terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Santa ignorância Batman; final






            Eu comecei um raciocínio aqui no blog a duas postagens atrás, me baseando no documentário “Decifrando heróis” do canal History, onde se mostra que os super heróis foram usados pelo governo americano ao longo da história para massificar ideias e diretrizes de conduta para a sociedade americana, e que de tabela (essa conclusão é minha), as sociedades de outros países acabaram incorporando esse mesmo pensamento, e que por isso o mundo se americanizou tanto.
            Depois eu coloquei na conversa, alguns artistas brasileiros que ficaram famosos por fazerem anti-heróis, como eles mesmos classificaram seus personagens, que através do humor, quebravam todas as regras do que hoje se chama politicamente correto.
            Nos anos 80 pelo menos 5 de cada 10 crianças e adolescentes tinham o hábito de ler histórias em quadrinhos, e hoje, infelizmente esse dado despencou. Eu conversei com um amigo dono da banca de jornais e ele me disse que quem lê hoje em dia é o cidadão de trinta e cinco anos pra frente, e que a moçada não quer mais saber de quadrinhos. Lógico que alguns gatos pingados adolescentes ainda acompanham tudo o que é lançado, colecionam, debatem, discutem, entendem, mas não tem 20 amigos reais, (não virtuais), que tem o mesmo gosto que eles. Por isso, pelo fato de ser uma criança dos anos 80, e saber da situação dos quadrinhos hoje em dia, é que optei por esse tema.
            Usei os quadrinhos para levantar a ideia de que a arte pode servir tanto para construir, como para destruir ideias e paradigmas, mas poderia falar de cinema, literatura, jornalismo, televisão, que tudo daria na mesma conclusão.
            Infelizmente nossos intelectuais se infectaram com o gramscismo, que é uma teoria elaborada pelo filósofo marxista Antônio Gramsci, onde a desconstrução da sociedade é necessária para a reforma da mesma nos moldes marxistas. Nossos políticos, principalmente do PSDB e PT, ao atingirem o poder começaram lenta e paulatinamente essa desconstrução, e um dos pilares fundamentais da sociedade que é a educação foi o mais atingido. Nossos artistas e intelectuais, (logicamente que não generalizando), embarcaram nessas ideias e influenciaram muita gente, talvez até inconscientemente trabalhando para esse caminho.
            O que eu achei engraçado aqui nessas postagens é que alguns amigos comentaram que realmente os heróis americanos influenciaram a sociedade do mundo em geral, mas não concordaram que os quadrinhos brasileiros influenciaram a sociedade daqui! Acho isso uma incoerência de pensamento ou algum tipo de bairrismo, mas isso é facilmente explicado quando a gente nota que essas pessoas agiram com o coração, e por isso enxergaram o micro e não o macro.
            Aliás, nossos maiores erros existem porque sempre enxergamos o micro, que nos é importante e pessoal, e não enxergamos o macro, que tem uma importância muito maior, mas é impessoal num primeiro momento, mas que se formos seguindo as pistas, vamos ver que somos sim indiretamente atingidos.
            Não dá dizer que a imprensa e a mídia, seja ela escrita, falada, jornalística ou artística não influenciam o cidadão comum.
            Eu acho até bonito as pessoas inocentemente lutarem para defender a ideia de que seus artistas e ídolos, escondidos atrás da palavra ARTE, se tornam seres além do bem e do mal, e por isso, incontestáveis, mas esse modo de pensar não cabe mais nos dias de hoje.
            Não se trata de caretice, e nem chatice, nem puritanismo, se trata de dialogar e olhar para o macro! Nossa arte está doente, nossa escola está doente, nossa sociedade está doente, e nós só estamos olhando para o nosso mundinho. Eu me incluo nessa.
            Um amigo que atacou ferozmente essa série de postagens, me chamou em off no facebook e me parabenizou por ter a coragem de falar contra a maioria, e disse que mesmo não concordando 100% com o que eu disse, o nosso bate papo aqui serviu para ele pensar em coisas que nem tinha se tocado. Fiquei feliz com isso, pois foi essa mesma, a ideia da postagem.
            Obrigado pelos seus comentários, afinal, à favor ou contra, nós estamos dialogando e isso é bom!





terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Santa ignorância Batman, parte 2

            





