terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Baú de fantasias







          Ele abriu o guarda roupas, e remexeu as colchas e cobertas, até que lá no fundo encontrou o velho baú.
            Com cuidado ele colocou o baú sobre a cama e depois de pensar um pouco sobre os anos e as lembranças que aquele baú lhe traria, criou coragem e abriu.
            Dentro do baú estavam dobradas, uma em cima da outra, bem arrumadinhas, as velhas fantasias de carnaval que ele usara no passado. Cada fantasia era de uma fase de sua vida, e por isso, algumas fantasias traziam bons e engraçados momentos, mas outras, traziam pensamentos tristes, que ele queria esquecer pra sempre.
            Naqueles anos, a vida era outra, uma vida inconsequente, sem regras e sem lei. Ele vivia por viver, queria chegar ao fim de cada dia com o sentimento de que não poderia ter feito melhor... Coitado!
            Os anos se passavam e as desilusões vinham aos montes, e como se sua vida fosse uma bateria de celular, carregando além do necessário, ele acumulava essas desilusões até quase estourar, mas, como num passe de mágica, essa carga negativa era gasta em uma maratona frenética que durava cinco noites e quatro matinês!
            Cada uma daquelas fantasias dentro do baú significava um descarrego desses, cada fantasia um carnaval, onde ele se transformava no folião mais feliz do mundo!
            Pena que depois dos cinco dias o celular já estava novamente na tomada carregando sua bateria.
            O tempo passou e ele percebeu que a vida não pode ser isso. Um acúmulo de coisas ruins, gastas em parcos momentos de euforia. Ele percebeu que a vida tem que ser vivida de forma que as energias negativas, os pensamentos e desilusões, não façam ninhos em sua cabeça e nem entrem como inquilinos em seu coração.
            Ele dobrou as fantasias e as guardou novamente no baú.
            Pensou em jogar o baú fora, mas isso seria covardia com o seu passado, e por isso, apenas o guardou novamente lá no fundo do guarda roupas.
            Ele sorriu, porque caindo em si, percebeu que não precisava mais desses cinco dias de folias desenfreadas para ser feliz, e o pior, ele balançou a cabeça caçoando dele mesmo, quando lembrou que em sua trilha sonora diária não tem nenhuma marchinha de carnaval, nem pagode e nem axé! Aliás, ele detesta axé!
            “– Meu Deus, - disse consigo mesmo – como sou mais feliz hoje!”





13 comentários:

  1. Que legal ficou,André... Belo final esse! Muito bom e valeu a inspiração,rs abração,chica

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    1. Hahahahaha, que bom que gostou Chiquinha!

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  2. Que belo texto, ótima reflexão, pois também penso que a vida fica cada dia melhor, pois nada como o tempo para entendermos os verdadeiros valores!
    As fantasias ajudam a viver, mas só o tempo nos mostra a beleza e leveza que é descomplicar, ser feliz no dia-a-dia!
    Também digo o mesmo "...como sou mais feliz hoje!",mas sempre gostei de carnaval, rsrs sempre curti e muito, mas hoje meus amigos estão meio "enferrujados" e não tenho muitos para juntos festejarmos!
    Amei ler aqui, muito bom, abraços apertados querido amigo Andre!

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  3. Pois então, muitos outros podem ter tentado jogar o baú fora, porém os baús estão impregnados na vida e não tem como joga-lo.
    Principalmente àqueles que trazem as fantasias sejam elas do carnaval ou não.
    As fantasias os confetes e as serpentinas sejam elas simbólicas ou reais estão guardadas lá no fundo e fazem parte do alicerce do chamado templo humano, pode ser a areia, a cal ou mesmo o cimento da argamassa e durar por séculos à fio ou ruir durante a primeira tempestade.
    É bom guardar o baú de fantasias.

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    1. Nunca podemos desfazer dos baús...

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  4. Um texto muio bonito.
    A felicidade não se conquista. Está dentro de nós, so temos que reconhecê-la. E parece que ele o fez.
    Abraço

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    1. As vezes ela se esconde, mas está dentro de nós...
      Um abração minha amiga!

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  5. Oi, André!! Li o teu comentário no blog da Chica e também vim conferir. Gostei muito do texto!! Parabéns!

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  6. Aquilo que nos faz feliz vai variando com o tempo (idade...).
    Magnífico texto, parabéns.
    Bom fim de semana, caro André.
    Abraço.

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