terça-feira, 11 de julho de 2017

Vida perfeita






Rodolfo Siqueira estudava dia após dia para passar na OAB, ele queria muito isso, e todos os dias saia do trabalho de caixa no banco, e mergulhava nos livros.
Zé Siqueira, estudava todos os dias um jeito de ser mais feliz e viver a vida. Todos os dias ele saia do trabalho de servente de pedreiro e passava no bar pra bater papo com os amigos.
Rodolfo Siqueira depois de três anos estudando, fazendo cursinho, se abstendo de festas, namoros, bebidas e amigos, finalmente passou e agora exige que o chamem de “doutor” Rodolfo Siqueira.
Zé Siqueira depois de três anos de diversão em todos os bailes, forrós, pagodes, churrascos e festas possíveis, resolveu namorar sério com Judite, se casou, teve um filhinho e agora exige que o chame de papai.
Doutor Rodolfo Siqueira estudava dia após dia para passar no mestrado e depois no doutorado e depois no MBA. Ainda não tinha vida social, mas se vestia bem, tinha um bom carro, escritório e por isso chamava atenção de algumas mulheres.
Zé Siqueira ainda estudava um jeito de ser feliz, mas agora ele queria que Judite e Zézinho Siqueira, também fossem felizes junto com ele. Vivia fazendo festa em casa, churrasco com os amigos, saia com a esposa quando a sogra podia tomar conta do Zézinho, e apesar da vida dura no serviço, ele conseguia se divertir muito.
Rodolfo, ops! Doutor Rodolfo Siqueira, se casou com uma linda mulher, que se vestia muito bem, que era super educada, bem relacionada, que fazia exercícios e dietas regularmente, que gostava de ir ao cabeleireiro, manicure, massagista, cineminha com as amigas, cafezinho com as amigas, loja de roupas, de bolsas, de carros e de escolher empregadas. Tinha uma para lavar a roupa, outra para arrumar a casa, outra para fazer comida, um rapaz para dirigir seu carro e outro para fazer a jardinagem da casa.
Judite gostava de estar perto de Zé Siqueira, seu marido tomava uns gorós e dava trabalho de vez em quando, mas ela achava muita graça, e sempre tinha uma boa história pra contar. Ela pintava seu cabelo, fazia sua unha, trabalhava de diarista, lavava a roupa de sua família, fazia comida e adorava deixar a janta prontinha para a hora que Zé Siqueira chegasse à noite. Ela andava muito de bicicleta, o que a ajudava a manter a forma, e adorava cuidar se suas plantas no fundo do quintal e de ter uma pequena horta de temperos, plantada em potes de margarina.
O doutor Rodolfo Siqueira morreu com o sentimento de dever cumprido. Estudou, se formou, montou escritório, chegou a ser promotor, construiu uma bela casa, casou-se com uma linda mulher, teve um filho que não viu crescer, mas pagou escola, caratê, judô, natação, vídeo game, celular e psicólogo pra ele. Quando morreu, sua esposa esperou um ano de luto e se casou com outro doutor, que somou seus bens aos bens que doutor Rodolfo Siqueira havia deixado.
Zé Siqueira morreu feliz! Ele queria ser feliz a vida toda mesmo. Deixou para a esposa uma casa na COHAB, mas que era bem cuidada e até bonitinha. Deixou um fusca vermelho, e uma TV de 28 polegadas. Seu filho o acompanhou desde pequeno para as obras onde trabalhava, para as pescarias que fazia com seu compadre João Magrelo, para o futebol que jogava nos finais de semana, para as festas que sempre arrumava todo final de semana e por isso os dois se tornaram os melhores amigos um do outro.
Zé morreu e sua esposa Judite nunca mais se casou. Até teve uns namoricos, mas ela achava que o melhor homem do mundo havia sido Zé Siqueira, e por isso ele seria insubstituível em sua vida.
No dia do enterro do doutor Rodolfo Siqueira, a viúva estava dura, centrada, de cara séria, mas aguentando a dor, e seu filho dizia a todos: - Meu pai morreu e a gente nem se conhecia direito.
No dia do enterro de Zé Siqueira, a viúva Judite deu o maior escândalo, desmaiou, teve se ser socorrida pelo SAMU, e tomar remédio de pressão. Zézinho estava inconsolável, chorando copiosamente ao lado do caixão.
Os amigos do Zé contavam piada e diziam como ele era um cara bacana, e que certamente faria uma falta danada.
Os dois viveram... Certamente se realizaram de maneiras diferentes. Talvez uma mistura dos dois seria uma vida perfeita, mas no caso dessa mistura não poder ser feita, acho que o Zé sofreu mais e sorriu mais que o doutor.
Hoje o filho do doutor Rodolfo Siqueira é conhecido como doutor fulano de tal, e o filho do Zé Siqueira, que na verdade se chama Paulo, é conhecido como Zézinho Siqueira, filho do amigo que faz uma falta danada.





5 comentários:

  1. Como vivi no meio de advogados (e nao suportei),fiquei com pena do Dr Rodolfo que passou pela vida sem apreciar a simplicidade, o gosto bom.que a vida , mesmo dura pode ter! Adorei! Abração praianos,chica

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  2. Vi vários comentários seus em blogues que comento, e senti curiosidade em vir conhecer seu espaço, de que gostei muito.
    Achei esta história uma delícia!
    Comparar os dois Siqueiras relatando-nos as vidas de um e outro... põe-nos a pensar...
    Será que vale a pena fazer tanto esforço na vida para ser "alguém" ou é preferível viver e limitarmo-nos a ser felizes???
    Fica no ar a pergunta...

    Fiz-me sua seguidora para não lhe perder o rumo...
    Se quiser fazer o mesmo, visitando o meu cantinho, dar-me-é muito prazer.

    Continuação de boa semana.
    Beijinhos
    MARIAZITA / A CASA DA MARIQUINHAS

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  3. Adorei, cada um escolhe a forma que vive.
    Tem gente acumulando tanto conhecimento e bens e nada disso faz a diferença no caixão.
    Importante é conquistar as coisas, mas viver de forma levinha e divertida.

    bjokas =)

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  4. Dois Siqueiras em polos opostos. Não tenho dúvidas do que o Zé, tenha sido muito mais feliz, pese a pobreza e as dificuldades da vida. A felicidade como eu a entendo, não advém de cursos, dinheiro, e posição social. Ela é um estado de alma, que se tem ou não. E quando se tem, cria-se uma aura de simpatia, e toda a gente à nossa volta age e sente de acordo. Isto é o que eu penso, daí que eu não tenho dúvidas sobre estes dois homens.
    Um abraço

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  5. Se houvesse a vida perfeita, a vida nem tinha piada...
    Uma grande percentagem de pessoas não escolhe a vida que tem, a vida é que vai escolhendo as pessoas (criança de favela quase nunca chega a doutor...).
    Magnífica crónica, gostei imenso.
    Caro André, um bom fim de semana.
    Abraço.

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