            Quem leu a última postagem, sabe que eu comecei a falar sobre os super heróis através da história e como eles foram utilizados pelo governo americano para influenciar e ditar algumas normas dentro da sociedade americana, e como que de tabela, as sociedades de outros países inclusive o Brasil, também foi influenciado por essa forma americana de pensar.
            Na década de 80, eu e quase todos os meus amigos éramos devoradores de gibis e todos os meses corríamos até a banca do seu Chico atrás das revistas do Homem Aranha, Heróis da TV, Superaventuras Marvel, Conan, Batman, Liga da Justiça, quadrinhos Disney, Capitão América, Aventura e Ficção, Hulk, e por aí vai.
            No Brasil a indústria de quadrinhos quase não existia no que se diz respeito a heróis, mas de vez em quando aparecia uma revista de algum personagem imitando o modelo americano, que infelizmente, depois de três ou quatro edições saia de circulação. Digo infelizmente, porque algumas dessas histórias e personagens, se fossem americanos, e publicados pela Marvel ou DC, certamente ganhariam o grande público, mas por aqui eles não tinham vez. Quando as editoras brasileiras investiam em histórias em quadrinhos nacionais, elas apostavam nos anti-heróis, desenhados por humoristas vindos do antigo Pasquim, que era um jornal da época mais viva da ditadura militar, e que tinha identidade esquerdista, com ideias de esquerda, humor de esquerda e ideologia de esquerda.
            Angeli, Glauco, Laerte, Spacca, Paulo e Chico Caruso, Jaguar, Luiz Gê, entre outros, tinham prestígio e por isso, as revistas Chiclete com Banana, Piratas do Tietê, Níquel Nausea, Geraldão e Circo, que eram revistas feitas por esses artistas, circularam por muito tempo e tinham muitos fãs, inclusive eu, que confesso que mesmo dialogando aqui e fazendo o advogado do diabo, ainda sou fã desses caras.
            A grande diferença entre os super heróis americanos e essas revistas, é que enquanto os heróis queriam ajudar a sociedade a lutar contra o mal, esses anti- heróis queriam anarquicamente destruir a sociedade e os valores da família, política, religião e bons costumes, sob a ideia de fazer humor pelo humor ou protestar em forma de quadrinhos, atacando o que se achava antigo, imperialista e reacionário.
            Confesso que eu achava muito divertidas essas revistas e que dei muita risada com os Skrotinhos, com Bob Cuspe, com os Piratas do Tietê, com o Geraldão e com Los três amigos. Hoje, vendo o Bob Cuspe, cuspindo na cara dos seus desafetos, vendo o Geraldão tarado pela própria mãe, drogado, andando pelado pela casa, vendo a Rebordosa bêbada vivendo de sexo e eternamente de ressaca pelada dentro de uma banheira, eu não acho mais tão legal como achava naquele tempo.
            Pra gente continuar a nossa conversa interativa eu vou fazer algumas perguntas.
            A desconstrução da nossa sociedade, onde o adolescente está alienado, as famílias estão se desmantelando e a escola não consegue mais fazer o básico, que é alfabetizar ou ensinar uma simples tabuada, tem influência desse tipo de arte?
            Se tiver influência, na sua opinião, será que o intelectual da época, (geralmente de esquerda), trabalhou conscientemente nessa desconstrução?  
            O autor de quadrinhos brasileiro, publicou anti-heróis como uma forma de retaliação ao herói americano?
             Obrigado pelos comentários na postagem anterior. Estou imaginando que com mais uma postagem no máximo duas, nós esgotamos esse pensamento, por isso, espero seus comentários pra gente ver se fecha esse raciocínio junto. Um abração!



              

