sábado, 6 de junho de 2020

Anjos









Zezé é um menino.
Um menino que não tem celular, não consta nos dados do Google, não tem conta no Facebook e que não sabe o que é watsapp.
Zezé é um menino que vive à margem da sociedade. Uma margem, ao contrário do que a maioria pensa, feita de multidões e multidões de rostos invisíveis.
Ele não entende nada sobre esquerda, direita, democracia, socialismo, nazismo e não sabe qual é o tipo de governo do Brasil. Ele não sabe quem é o presidente, quem é governador e muito menos o ministro da justiça. Na verdade, ele não sabe o que é um governador, nem o que faz um prefeito ou um vereador.  
Zezé não sabe nem de onde veio, imagina se iria ficar preocupado em decorar nomes, de pessoas tão distantes.
Nem em sua lembrança mais antiga ele reconhecia um rosto para chamar pai. 
De vez em quando, ao examinar essas lembranças antigas, ele via em alguns flashes uma mancha disforme, que sorria para ele. “Essa mancha deve ser a minha mãe.” – pensava, coçando a cabeça.
Ele, com vergonha, sempre acompanhado de uma risada nervosa, brinca dizendo para todo mundo que é filho de pai sem mãe e de mãe sem pai.
Zezé foi criado por uma irmã mais velha; Marcia, apenas três anos a mais que o irmão, um dia se viu abandonada não sabe por quem, de mãos dadas a um garoto, de não mais de três anos, andando com ela pelas ruas da cidade.
Juntos, eles cresceram comendo restos de comida encontrados em latas de lixo, dormindo em terrenos baldios, ou nos jardins das praças. Eles se cobriam com jornal e trapos velhos, e quando o frio apertava muito, eles cheiravam cola para sumir desse mundo um pouco.
Em um lindo dia de primavera, acharam o corpo de Marcia num matagal atrás do campo de futebol, comida pelos humanos e pelos vermes.
A polícia achou normal, afinal, tratava-se apenas uma menina de rua.
Ela foi enterrada como indigente, e com o caixão lacrado.
Zezé nunca ficou sabendo da passagem de sua irmã. Em sua cabeça, ele imaginava que ela tinha encontrado um homem bom, e que se esquecera dele, assim como seu pai e sua mãe um dia se esqueceram.
Andando sozinho em meio à multidão, Zezé reparou que de repente as pessoas estavam usando máscaras.
- Dona, - perguntou a uma mulher que saía de uma loja – por que todo mundo está usando esse negócio na cara?
- Você não tem máscara? – respondeu a mulher examinando-o de cima abaixo. – Não está com medo do covid?
            - Medo de quem?
            - Do corona moleque! Você não tem medo corona? Você tem que se cuidar!
            - Quem é esse corona?
            - O vírus chinês! Onde você estava nos últimos três meses, que não sabe disso!
            “Onde eu estava?” – pensou Zezé confuso.
Depois do sumiço de sua irmã, Zezé continuou sua vida. Uma vida difícil, porém, para ele, feliz! Afinal, ele já tinha quatorze anos e uma mulher: Carol.
Carol, tinha treze anos e os dois tinham um filho de quatro meses.
- Por que sô feliz? - perguntava Zezé para todos que diziam que ele andava sorrindo pela rua. – Sô feliz porque eu sô pai!  
Depois que o neném nasceu, a comida encontrada nas latas de lixo não estava dando para os três, por isso Zezé começou a fazer pequenos furtos para comprar marmitas.
Ele sabia que era errado roubar, pelo menos ele ouviu o padre falando isso em uma missa. Mas será que o padre sabia o que era passar fome?
De vez em quando eles mendigavam no calçadão ou na porta do mercadão. Carol, desnutrida, não tinha muito leite, mas Zezé ouviu um homem falando na banca de jornais, que frutas e legumes ajudavam a mulher a ter mais leite.
Zezé sabia que as pessoas jogavam muitas verduras boas no lixo do mercadão, por isso sempre passava ali em busca de alguma coisa que desse para comer e quando estava com sorte encontrava além das frutas e verduras, alguns pacotes de bolacha.
 Uma vez uma mulher que viu ele e Carol revirando o lixo e acharem um pacote de bolachas, disse para eles não comerem, porque a bolacha estava vencida e poderia fazer mal.
Zezé deu risada e virando-se para Carol falou:
- Faiz mal é a barriga da gente doê e a gente não tê nada pra comê.
- Liga não – respondeu Carol – essa mulhé deve sê lôca!
Na rua, vários moleques que viviam pela cidade, acabavam por formar uma família, que dormia, comia, cheirava cola e conversava junto. Uma vez, em uma noite de muito frio, eles fizeram uma fogueira dentro de um tambor na praça, e ficaram em volta jogando conversa fora.
- Hoje uma mulhé me falô que tem um chinês aí quereno matar todo mundo. – disse Zezé a seus amigos.
