as igrejas evangélicas tradicionais, sendo o mais influente teólogo da teologia reformada. Seus discípulos são combativos e sua doutrina tem entrado em igrejas que tradicionalmente pensavam diferente disso. Eles explicam o inexplicável e quando caem em contradição dizem que é um mistério divino, mesmo que a parte contrária explique didaticamente pra eles algo mais plausível, eles não arredam o pé e falam que você é que não entendeu e se não entendeu deve até ser porque você não é um eleito... Vai saber!

Essa questão que eu coloquei aqui é apenas um agente complicador da teologia calvinista, existem muitas outras questões controversas em sua teologia, pois ela é calcada em 5 pontos, e cada ponto é mais polêmico que o outro.

Ainda bem que no dia do julgamento, quem vai julgar é Deus e não o Calvino, (isso, pensando com piedade no coração, que ele esteja no céu!) Porque pelos julgamentos calvinistas, correríamos o risco de não caber de tanta gente no tacho do capeta!

Na verdade, acho que o capeta teria que abrir uma fábrica de tachos! Imagine o slogan da fábrica: Tachos Calvino, eternamente esperando por você!

Eu hein... Tô fora! 




sábado, 15 de maio de 2021

Olhar de cinquenta anos

 




Sabrina, Jonas, Augusto Cesar e Priscila entraram pelo salão de festas trazendo o bolo de bodas de ouro do vovô Valter e da vovó Soraia. Os velhinhos esperavam o bolo chegar rodeados pelos filhos e amigos, que cantavam “parabéns pra você!”

Uma lágrima escorreu pelo rosto da vovó Soraia e do vovô Valtinho. A cinquenta anos atrás eles não imaginavam que conseguiriam chegar a um momento desses.

Em 4 de agosto de 1952, Soraia, uma linda jovem, trabalhava no mercadinho de seu “Manoel português”, um homem justo, bom patrão, mas muitíssimo exigente com seus funcionários. Soraia estava pesando um quilo de feijão para uma cliente, quando Valter entrou pelo mercadinho apressado para comprar batatas.

- Seu Manoel! – falou Valter num só fôlego. – Me dê um quilo de batatas meio rápido, porque já está quase na hora de eu ir para escola e minha mãe se enrolou, não teve tempo de vir aqui, ainda não fez o almoço e meu pai já vai chegar do serviço.

- Olhe garoto, vais ter que esperaire a sua veix! Purque tem umas pssoas qui chegaram em vossa friente!

Soraia olhou para Valter com cara de poucos amigos. Ela detestava esses apressadinhos que vinham tumultuar o seu serviço.

Alguns dias depois, Soraia esperava o ônibus para ir ao cinema encontrar seu namoradinho novo, um rapaz loiro que tinha os olhos mais azuis de todo o mundo! Perdida em pensamentos ela nem notou quando Valter sentou-se ao seu lado no banco do ponto de ônibus e começou a folhear um gibi do “Cavaleiro Solitário.”

Os dois entraram no mesmo ônibus e mais uma vez sentaram-se lado a lado, até chegarem à porta do cinema. Soraia logo encontrou o rapaz loiro e Valter logo encontrou seus amigos que foram até ali para trocar gibis e dar uma paquerada nas meninas.

Uma vez, Soraia passeava com sua amiga Gorete pela praça da catedral, quando Valter passou em sua bicicleta olhando para Gorete, que era “a menina mais linda da cidade.”

Ele se descuidou olhando tanto para sua musa, que nem viu o banco de concreto à sua frente!

Foi um capote só! Sorte que Valter caiu dentro do chafariz e apesar de ter se molhado todo e da vergonha que passou, não se machucou além de uns arranhões.

Na quermesse de São João, Valter discutia com sua namorada Ermínia sentado nos degraus do coreto ao centro da praça, enquanto Soraia namorava Arlindo num banco próximo. A discussão de Valter se elevou tanto que Ermínia deu-lhe um tapa no rosto. O estralo foi tão alto que Soraia e Arlindo até se assustaram! Quando olhou para ver quem tinha apanhado, Soraia só viu um rapaz indo embora com sua bicicleta por entre o jardim enquanto uma moça chorava e xingava dizendo para ele voltar.

Perto de um Natal, Soraia estava junto com as meninas da igreja passando de casa em casa fazendo uma coleta para montar cestas de natalinas para pessoas carentes. Ela bateu numa casa e a dona saiu nervosa, falando que não tinha nada para ajudar e que já estava cansada de pessoas enchendo o saco em seu portão. Valter que passava pela rua, parou sua bicicleta assistindo incrédulo a aquela cena. Vendo o destempero da mulher, entrou no assunto defendendo as “meninas da igreja”.