sábado, 27 de janeiro de 2018

Santa Ignorância Batman






Ontem eu assisti um programa no canal History 2 chamado “Decifrando heróis.” O programa analisava a história da sociedade americana e a relação dela com os heróis da Marvel e da DC.
Na época da segunda Guerra apareceu o Capitão América e a Mulher Maravilha para salvar o mundo contra os nazistas, depois da guerra o Super Homem foi um bom moço que ajudou a educar os meninos e meninas com bons modos e costumes. Na década de 60 o Homem Aranha apareceu refletindo a sociedade jovem daquela época, com os mesmos problemas e questionamentos de um menino de 16 anos.
Para os meninos nerds e excluídos, apareceu o Hulk e o Coisa, que eram feios e excluídos, para os negros apareceu o Pantera Negra e o Falcão, e mais tarde quando o movimento negro ganhou mesmo força, apareceu o Luke Cage.
Depois da Guerra do Vietnã eles capricharam no Homem de Ferro, que tinha em Tony Stark um vendedor de armas arrependido e por aí vai.
Eu, que sempre fui fã de histórias em quadrinhos desde criança confesso que fiquei um pouco decepcionado. Eu não sabia que os heróis de certa forma serviram para manipular, ou pelo menos instituir uma forma de pensar, que era a forma que o governo queria que as pessoas pensassem. Meu Deus, como eu sou inocente.
Mas depois, nas minhas reflexões eu fiquei ainda mais chateado quando percebi que o programa era americano, falando sobre heróis americanos, e que eu como brasileiro, menino que ia na banca de jornais do seu Chico comprar gibis desses heróis, também fui manipulado e nem era a forma que o meu governo queria que eu pensasse!
Mas e hoje?
Hoje eu acho que os meninos e meninas estão pensando e agindo da forma que o nosso governo quer que ele pense. Hoje os nossos meninos chegam ao sexto ano do primeiro grau sem ser alfabetizado! Você acredita nisso? Pois é, eu também não acreditava até que uma professora me provou que trabalha com alunos de 16 e 17 anos, que estão na escola desde crianças, que não tem problemas psicológicos e que ainda não são alfabetizados!
Esse texto agora vai se desdobrar em um problema maior, e por isso, eu vou me dar ao luxo de escrevê-lo em capítulos, por isso na próxima postagem nós vamos tocar em feridas.
Pensem no que eu escrevi e comentem pra gente chegar junto a uma conclusão na próxima postagem.




          

domingo, 21 de janeiro de 2018

De volta ao batente






Estive fora por uns dias, mas enfim estou de volta!
Nesse final de ano tive uns contratempos aqui em casa, com uma reforma e pintura da casa toda.
Minha esposa e meu filho não se adaptaram com o cheiro da tinta, e a gente teve que fazer umas visitinhas no pronto socorro de madrugada mais de uma vez.
Depois desse período de reforma que durou mais de um mês, eu recebi a visita de uns parentes que vieram aqui pra casa passar o fim de ano. Não é ruim receber parentes em casa, afinal eles são da família e a gente fica feliz em vê-los, mas todo mundo sabe que a rotina e as prioridades do dia a dia mudam com essas visitas.  
Vencidas essas duas etapas, quando eu achei que iria zerar o videogame e voltar a vida normal, para poder escrever meus contos, crônicas e fazer meus desenhos com a paz e bênçãos da santa rotina, meu notebook de neanderthal resolveu dar um piripaque e teve que ser internado uns dez dias para o técnico ver se conseguia ressuscitá-lo.
Meu notebook tem pelo menos dez anos, ele é da marca Positivo, tem dois gigazinhos de memória e ainda é um dual core, ou seja, é um sobrevivente nesse mundo desumano de tecnologias novas e novíssimas. Hoje em dia o último lançamento fica velho num piscar de olhos, e todas as tecnologias inventadas ficam tão obsoletas de um dia para o outro que ninguém quer mais usar. Mas para minha alegria, meu notebook de neanderthal resistiu firme e forte, e renasceu das cinzas mais uma vez.
Tem um amigo meu que é técnico de computador, que fala que se meu computador fosse uma pessoa, ele teria pelo menos uns trezentos anos! Olha só... Trezentos anos com corpinho de cento e cinquenta.
Mas no momento, ainda bem que deu pra ressuscitar o velhinho, porque eu gastei tanto com essa reforma, com remédios e parentes, que estou descapitalizado por alguns meses, e não ia dar pra comprar um note novo.
Bom gente, toda essa ladainha que escrevi aí, é pra falar pra vocês que voltei a blogar, que vou visitar todo mundo de novo, e que espero a visita de vocês aqui! Se por acaso eu sumir novamente, é porque o notebook não resistiu, ou porque eu matei algum parente.
Um abraço a todos e bem vindos as blogagens de 2018!







sábado, 18 de novembro de 2017

Contagem regressiva



Amigos, tudo bem?
Essa é a capa, e o prólogo do meu novo livro que está na reta final.
Confesso que estou feliz com o resultado, e espero, que quando ele estiver pronto, eu consiga publicá-lo rapidamente.
Resolvi postar aqui, o prólogo, para vocês sentirem o gostinho e quem sabe começarem a torcer por mim e desejar que ele saia do projeto e vire logo um livro de verdade.
Muito obrigado a todos que sempre me incentivam a escrever. Sem vocês do blog, eu acho que não gostaria tanto de escrever, como aprendi a gostar, postando por aqui, minhas Verdades e Bobagens.
Um grande abraço!