- É... – respondeu Carlim. – Eu também escutei essa conversa.
- Um homem lá na porta da padaria disse que eu tinha direito a ganhar seiscentos reais do governo. – falou Craudia.
- O quê? E cê acredita nessa besteira, Craudia! – falou Zezé se levantando e caminhando até mais perto do tambor. – Se o governo dar esses seiscentos reais pra você eu dou o rabo!
Enquanto os moleques davam risada da fala de Zezé, uma viatura encostou atrás da igreja, e dois policiais chegaram furtivamente até onde eles estavam.
 Zezé, Jão, Carlim, Cráudia, Alê, Xixa, Carol e outros tantos moleques se assustaram quando os policiais gritaram:
- Polícia! Ninguém se mexe!
- Calma senhor! – falou um dos moleques.
- O que vocês estão fazendo aqui e sem máscara!
- Desculpa senhor! Mas a gente não tem masc...
- Cala a boca moleque! Todo mundo tem máscara!
- Mas a gente não tem nem comida! - falou Zezé. Como é que a gente vai tê máscara?
- Já falei para calarem a boca! – gritou o policial. – Vocês não sabem que está proibido aglomeração?
- Proibido o quê?
- Aglomeração, moleque! Não sabe não?
Os meninos se entreolharam sem saber o que estavam fazendo de errado, e não entendendo nada da conversa do policial.
- E esse neném? – gritou mais uma vez o policial. - Vamos levar pro juizado!
- Meu filho não! - Falou Carol agarrando-se ao bebê.
- Vai ele e você! – respondeu o policial retirando o bebê das mãos de Carol enquanto perguntava. - Quantos anos você tem menina?
            Carol sem responder a idade, se atracou com o policial, e os outros moleques vendo a reação da amiga, também entraram na briga. Foi uma confusão!
Os dois policiais foram cercados, e para se defenderem, sacaram suas armas apenas para tentar impressionar e manter o respeito dos moleques, mas de repente ao tentar impedir o ataque de um dos meninos, um policial puxou o gatilho por instinto e atirou à esmo.
            Zezé que já tinha visto muita coisa nessa vida, viu sua mulher e seu filhinho caírem no chão.
Justamente quando Carol conseguiu retirar o bebê das mãos do policial, a arma foi disparada. O tiro atravessou os dois.
Os moleques foram para cima dos policiais e Zezé com uma paulada movida a muita raiva, acertou a nuca de um dos policiais, que caiu morto ao chão.
As pessoas chamaram mais policiais, chamaram a televisão, gravaram com seus celulares, postaram no Facebook, no Instagram, no Youtube e repassaram esses vídeos incansavelmente pelo Watsapp!
Os moleques ao final da confusão, foram presos e encaminhados para a delegacia mais próxima, para depois serem encaminhados para as instituições que cuidam de menores infratores.
Um jornal noticiou que a população havia reagido aos policiais porque estava revoltada contra governo federal, outro jornal disse que essa atitude era associada a segunda onda, agora de pobreza e dificuldades financeiras, que estava chegando após a pandemia.
Pessoas, todas donas da razão, brigaram em suas redes sociais dizendo que o presidente já havia dito que isso aconteceria, outros compartilhavam o vídeo da prisão dos moleques dizendo que eles eram de esquerda, de direita, armamentistas, revoltados, contra o governador, contra o prefeito, contra o presidente, e que principalmente, o mais grave de tudo! Eles estavam aglomerados e não estavam usando máscaras!
Hoje Zezé está preso. Deflorado, surrado, usado, pisado. Considerado um maldito por ter matado um policial.
Na detenção para menores infratores ele sonha com o dia em que vai sair, e que vai ver a luz do dia novamente.
Ele sonha em encontrar alguém que goste dele tanto quanto Carol gostava. Ele sonha em ter outro filho. Sonha também com sua irmã.
A saudade bateu em seu coração e ele deixando cair mais uma lágrima em seu rosto, deseja que Marcia esteja em um lugar feliz, com um homem bom ao seu lado.
Zezé sonha em um dia, ainda conhecer seu pai e sua mãe.
Ele pede, não sabendo bem para quem, proteger seus pais e seus amigos contra o tal chinês.
Seus hematomas doem, suas costas, suas costelas, sua cabeça... Tudo dói, mas, mesmo assim ele sonha.    
Afinal, ele é criança, e crianças sonham acordadas antes de dormir.
Sonhos de criança com as fantasias de criança.
Apesar de tantas feridas causadas pela sua pequena vida, a maldade ainda não impera em seu coração, suas revoltas são muito mais por instinto do que por maldade, pois mesmo com toda sua história, ele não deixa de ser apenas uma criança de quatorze anos.
Uma criança que sorri enquanto sonha. Que sonha com dias melhores.
E que quando consegue dormir, sonha com os Anjos!
         




