Gosto
de sentar quieto e escutar blues. Também gosto de rock.
Gosto
de ler um bom livro, assistir um bom filme, escrever contos, crônicas e
livros... Gosto de desenhar.
Gosto
de tudo isso, mas a vida pede outras coisas.
Nossa
vida cobra coisas da gente, que até fazemos com prazer, mas, com o prazer da
obrigação!
Eu
tenho prazer um cuidar da minha esposa, do meu filho, de atender meus clientes,
de sair cedo, trabalhar o dia inteiro e chegar em casa à noite exausto, sem
vontade de escutar blues, sentar e escutar rock, ler livro, assistir filme,
desenhar ou escrever.
Respirar,
as vezes a gente respira, olhar à volta, as vezes a gente olha. Sentir o gosto
da agua, da comida, da bebida. Sentir o cheiro do sabonete, da flor, da
manhã... As vezes a gente sente!
Mas
quando a gente se pega sentindo esses sabores da vida, logo o relógio avisa que
não há tempo para essas bobeiras.
O
relógio avisa que a vida está cobrando desempenho, e cheiro de sabonete não
ajuda em nada. Os minutos cobram resultado, e respirar não ajuda em nada.
Gosto
de sentar quieto e escutar blues...
Também
gosto de rock, e de respirar. Aliás, eu tenho que respirar.
Gosto
de abraçar minha esposa, meu filho, minha mãe.
Gosto
de abraçar minha cachorra e fazer cafuné na barriga da minha gata...
Tenho
coragem de assumir, mesmo que à contragosto minha condição de ser vivente
dependente da engrenagem maligna das obrigações. Às vezes me engano me achando
feliz demais, e as vezes, me engano me achando triste demais.
Quando
dá, sento quieto e escuto blues, respiro e sinto o gosto da agua. Mas quando
não dá, vou fazendo parte da engrenagem e vivendo, afinal, também existem os
prazeres da obrigação...