Prólogo

Três de fevereiro de dois mil e sete, dezoito e trinta. Um final de tarde quente, e úmido.
A cidade de São Paulo em horários de pico é sempre cruel para as pessoas. Geralmente, enormes engarrafamentos param a correria dessa grande metrópole, que desacelera bruscamente sua forma de viver o dia a dia. Se alguém depender das grandes vias de acesso para chegar a algum lugar com rapidez, certamente se frustrará, pois nesses momentos a cidade não reconhece pressa, não reconhece status, não reconhece posição social ou econômica. Todo mundo, sem distinção, fica aprisionado.

*****

- Marcos, onde você está? Porque está demorando tanto?
            - Desculpe doutor Flavio, mas estou preso no trânsito. Não tem como eu fazer nada.
            - E a Cristina? Como ela está?
            - Está se contorcendo aqui; a bolsa já estourou e ela está em trabalho de parto.
            - E agora? Como a gente vai fazer? Não dá pra buzinar, pedir ajuda, cortar o trânsito? Fazer alguma coisa?
            - Não dá doutor, o trânsito está parado em todas as direções. Não tem como passar nem com bicicleta, imagine de carro.
            - Mas que merda Marcos, arruma um jeito aí, o que não pode é aceitar o engarrafamento numa situação dessas!
            Marcos engoliu em seco. O parto da filha de seu chefe estava marcado para dali a três dias. Já estava tudo calculadamente acertado com o hospital do Morumbi e com a agenda do doutor Flavio. Ele chegaria dos Estados Unidos, onde estava á trabalho, no dia quatro de fevereiro, sua esposa seria internada no dia cinco, e daria à luz no dia seis, que era o mesmo dia do aniversário de Cristina. Mas o destino quis diferente, a bolsa se rompeu e Marcos teve que sair às pressas com sua patroa se contorcendo de dor, rumo ao hospital.
            - O senhor tem uma sugestão doutor?
            - Como eu teria uma sugestão se nem no Brasil eu estou? A sugestão quem tem que me dar é você, que está aí vivendo a situação.
            - Acho que a única solução é pegar o próximo desvio e seguir para o hospital Bento Cardoso que fica a uns dez minutos daqui.
            - O quê? Bento Cardoso? Mas você ficou maluco! Você quer levar a minha esposa, para ter a minha filha, no hospital Bento Cardoso?
            - O senhor pediu a minha sugestão não pediu? A dona Cristina está quase desmaiando de dor aqui no banco de trás...
            Marcos esperou a resposta do patrão sobre o que deveria fazer; dava pra escutar a respiração ofegante do outro lado da linha. Mas de repente a patroa no banco de traz soltou um gemido de dor tão assustador que o motorista não aguentou esperar mais:
            - E aí doutor Flavio? O que o senhor quer que eu faça?
            - Tudo bem, toca para o Bento Cardoso.