terça-feira, 21 de abril de 2020

Economizar é fácil








Nesses tempos de pandemia a coisa não está fácil! Eu trabalho em uma loja de materiais para construção, e apesar de ser considerada uma necessidade essencial e estar funcionando desde o começo do “distanciamento social” até hoje, as vendas caíram muito, e é por isso que eu estou em fase de economia. Atualmente eu não estou gastando meu dinheirinho com bobeira, estou dando mais valor ao meu salário e por isso parece que o dinheiro está rendendo.
Como eu tenho que sair para trabalhar, combinei com minha esposa e minha mãe, que elas ficam em casa e só eu saio pra fazer tudo o que é preciso, e por isso, eu tenho ido muito ao mercado.
Sabe que indo ao mercado eu aprendi uma coisa bacana! A gente, quando está com dinheiro na mão, acaba sendo engambelado pelas propagandas e gasta muito, pagando mais pela "marca" do que pelo produto.
Alguns exemplos:
Maizena x amido de milho:
A Maizena na verdade é um amido de milho, sem nada a mais de um produto para o outro, e a diferença de preço entre eles pode chegar até a 5 reais.
Azeites conhecidos tipo Andorinha, Gallo, etc x azeites desconhecidos:
Se a gente ver a origem e ver que ele foi envasado nesse país de origem, que pode ser Portugal, Espanha, Itália, Grécia, Argentina ou Chile, e confirmar que a acidez se enquadra na categoria extra virgem, podemos comprar sem medo, e a diferença de preço pode chegar a 6 ou 7 reais.
Macarrão grano duro importado x macarrão grano duro nacional:
Aqui eu confesso que foi difícil pra mim que sou macarãozeiro, e que adoro um macarrão de origem italiana, mas mesmo assim eu comprei pra fazer um teste e me surpreendi, pois a qualidade do macarrão é idêntica, e a diferença de preço pode chegar a 10 reais.
Outra mentira, as vezes, são as tais embalagens econômicas, que de econômicas não tem nada, eu andei fazendo as contas e muitas vezes a gente confia que está pagando menos, mas está pagando bem mais.
Divida o preço da embalagem econômica pelo peso, e multiplique pelo peso da outra embalagem, e veja o quanto a gente é besta!
Esses são alguns exemplos, por isso, dá para economizar muito na hora da compra. Basta a gente não ter preguiça, não ser levado pelo lado emocional e prestar atenção.
Pense nisso.





domingo, 22 de março de 2020

Melhor ficar calado!