- Dona Rute! – Falou Valter com respeito. – Isso que a senhora está fazendo não é legal! As meninas estão tentando fazer uma boa ação! Se a senhora não quer ajudar é só falar que não e fechar a porta, não precisa falar tantas coisas assim para elas.

Foi a primeira vez que Soraia encarou os olhos de Valter. Ele era um desconhecido para ela e ela era uma desconhecida para ele.

Hoje, passados cinquenta anos, os dois velhinhos se abaixaram para apagar as velinhas do bolo de bodas de ouro.

Ela encarou os olhos de seu velho e se lembrou desse dia em que ele a defendeu. Os olhos eram os mesmos e a pessoa por trás deles também.

Novamente ela se encantou por aqueles olhos.

Jovens olhos.

Um jovem olhar de cinquenta anos...

O olhar do amor de sua vida!




sexta-feira, 2 de abril de 2021

Feliz Páscoa!

 

A gente reclama do posicionamento de algumas pessoas em relação à política. 

Muitas dessas pessoas, sem nenhum conhecimento filosófico, religioso, teológico, psicológico, algumas sem base familiar, sem berço decente, outras sem escolaridade, sem cultura e infelizmente sem bagagem para discutir em médio nível, quanto mais em alto. 

Mesmo assim compramos brigas homéricas com essas pessoas, principalmente sobre política e essa bipolaridade que se tornou o Brasil. 

Não estou aqui dizendo que sou melhor que ninguém! 

Eu tenho o meu nível de conhecimento, algumas pessoas estão num nível abaixo e outras estão num nível acima. O mundo é assim. 

O problema é quando identificamos que o outro não tem nada a dizer para o crescimento do assunto e mesmo assim continuamos a dar corda!

O culpado da discussão nesse caso somos nós mesmos. 

E olha, na verdade, nós seres humanos somos idiotas que querem ter razão em tudo. Por isso brigamos no futebol, na política, na religião e até no par ou ímpar. 

O próprio cristão, que se diz santo e hoje chora a morte de Jesus e que daqui a 2 dias vai comemorar a Páscoa arrumou uma forma de se achar a última bolacha do pacote. Isso entre os próprios cristãos, nem estou falando de quem é de outra religião. 

Os da igreja Cristã no Brasil se dizem a única igreja certa no mundo, os Testemunhas de Jeová se dizem os únicos que irão para o céu, os calvinistas se dizem eleitos e os únicos escolhidos pelo próprio Deus para serem salvos e por aí vai...

Gente! Ser humano é carente.

Preferimos estar certos do que a tranquilidade. Amamos uma boa briga. 

Sempre estaremos contra ou a favor de qualquer governo ou situação. 

Mas hoje, sexta feira Santa, que simboliza a morte de Jesus, é  pelo menos, mesmo se você for ateu, um dia para meditar, se o que estamos fazendo aqui na Terra tem mais ajudado ou atrapalhado a vida do nosso próximo. 

Se estamos somando ou subtraindo. 

Se vamos deixar saudades ou indiferença. 

Se somos do time dos bandidos ou dos mocinhos. 

Hoje é um bom dia pra pensar.

Pense aí, no seu íntimo e discuta com você mesmo. 

Talvez essa discussão possa fazer a diferença na sua vida e na vida de mais alguém, positivamente. 

Feliz Páscoa! 