*****

            O hospital Bento Cardoso é um dos hospitais mais procurados pela população da cidade, funciona como se fosse a “Santa Casa” das cidades do interior. Quando alguém tem, qualquer coisa, de dor de barriga a derrame cerebral, o primeiro lugar que se lembra, é o hospital Bento Cardoso. Nesse dia não era diferente.
            - Misericórdia gente, por favor, alguém faça alguma coisa. – gritava Luiz nervoso. – Minha esposa vai ter minha filha agora. A bolsa estourou e ela está com muita dor.
            - Já chamei o médico senhor - falou o enfermeiro, ajeitando um colchonete num canto do corredor. – Não tem nenhum leito sobrando, e o médico que vai fazer o parto de seu filho está acabando de atender um rapaz que chegou baleado.
            - Mas como isso é possível? – falou Luiz gesticulando com o enfermeiro. – Minha filha vai nascer aqui no chão do hospital?
            - Senhor! – disse o enfermeiro tentando ser paciente - nós sabemos que é uma visão terrível, mas, por favor, deite sua esposa nesse colchonete.
            Luiz quis esbravejar com o enfermeiro, mas engoliu em seco quando viu que do lado de sua esposa, outro enfermeiro ajudava mais uma grávida a deitar-se em outro colchonete.
            Da porta do hospital, outra enfermeira gritou:
            - Arrumem mais um colchonete do lado das grávidas que vem chegando mais uma!
            Era Cristina, que vinha carregada por Marcos que falava desesperado:
            - Ela desmaiou! A bolsa já arrebentou a mais de meia hora e ela está fraca demais para dar à luz sozinha!
            - Tudo bem senhor! – falou a enfermeira guiando Marcos. – Deite-a nesse colchonete.
            - No chão do corredor? – perguntou Marcos aflito.
            - Senhor! – disse um médico que chegava se arrumando para fazer os partos. – Dê uma olhada á sua volta. A gente faz o melhor que pode, e nesse momento o melhor é esse corredor.
            Marcos levantou o olhar e reparou que o hospital estava realmente superlotado. Pessoas com fraturas expostas, baleadas, crianças chorando, pessoas desmaiadas nas poltronas que ficavam num tipo de sala de espera, choro de mães, de pais, correria de médicos e enfermeiros, e pelo menos cinco grávidas deitadas naquele grande corredor.
            Nesse momento mais três médicos apareceram colocando luvas e máscaras. Dava pra ver que um deles era anestesista, pois trazia seringas e vários frascos em suas mãos. Outro munido de um bisturi, entregou-o a uma das enfermeiras e falou:
            - Cesariana só em último caso!
            A enfermeira balançou a cabeça afirmativamente e depois de dar uma olhada no estado das parturientes, disse:
            - Doutor, eu acho que devemos começar por essas duas, uma está quase desmaiada e a outra está muito mal também.
            - Beleza! – falou um dos médicos, que parecia mais velho, se abaixando e ficando de cócoras. – Vou ver se reanimo essa aqui. – depois, virando-se para um médico bem jovem e com cara de assustado, falou: - Cuida dessa aí, se precisar de ajuda, me fala.
            Marcos e Luiz tremiam de medo. Um de ser demitido e processado pelo patrão, além de temer pela vida de sua patroa, e o outro de desespero ao ver sua esposa passar por aquela situação crítica e humilhante. Pra piorar, essa última frase que o médico mais velho disse ao médico do lado não ajudou nada para acalmá-los, pois denotava que além das condições ali serem precárias, nem todos os médicos estavam acostumados a fazer um parto.
- Moça! Moça! – falou o médico dando pequenas palmadas no rosto de Cristina. – Preciso que acorde! Vamos, chegou a hora de você trabalhar, senão seu filho não vai nascer.
            Cristina escutava uma voz distante e sentia que alguma coisa batia-lhe no rosto. Aos poucos seus sentidos foram voltando e ela conseguiu enxergar à sua frente uma pessoa vestida como se fosse um médico.
            - Hã... o... onde estou? – perguntou Cristina indecisa.
            - Está no hospital, eu sou médico e agora chegou a hora de você fazer força pra seu filho nascer!
            Do lado de Cristina outro médico falava para Raquel a mesma coisa:
            - Como é seu nome?
            - R... Raquel...
            - Então Raquel! – disse o médico segurando-lhe a mão e apertando. – Faça força! Respire, e faça força! Seu filho já está passando da hora de nascer.
            Os doentes e feridos que esperavam para serem atendidos, fizeram uma pequena aglomeração ao redor das mulheres grávidas e um dos enfermeiros teve que intervir:
            - Gente, deem espaço! As mulheres estão tendo nenê, caramba!
            Cristina, ao lado de Raquel começou a obedecer ao médico tentando fazer força, mas estava fraca e não conseguia. O médico percebendo a dificuldade da moça insistia:
            - Como é seu nome?
            - Cristina.
            - Cristina, a gente não está em situação de fazer uma cesariana, eu não sei se você reparou, mas a gente está no corredor de um hospital.