Nesses dias de quarentena, onde o watsapp está funcionando como nunca, eu recebi um vídeo se um senhor chamado Alexandre Terra, dono da rede Giraffas..
Ele até começa bem, falando sobre a crise que o país está passando por conta do coronavírus, e da crise econômica que vem após a pandemia passar.
Ele falou sobre os empresários, os boletos que os empresários terão que pagar, os fornecedores, as folhas de pagamento etc.
Tudo ia bem, até que ele disse: - E você, funcionário, que está aí em casa, curtindo, numa boa... (Nesse ponto o vídeo foi cortado.)
Olha a cabeça desse cidadão! Dá pra ver que o funcionário pra ele não passa de um número!
Claramente se vê que o que importa para uma pessoa dessa é talvez ter que fechar algumas de suas lojas, ele não está preocupado se o funcionário também tem boletos, se o funcionário tem casa própria e corre até risco de despejo, se o funcionário tem plano de saúde, se tem condições de passar ileso por essa crise.
O cara acha que o funcionário está em casa, curtindo, numa boa!
Percebe-se que esse cidadão não enxerga que sua fortuna existe sim pelo trabalho dele, mas que grande parte se deve ao trabalho de funcionários espalhados por suas lojas, que por sinal serve uma comida terrível de ruim, e esses funcionários ainda conseguem vender essa porcaria e juntar riqueza para o patrão, que agora, no primeiro momento de aflição, vem à público e grava uma sacanagem dessas.
E o infeliz ou outro igual a ele, tentando esconder a parte ofensiva aos funcionários, cortou o vídeo, mas por falta de capacidade, ainda deixou escapar essa frase.
Gente assim, pensando dessa forma, não é boa para o país, um cara desses acha que nós funcionários existimos apenas para extorquir os patrões.
Certamente muita gente desse tipo, viajou para o exterior, de férias, e trouxe esse vírus para o Brasil.
Não generalizando, porque quando digo: muita gente desse tipo, não quer dizer que todos que viajam são como ele.
Tem gente boa e que pensa diferente dele que também vai ao exterior e que trouxe o vírus pra cá, mas invariavelmente funcionário assalariado não consegue sair do país pra passear. Na verdade, é muito difícil tirar férias e ficar na própria cidade, acho que uns 80% dos brasileiros quando tiram férias ficam em casa e ainda fazem bicos em outros serviços. Pobre não vai passear na Europa, nos Estados Unidos e nem vai negociar na China, a não ser na base de muita economia e que isso seja um sonho de vida. Uma realização!
É triste ver a fala de uma pessoa dessas!
Já não comia essa comida ruim que vende nas lojas dele, agora, mesmo com dó dos funcionários, não vou gastar meu dinheiro colaborando com um egocêntrico desses.