sábado, 6 de fevereiro de 2021

Borracharia Brás Cubas




— Interessante o nome da borracharia do senhor. 
— É... — respondeu o borracheiro sem olhar pra mim.
— Borracharia Brás Cubas, — continuei intrigado — como foi que o senhor chegou nesse nome?
O borracheiro retirou o pneu furado e o colocou no chão, depois começou a desmontá-lo e, ainda sem olhar pra mim, respondeu:
— É que eu sou comunista.
— Comunista? Como assim? Não entendi.
— Uai, comunista. O doutor não sabe o que é comunista?
Pelo tom áspero de sua voz, me pareceu que o borracheiro não gostou muito das minhas perguntas, mesmo assim, resolvi continuar perguntando:
— Eu sei o que é comunista, mas o que tem a ver o nome Brás Cubas e o comunismo?
— Me desculpe doutor, — falou o borracheiro se levantando com a câmara de ar na mão e se dirigindo até uma bancada — mas é só o senhor pensar um pouquinho. Brás Cubas é o ajuntamento de Brasil e Cuba.
“Meu Deus! — pensei surpreso. — Eu aqui achando que o borracheiro era uma pessoa culta e ele me vem com uma ideia dessas.”
— O senhor é doutor mais não sabe de algumas coisas que nós aqui da periferia sabemos. — desafiou o borracheiro, agora parecendo empolgado com o assunto.
— Ah é? E o que o senhor entende de comunismo?
— Entendo muito mais do que o senhor acha que eu entendo. Eu sigo as ideias de Raul... Saiba o senhor, que o Raul foi um grande pensador comunista.
— Raul? Que Raul? — perguntei cada vez mais surpreso. — O Raul Castro, irmão do Fidel Castro?
— Não meu amigo, — caçoou o borracheiro com um sorriso de conto de boca, expressando desdém pela minha pessoa — o Raul Seixas!
— Raul Seixas???
— Isso mesmo doutor; Raul Seixas. Da sociedade alternativa, do novo Aeon, quem não tem colírio usa óculos escuros! O senhor não entende as mensagens? O Zé entendeu.
— Zé? Que Zé? O Zé Dirceu?
— Não doutor. O Zé Ramalho!
— Zé Ramalho????
— Isso doutor! Nós vivemos uma vida de gado. — anunciou o borracheiro olhando para o além como se fizesse um discurso para uma multidão. —  Zé toca Raul! Um dia a sociedade alternativa vai descer no nosso planeta e a gente vai pra outra galáxia.
— A gente quem? Eu e você?
— Não doutor. — respondeu o borracheiro balançando a cabeça. — Tá na Bíblia! O senhor lê a Bíblia? Pessoas assim como o senhor, que acham que sabem de tudo não vão! Só nós... Os puros de coração é que vamos ser arrebatados! Pessoas que acham que sabem tudo são arrogantes. 
— Arrogantes não vão ser arrebatados? — perguntei maliciosamente.
— Não doutor! — respondeu o borracheiro apontando o dedo para mim. — Mas tem uma salvação pro senhor.
— Ah é... Ufa! E qual é a minha salvação?
— A metamorfose ambulante.
— O que?
— A metamorfose ambulante! Se o senhor preferir ser a metamorfose ambulante, ao invés de ter essa sua velha opinião formada sobre tudo; quem sabe o senhor não vai também.
Não sei como e nem por quê, mas essa última resposta do borracheiro me acertou feito um soco no estômago. Tanto, que depois dela eu resolvi me calar e saí de lado, fingindo que falava ao telefone, esperando-o terminar o serviço.
Eu saí da borracharia Brás Cubas diferente. Meu intelecto me dizia que as coisas que o borracheiro falou, eram coisas malucas e sem nexo, que só poderiam existir na cabeça de um lunático, mas uma pulga ficou atrás da minha orelha. Será que querer sempre dar uma de intelectual, e brigar para ter razão em tudo, não nos transforma em pessoas arrogantes? 
Aquele maluco me deu uma lição. Acho que vou preferir a metamorfose ambulante, a partir de hoje. Vai que a nave me esquece no dia do arrebatamento...


terça-feira, 2 de fevereiro de 2021

Fauda




 Estamos assistindo um seriado chamado Fauda, que fala sobre a eterna guerra entre Palestina e Israel.

O mais interessante é que apesar do seriado ser israelense ele não puxa a sardinha para o lado de Israel, e mostra igualmente, absurdos cometidos pelos dois lados.

Basicamente a história gira em torno de um agente israelense que pensava ter matado um líder terrorista palestino até que esse terrorista reaparece. À partir daí, o conflito, os planos, os atentados, a guerra nas ruas e entre as famílias começam de uma forma que parece não ter fim.

As cenas são fortes, os diálogos são fortes, as desculpas que os dois lados dão para explicar suas atitudes também são fortes.

 Definitivamente, depois de começar a assistir esse seriado eu passei a entender um pouco mais os motivos desses povos que são inimigos a milênios, e entendi que os dois estão errados.

Não dá para tomar partido de um lado ou de outro, a não ser que você esteja inserido no contexto político, social e religioso de algum desses povos.

O cenário é praticamente o território da faixa de Gaza, um pouco da Palestina pacificada e um pouco de Israel também pacificado. Mas gente! A paz que aparece em alguns lugares, parece tão frágil, que a gente pensa que pode acabar de um segundo para o outro e sem motivo algum.