            Nesse momento, Cristina levantou um pouco a cabeça e olhou ao seu redor, a cena que viu não lhe agradou muito. Como a esposa de um dos maiores industriais brasileiros, além de político influente, foi parar num corredor de hospital?
            - M... mas c... como? – disse ela assustada olhando para Marcos, seu motorista, e depois, virando-se para o médico. – Eu tenho dinheiro pra c... comprar esse hospital se quiser! Meu m... marido é um dos industriais mais bem s... sucedidos do Brasil, nós te... temos negócios com o gov... governo, meu marido tem carreira n... na política...
            Essas palavras de Cristina chamaram a atenção das pessoas que estavam aglomeradas em volta das grávidas. Pessoas humildes que estavam ali por não ter outra opção; que sentiram dó da pobre moça rica dando a luz ali no meio do povão. Outras pessoas, sem dó, se aproximaram para fitar o rosto de Cristina e dirigir-lhe algum sorriso de zombaria e ao mesmo tempo de “justiça”, outros, se olharam sem entender a frase da moça e acharam que ela estava delirando, mas ao repararem em seus traços delicados e roupas finas, acabaram achando que ela realmente falava a verdade.
            - É minha senhora? – falou o médico enérgico. – Mas agora você pode escolher: ou dá à luz aqui mesmo, ou vai virar uma defunta rica e ser enterrada num caixão de ouro. A escolha é sua!
            Cristina fuzilou o médico com o olhar, mas logo entendeu que ele não tinha culpa de nada e estava ali tentando dar o seu melhor; por isso, consentiu com o olhar se entregando ao atendimento do médico.
            Um burburinho correu pelos corredores do hospital dizendo que uma mulher milionária estava dando à luz ali, e mais pessoas vieram ver o show.
Do outro lado, um grito de dor ecoou pelo corredor chamando a atenção de todos:
            - Força! Força! – gritou um terceiro médico.
            Nesse momento um choro esganiçado se ouviu e uma enfermeira pegou a criança dos braços do médico.
            - É um menino! – falou o pai sorrindo. – Pra onde ela vai levar meu filho?
            - Ele vai para o berçário, disse o médico. Lá um pediatra vai fazer os primeiros atendimentos, depois ele vai tomar banho e vai para o berço.
            - Vocês duas estão vendo? – falou o médico que atendia Raquel, ficando de pé e gesticulando para ela e Cristina. – Vocês duas estão muito moles!
            Luiz que acompanhava a tudo aflito virou-se para sua esposa, e falou nervoso:
            - Meu amor, faça força, por favor, senão a Manoela não vai nascer!
           - Ah... É uma menina! – falou o médico com um sorriso. – Vamos lá então dona Raquel, respire fundo e faça força!
            Marcos, ao lado de Luiz, olhava para sua patroa e não se conteve:
            - Dona Cristina, a senhora tem que fazer força também!
            Um homem com um corte na cabeça que estava esperando para ser atendido, um menino com a perna quebrada que gemia de dor, uma mulher que segurava um pedestal com um frasco de soro, outra mulher com dor nas costas porque levou um tombo no piso molhado de um supermercado, dois policiais, que acompanhavam um homem algemado e baleado por ter tentado fugir de um flagrante, uma mulher segurando um nenê infestado de catapora, uma mulher com uma grande ferida na perna, algumas pessoas aparentemente sem problemas e mais dois enfermeiros, olhavam fixamente para Cristina e Raquel, que resolveram, apesar das dores e da condição precária, fazer toda a força que podiam.
            - Isso dona Raquel, - falou o médico – respira e faz força!
            Aos poucos o bebê começou a despontar e sair, o médico, com habilidade, ajudava a mulher retirando a criança.
            Ao lado, Cristina tinha mais dificuldade, e toda a força que fazia não era suficiente para dar à luz sua filha. Foi então, que o médico que ajudava Raquel, aproveitando que seu bebê já tinha colocado a cabeça para fora, cortou um pouco do cabelo do bebê e passou discretamente para o médico ao lado, que pegou o chumaço de cabelo e colocou bem perto dos olhos de Cristina falando pra ela:
            - Tá vendo esse chumaço de cabelo aqui? É do seu bebê, mas parece que você não quer que ele nasça, pois não faz força!
            Esse gesto do médico caiu feito uma bomba na cabeça de Cristina, que ganhou uma dose extra de força que nem ela sabia que tinha.
            Ao mesmo instante nasceram as duas crianças. A filha de Raquel, que se chamaria Manoela, e a filha de Cristina que teria o nome de Patrícia.
            Os médicos entregaram as meninas para as enfermeiras, que rapidamente saíram com as meninas pra fazerem os primeiros atendimentos.
            As pessoas que assistiam aos partos aplaudiram as mães que mesmo com muita dor, retribuíram com sorrisos e muita felicidade.
            - Ufa! – falou um dos médicos. – Vocês deram trabalho pra gente hein!
            Marcos e Luiz, que acompanhavam a tudo muito apreensivos, abraçaram os médicos, e Marcos falou ao ouvido do que fez o parto do bebê de Cristina:
            - Doutor! Parabéns, que golpe de mestre o lance do chumaço de cabelo.
            - Ah, - respondeu o médico sorrindo – você percebeu!

            - Isso salvou meu emprego!