domingo, 1 de dezembro de 2019

Xadrez






- Bom Dia!
- Hã? B… bom dia!
- O senhor poderia responder uma rápida pesquisa que estou fazendo?
- Que pesquisa?
- A diferença de oportunidades na sociedade brasileira em relação à raça e classe social.
- Nossa! Que bacana! Posso sim.
- Qual a sua cor?
- Como?
-Sua cor? Negro, branco, amarelo, pardo?
- Uai? A senhora não está me vendo aqui?
- Eu estou vendo, mas o senhor tem que declarar a sua cor.
- Hummm, então eu acho que sou pardo.
- Por quê?
- Porque sou moreno, bem moreno.
- Seu pai era negro?
- Não… na verdade meus avós paternos vieram já casados lá de Portugal, minha avó materna era italiana e meu avó materno era bem pardo, mais escuro do que eu, mas não era negro.
- Hummmm, então vou marcar aqui que você é pardo.
- Isso a gente pode ver só de olhar pra mim.
- Eu sei, mas a gente tem que chegar nessa conclusão depois de investigar direito, a nossa metodologia é científica.
- Ah tá… legal!
- Qual seu grau de escolaridade?
- Estou na faculdade.
- Certo, então vou marcar aqui branco.
- Branco? Mas eu não sou pardo?
- É pardo, mas com esse grau de escolaridade é branco.
- Como assim?
- Nossa pesquisa é científica, baseada na escola Juliana francesa e na escola de Frankfurt da Alemanha.
- Ah… Desculpa! Então deve ser coisa séria.
- Lógico que é séria. Posso continuar?
- Pode, uai.
- O senhor tem casa própria?
- Não, moro de aluguel.
- Então é negro.
- Negro? M… mas dona? Eu não era pardo e depois branco?
- Mas nesse quesito o senhor é negro!
- Aiaiaiaiai… vai, continua…
- Que tipo de música o senhor gosta?
- Rock, eu sou roqueiro.
- Ah… Branco…
- Branco?
- Isso, porque quem gosta de rock é branco! Negro gosta de pagode e axé…
- Dona, de onde é esse seu método científico mesmo?
- Escola Juliana francesa e de Frankfurt na Alemanha.
- E essa sua pesquisa é pra quem?
- Para um jornal e uma TV, que agora não posso revelar.
- Hummmm.
- Continuando: Que tipo de comida é a sua preferida?
- Feijoada.
- Negro.
- M… mas…
- Com que regularidade o senhor come feijoada?
- Umas duas ou três vezes no ano.
- E que tipo de comida o senhor mais come na sua casa?
- Arroz, feijão, carne, legumes, macarrão.
- Branco.
- Branco?
- É… Comida balanceada é de branco, mas vou colocar uma observação de subnutrição negra.
- Subnutrição negra!?
- É.
- Mas por quê?
- Porque o senhor come feijoada só duas ou três vezes no ano.
- Mas subnutrição? Olha o tamanho da minha barriga!
- Isso não importa na nossa metodologia científica.
- O senhor disse que gosta de rock.
- Disse e por isso a senhora me disse que sou branco.
- Certo! Aí, já está entendendo. Mas me diga, com qual frequência o senhor vai aos grandes shows de rock, tipo Lollapalooza, Rock in Rio etc?
- Nunca fui.
- Negro.
- Uai, mas quem gosta de rock na sua metodologia não é branco?
- É… mas quem não tem direito à cultura é negro.
- Olha dona, essa sua pesquisa é furada! Me desculpe, mas segundo a senhora eu sou pardo, branco e negro, dependendo da ocasião e isso não está certo!
- É a metodologia…
- Metodologia furada e ridícula! Eu não vou mais responder isso não!
- Branco!
- Hã?
- Pessoas avessas a pesquisas sociais são brancas...






segunda-feira, 7 de outubro de 2019

O brinde








- O senhor pensa no futuro?
- No futuro? Como assim?
- No futuro, na sua família, no dia que o senhor faltar?
- Faltar? Faltar de onde?
- Morrer.
- Mo... Morrer? Não eu nem pendo nisso.
- Mas o senhor pode morrer.
- Todo mundo pode! Você também pode.
- Isso, todos nós podemos morrer, e é por isso que eu estou lhe oferecendo essa oportunidade!
- Oportunidade de não morrer?
- Não... Oportunidade de dar um futuro melhor para sua família.
- Mas que oportunidade é essa? Um serviço que vai me pagar mais?
- Não... Um seguro de vida, em que sua esposa vai receber 1000 vezes o que o senhor pagou, e de brinde, um auxílio funeral, em que ela não precisa se preocupar com nada no dia em que o senhor falecer.
- Nossa, que brinde bom esse, hein?
- Na verdade eu me expressei mal, não é um brinde, é uma cortesia que nosso seguro oferece.
- Ah, tá... Olha, o senhor vai me desculpar, mas eu não estou pensando em morrer agora.
- Ninguém pensa, e é por isso todos são pegos desprevenidos.
- Eu me previno, como direito, faço exercícios, bebo socialmente.
- Tudo bem, eu acredito nisso, mas, mesmo assim a morte pode estar esperando o senhor ali na esquina. O senhor pode bater o carro, bater de moto, tropeçar e cair de cabeça na sarjeta, ter um ataque fulminante, pegar uma infecção generalizada, ser picado por um enxame de abelhas, levar um tiro de bala perdida, ter uma overdose!
- Overdose?
- De emoção... Overdose de emoção!
- Não, obrigado! Eu realmente não quero morrer agora, e minha família, se eu morrer, não está tão desamparada assim.
- E sua esposa?
- O que tem minha esposa?
- Já imaginou se ela faltar?
- Nunca imaginei.
- O senhor ganharia até 1000 vezes o dinheiro investido.
- E o brinde? O dela também tem brinde?