Vale muito a pena assistir esse seriado. Mas como eu disse: Tudo nele é chocante, e talvez perturbador para pessoas influenciáveis.

Recomendo, mas vá com calma. 





sábado, 2 de janeiro de 2021

Reta final

 


Gente, desejo a todos um feliz ano novo pra todo mundo! Que Deus nos conceda um 2021 infinitamente melhor que esse 2020 que foi terrível e que já foi tarde!

 
Uma boa notícia de começo de ano é que finalmente estou na reta final do meu novo livro! Ufa! Esse está sendo muito mais difícil de escrever do que o primeiro.
Acho que mais uma semana eu acabo, talvez nem isso.
Agora vem outra fase que não é fácil. Corrigir, registar e procurar editora interessada.
A capa ainda não está decidida, mas tenho essas opções abaixo. Pequeninos detalhes as diferenciam, mas ainda não decidi.

Qual vocês acham melhor?









sábado, 26 de dezembro de 2020

O pão de Antônio

 

 


                                          


Noel virou a esquina errada quando estava chegando à Londres e quando caiu em si, estava viajando com seu trenó no meio do oceano.

- Que estranho, - pensou – onde está a terra firme? Eu não me lembro que da Lapônia até Londres tinha esse pedaço tão grande de mar...

Mesmo achando que estava no caminho errado, Noel continuou em frente confiando no instinto de suas renas, que continuavam a cavalgada como se soubessem o caminho.

Depois de algumas horas ele avistou algumas luzes no meio do nada, parecia um vilarejo. Mas o velho ficou surpreso quando percebeu que o vilarejo era muito precário,

- Com certeza não estamos na Inglaterra. – disse para si mesmo em voz alta. Tudo estava muito escuro. Alguns lampiões colocados em locais estratégicos iluminavam pedaços da noite em meio as vielas enlameadas devido a alguns dias de intensa chuva.

Os casebres ficavam espalhados pela vila sem alguma ordem que desse para entender, a não ser o fato de que rodeavam a igreja que ficava numa espécie de praça central.

As pessoas estavam reunidas num galpão que ficava ao lado da igreja.

Noel escondeu seu trenó atrás numa árvore, disse para as renas não fazerem barulho e foi com cuidado dar uma espiada.

Pé ante pé Noel chegou até a janela do barracão e furtivamente começou a espiar. Ele viu que um homem vestido com túnica branca falava para pessoas, que atentamente o escutavam sem ao menos piscar.

Noel achou interessante aquilo, porque sabia que não existia nada a quilômetros de distância, mesmo assim na pobreza extrema daquele povo ele percebeu pela feição deles que eles respeitavam aquele homem. Ele até se lembrou de outro homem, a muitos anos atrás que pregava e batizava às margens do Rio Jordão, e que pessoas humildes o seguiam sem pestanejar. Esse homem parecia ser um messias para aquelas pessoas. Até um cajado ele tinha nas mãos, como se fosse um novo Moisés.

Entretido na sua observação e nas velhas lembranças, Noel escutou um "click" atrás de si e lentamente virou-se dando de cara com os dois canos de uma carabina apontados no meio da sua testa.

- Quem é vósmecê?

- Eu sou o Noel. Também conhecido como papai Noel. – disse arregalando os olhos.

- Pai de quem?

- Noel... Você nunca ouviu falar?

- Vosmecê é português?

- Hã...? Português? Não, eu sou da Lapônia.

- Mas o sinhô fala português. – falou o homem aumentando a vós.

- É... – respondeu Noel levantando os braços. – Isso se deve a magia natalina.

- Você então é um bruxo?

- Não... – falou Noel tentando consertar o mal entendido. – A magia do Natal não sou eu quem faço. Ela existe porque hoje o mundo inteiro se une para adorar o nascimento do cordeiro.

- É melhor vosmecê parar de falar, porque essas suas conversas estão muito estranhas. Eu vô levá ocê pra conversá com o mestre Antônio Conselheiro.

O homem, apontando a carabina para Noel, fez um sinal para que ele andasse e entrasse no barracão.

Lá na frente, em cima de uma espécie de púlpito feito com tábuas, o velho com o cajado na mão franziu o cenho e seu susto fez com que as pessoas que estavam sentadas em silêncio se voltassem para a entrada do barracão. Todos estranharam ao ver aquela figura estranha. Alguns se colocaram de pé, outros fizeram o sinal da cruz, e outros esperaram para ver o que o mestre Antônio Conselheiro iria fazer.