sexta-feira, 27 de setembro de 2019

Jogo que ninguém ganha.



Depois de um longo e tenebroso inverno, voltei!
A vontade de blogar apareceu por aqui.
Um abraço a todos, e obrigado por esperarem a volta.





As noticias que lemos e que escutamos no rádio e TV, dependendo de quem fala, é fake news!
Na verdade, esse tal de fake news, é um nome mais bonito que deram pra mentira.
A Globo, a Folha, O Estadão, o Uol e mais um tanto de gente aí, quer mais é que o governo se lasque, e que o Brasil vá junto com a vaca pro brejo, porque as tetas onde eles mamavam parece que secaram. 
Na verdade, a vaca das tetas grandes poderia ficar, e se só o Brasil for pro brejo já estaria bom pra eles.
O governo, por sua vez, tem a boca grande e a polidez de um neanderthal, e com isso, fica alimentando as manchetes maldosas dos desmamados.
A coisa tá feia! 
O Bolsonaro sabia onde estava se enfiando! As cobras estão enroladas para dar seus botes venenosos.
O triste, é que ninguém está pensando no povo! 
O governo, cada vez que reage de forma abrupta aos ataques da imprensa mafiosa, contribui para tornar o pais cada vez mais difícil de governar.
A imprensa mafiosa, casadinha com a esquerda vermelha, não deixam o governo em paz para governar, e não respeitam a maioria das pessoas que nas últimas eleições escolheram esse governo que aí está, e que por direito, tem que governar quatro anos, até o embate da próxima eleição!
Isso aliás é o que manda o regime democrático, onde a maioria sempre ganha.
Até onde eu sei, o regime político daqui é democracia, ou eu estou errado?
Sinceramente, todo o país só tem a perder com esse jogo de mentiras e ofensas. Ou melhor, já está perdendo.  
Eu, tu, ele, nós, vós e eles... Todos estamos perdendo!
Infelizmente.





terça-feira, 23 de abril de 2019

Saber amar


Gente tá meio grandinho, mas vale a pena ler! 