- Mestre! - falou o sentinela. - Esse sujeito aqui tava espiando ali da janela. Eu perguntei quem ele era e ele me falou que era o pai dum tal de Noel.

- Não meu filho - interrompeu o bom velhinho - eu sou o papai Noel!

As pessoas sem entender nada, olhavam e cochichavam umas com as outras e procuravam no seu velho mestre Antônio Conselheiro uma razão para essa situação. O mestre, por sua vez, levantou o cajado e como se entendesse cada movimento do messias, as pessoas se sentaram e ficaram quietas observando. 

Depois virando-se para Noel o velho Antônio Conselheiro falou:

- O senhor é português? Veio aqui mandado pelo rei?

- Pelo rei? – falou Noel fazendo cara de desentendido. - Que rei?

- Senhor, - falou o Conselheiro ainda demonstrando calma - não te faças de desentendido. O rei de Portugal colonizador que se acha o dono dessa terra chamada Brasil.

- Olha meu filho, hohohohoho, eu sou o papai Noel, eu venho das terras gélidas do norte europeu e vim trazer paz e alegria junto com o espírito natalino.

- O que é espírito natalino? - perguntou Antonio Conselheiro olhando Noel de cima abaixo.

- É o espírito de paz, alegria, felicidade, amor! Eu faço isso a muitos anos lá na minha terra, e parece que meu chefe mexeu uns pauzinhos para eu começar a fazer isso aqui nessas novas terras também.

- Seu chefe é o rei de Portugal? O senhor é português? 

- Hohohohoho! - gargalhou papai Noel – Não, eu sigo apenas as ordens de Deus! Eu represento a união dos povos em torno do nascimento de Jesus!

- O senhor é chegado a uma falácia hein senhor Noel? – disse Antônio Conselheiro coçando a barba. - Onde já se viu dizer que trabalha diretamente com Deus... O senhor é português e trabalha para o rei de Portugal e está aqui pra confundir meu povo, mas nós não vamos deixar! O senhor tem dez minutos pra se retirar da vila de Canudos e se voltar aqui mais uma vez, não vai sair com vida. E por favor não seja ridículo com essa roupa vermelha e esse chapeuzinho horroroso! - Virando-se para o sentinela que estava com a carabina Antônio Conselheiro falou – Chico! Leve esse senhor daqui.

O sentinela levou Noel até onde o trenó estava amarrado. Papai Noel subiu no trenó e levantou vôo sumindo entre as estrelas. Engraçado é que Chico não se lembra disso e nem sabe como Noel foi embora. No outro dia de manhã era dia de Natal e uma coisa estranha aconteceu na vila de Canudos. Todas as crianças acordaram com roupas e sapatos novos. Alguns vestiram sapatos pela primeira vez na vida. Ninguém sabe de onde os presentes vieram. Nas mesas dos casebres apareceu uma espécie de pão engraçado e muito gostoso todo cheio de umas frutinhas cristalizadas no meio.

As pessoas perguntaram a Antonio Conselheiro o que era aquilo e ele simplesmente respondeu que devia ser mesmo coisa de Deus ou simplesmente uma tentativa do rei de Portugal em fazer as pazes com o povo da vila.  

Diz a lenda que essa foi a primeira vez que papai Noel veio ao Brasil. Mas desse dia em diante ele nunca mais deixou que ninguém o visse quando viesse deixar os presentes para as crianças brasileiras. Dizem que numa conversa informal com um dos anões da fábrica mágica, papai Noel teria comentado que o povo do Brasil é diferente porque mesmo achando que ele fosse um inimigo ainda o deixaram ir embora. Desde aquele dia, até hoje, Noel sempre volta ao Brasil; pena que já no ano seguinte a Vila de Canudos, e Antonio Conselheiro, não existiam mais.

Mas para a surpresa de Noel quando Conselheiro chegou ao céu ele perguntou a Deus sobre aquele velhinho de roupa feia e chapeuzinho horroroso que apareceu uma vez na vila de Canudos dizendo ser um enviado do próprio divino.

Deus explicou para ele com detalhes quem era o papai Noel e o velho Conselheiro, agradecido, pediu à Noel para trabalhar com ele na confecção daqueles pães engraçados. O messias de Canudos desde esse dia trabalha fazendo os “pães do Antônio” com gosto, pois se lembra da alegria das crianças do seu antigo povoado se deliciando com aqueles pães, como se ele fosse a maior alegria da vida delas.