Cláudio acordou de um sono pesado, seu corpo inteiro doía, sua vista estava embaralhada, e seus sentidos pareciam estar desregulados.
Quando começou a recobrar a consciência ele firmou as vistas e observou ressabiado o lugar onde estava. À princípio ele julgou estar numa igreja. Notou que as janelas eram muito grandes, com vitrais coloridos. Cada uma delas era ladeada por colunas no estilo grego que pareciam segurar um teto muito, muito alto, tão alto que não dava para enxergar.
Cláudio coçou a cabeça sem entender o que estava acontecendo, quando ouviu uma voz, que vinha de uma pessoa, que parecia estar sentada em um trono, ou uma cadeira estilo Luiz XV talvez.
- Venha até aqui Cláudio.
“Esse cara me conhece? – pensou.”
- Conheço sim, eu sei tudo sobre você e sobre sua vida.
“Ele pode ouvir meus...”
- Pensamentos? – falou o homem precipitando-se em responder. – Posso! Até antes de você pensar!
Cláudio ficou de pé, e em passos lentos e cautelosos, se aproximou do homem. Quando chegou perto, suas vistas melhoraram e seus sentidos entraram nos eixos, por isso, ele pode ver, um homem que se parecia muito com o Jesus que ele sempre imaginava em pensamento, toda vez que orava.
- Je... Jesus?
- Sim, - respondeu um outro homem, que estava em pé, ao lado de Jesus, vestindo terno preto, camisa vermelha, com olhos esbugalhados, sorriso maroto e cavanhaque ruivo, - ele é Jesus e eu sou, como você costuma se referir a mim, o Capeta!
- Capeta! – falou Cláudio assustado, m... Mas o que vocês estão fazendo aqui juntos?
- Nós estamos aqui para julgar você! – respondeu o diabo. – Bem, - retificou – Ele vai te julgar, eu só vou apresentar seu histórico.
- Mas você? Apresentar meu histórico? Como assim? Você é o pai da mentira!
- Sim, - falou Jesus entrando na conversa – ele é o pai da mentira, mas também é o acusador! E mesmo eu te conhecendo, eu tenho que ouvir as acusações que pesam sobre você!
Cláudio fez cara de poucos amigos, mas em respeito ao que Jesus havia dito, franziu a testa e olhando para o diabo, esperou para ver o que ele tinha para apresentar de acusação.
- Eu tenho apenas uma acusação!
Cláudio sorriu e pensou: “Só uma acusação? Então está melhor do que eu imaginei.” – depois lembrando-se de que Jesus podia ouvir seus pensamentos, disfarçou e abaixou os olhos com vergonha, e pensou forçadamente: “Desculpe aí, Jesus...”
Minha acusação é simples – disse o diabo - eu não consegui encontrar uma pessoa, na Terra inteira, que você realmente amasse de verdade.
- Como? Você está louco Capeta! E meu filho?
- Seu menino ouviu a vida inteira que ele não te dava prazer porque ele não gostava de futebol.
- Uai! Futebol é coisa de pai pra filho!
- Mas ele não gostava e você não aceitava isso! Outra coisa, você achava estranho que com 18 anos ele ainda não tenha nenhuma namorada. Você implicava que ele ficava trancado no quarto lendo, você implicava que ele não cuidava do cachorro!
- Mas um homem tem que namorar! – respondeu Cláudio encolhendo os ombros. - Ficar trancado no quarto não é bom, porque pode dar depressão, e cuidar do cachorro é o mínimo que ele poderia fazer...
- Você implicava com o cabelo, com as roupas e com as músicas que ele gostava!
- Cabelo grande não é coisa de homem, roupa preta, camisa preta, calça preta é coisa sua! Olha aí a sua roupa! – disse Cláudio olhando para Jesus e apontando para o diabo. – E rock, a gente sabe que também é coisa sua!
O diabo então, sorriu, e olhando para Jesus, que acompanhava a tudo apenas observando falou:
- Não disse para o senhor? Ele não ama ninguém!
- Como não? – falou Cláudio ficando nervoso. – E a minha mulher? Vai falar que eu também não amava ela?
- Você implicava quando ela cozinhava escutando música, quando ela passava desinfetante com cheiro de lavanda na casa, quando ela dormia só de calcinha e quando ela colocava pimenta do reino na comida.
- Mas é lógico, - respondeu Cláudio abrindo os braços – vamos por partes: Cozinhar escutando som tira a concentração do serviço.
- Mas ela gostava.
- Desinfetante com cheiro de lavanda é terrível.
- Mas ela gostava.
- Dormir de calcinha não é legal, porque, porque, porque não é...
- Mas ela gostava.
- Pimenta do reino faz mal para os rins.
- Mas ela gostava!
- Mas eu não gostava e por isso explicava pra ela.
- Ah... Explicava mesmo, - disse o diabo com cara de dó – explicava sim... Da mesma forma que você não deixava ela trabalhar e não dava dinheiro pra ela comprar as roupas que queria, não dava dinheiro pra ela ir na academia, não dava dinheiro pra ela ir no salão de cabeleireiro... Né?
- Pra quê? Eu amava ela do jeito que ela era. Pra quê roupa nova todo mês?
- Toda década você quer dizer?
- Olha ele falando mentira! – disse Claudio voltando-se para Jesus, que não aguentou e começou a sorrir.
- Cláudio, - disse o Capeta se aproximando – eu quero a sua alma, porque você na verdade nunca amou ninguém no mundo! Você amava as pessoas do jeito que você queria que as pessoas fossem.
- Hã? Como assim?
- Você queria que seu filho fosse diferente, você nunca se interessou em saber o que ele achava disso. Você nunca tentou escutar as letras dos rocks que ele escutava, que para o seu governo eram em sua maioria música gospel. Você nunca perguntou porque ele não tinha namorada, você não percebeu que ele era muito tímido e inseguro, você nunca deu apoio pra ele, muito pelo contrário, você queria mudar ele, para que ele fosse do jeito que você queria que ele fosse!
- Mas, Jesus... – disse Cláudio em tom de súplica.
- Espere ele terminar, depois você fala.
- Obrigado Jesus, - falou o diabo continuando: - Você não amava a sua mulher do jeito que ela é, você queria que ela se enquadrasse na forma que você queria que ela fosse! Você não se perguntava se ela ficaria feliz com outro corte de cabelo, se ela ficaria feliz em escutar música enquanto cozinhava, se ela ficaria feliz em compra roupas novas de vez em quando, se ela ficaria feliz se você a respeitasse como ser humano, que tem vontades, desejos e direitos! Você não amava ela, você amava o protótipo de mulher que você imaginou na sua cabeça!
- Mas Jesus... – disse novamente olhando para o filho do Pai.
- Cláudio, eu acho que a coisa está pesando contra você...
- Mas Jesus, eu amo o senhor e te aceitei como meu único e suficiente salvador, por isso eu sou um salvo e não vou para o inferno!
- Mentira! –disse o Capeta. – Você aceitou o Jesus que você instituiu aí dentro da sua cabeça, que é um Jesus que tem que mandar sua sogra pro inferno, que tem que jogar um raio na cabeça de cada traficante, que tem que mandar um tsunami em todos os países muçulmanos, que tem que justificar as suas chatices com as pessoas, que tem que justificar as suas verdades e seu jeito sistemático, que tem que mandar um infarto no seu vizinho, que não pode salvar nenhum católico, nenhum espírita, nenhum índio, porque na sua opinião isto estaria fora da Bíblia, e você nunca aceitaria ver essas pessoas no céu! Você quer um Jesus que mande pro inferno quem gosta de rock, quem gosta de pagode, quem bebe meia cerveja, quem usa biquíni fio dental na praia, quem acende incenso mesmo que não seja por religião, enfim, você quer enquadrar até Jesus dentro dos seus padrões! Então meu amigo, você não aceitou Jesus coisa nenhuma...
Nesse momento, Jesus se levantou, e com olhar triste se dirigiu até Cláudio, enquanto uma voz dizia insistentemente: - Cláudio... Cláudio, Cláudio... Acorda Cláudio!
Ele acordou com um chacoalhão de sua esposa.
- Acorda Cláudio, você não ouviu o despertador? Você está atrasado para o serviço.
- Hã? Ser... Serviço? – falou sorrindo!
- É serviço! Está ficando bobo?
Cláudio respirou fundo, e pensou: “Ufa! Era só um sonho.”
Naquela manhã, Claudio deu o cartão de crédito para sua esposa, pediu pra ela gastar com ela, disse pra ela comprar umas roupas novas, disse pra ela entrar na academia e colocar o tempero que quiser na comida. Antes de sair pra trabalhar, foi até o quarto de seu filho, deu um beijo e um abraço nele, e pediu:
- Filho, me empresta aquele pen drive com aquelas músicas que você estava escutando ontem?
- Porque? O senhor vai jogar fora?
- Nunca filho, é um gosto seu e eu resolvi te respeitar e te amar do jeito que você é!
Cláudio fez a pazes com sua esposa, seu filho, disse o quanto os amava e saiu para o trabalho. Antes de sair, colocou o pen drive do menino no rádio do carro, e fazendo uma careta com os primeiros acordes da guitarra, pensou: “Eu amo esse menino de gosto ruim pra música, mas eu o amo, mesmo assim...”