domingo, 3 de setembro de 2017

Descartáveis S/A

                                          
                                               





Tuuu... Tuuu... Tuuu... Tuu.
- Obrigado por ligar para a Descartáveis S/A, se você precisa de uma namorada ou namorado, tecle 1. Se precisa de um amigo tecle 2, se precisa apenas de um caso de final de semana, tecle 3, se quiser receber o nosso catálogo tecle 4, ou aguarde para falar com um dos nossos atendentes.
- Alô, aqui quem fala é Ademar Pereira, em que posso lhe ajudar?
- Oi, eu queria saber como é esse negócio de descartáveis.
- Sim... Aqui a gente trabalha com todos os tipos de descartáveis. Pois nesse mundo corrido em que vivemos não dá mais pra ficar perdendo tempo com coisas fúteis e sentimentalistas.
- Legal, se eu quiser um relacionamento como é que vocês fazem?
- Nós temos agentes espalhados pelos bares e clubes da cidade, e em todos os tipos de balada. Você pode beijar quantas meninas quiser sem compromisso, como num relacionamento relâmpago, totalmente descartável. Mas se preferir, pode levar esse relacionamento por alguns dias ou semanas, e talvez até meses, depois quando enjoar, pode simplesmente largar e terminar o relacionamento.
- Mas a menina não vai ficar chateada?
- Não, porque aqui o nosso lema é: "Eu feliz e mais ninguém." Nossos clientes tem que zelar apenas pela sua satisfação pessoal, e nada mais.
- E casamento?
- Temos também. Totalmente descartáveis, até com filhos, você namora, fica noivo, casa, tem filhos e o dia em que não estiver mais feliz, parte pra uma vida nova, sem problemas.
- E os filhos?
- Descartáveis, eles arrumam outro pai descartável que lhes crie depois.
- Que legal! Aí tem amigos também?
- Temos... Amigos de infância, de escola, de faculdade, do futebol, de trabalho, todos totalmente descartáveis, depois quando você não os quiser mais como amigos, é só passar do outro lado da rua, como se não os conhecesse.
- Rapaz, mas isso aí é bom demais!
- Obrigado senhor, a sua satisfação, é o mais importante para nossa empresa.
- Então anota aí meu pedido: Eu quero, três amigos pra um ano, cinco meninas pra beijar hoje, sendo que uma delas é pra namorar três meses.
- Tudo bem senhor, mais algum pedido?
- Ah, sim... Me manda também uma dúzia de copinhos plásticos pra café!





sábado, 26 de agosto de 2017

Aventura e Ficção






Eu era criança em uma época em que os gibis de heróis faziam sucesso entre a garotada. O gibi do Homem Aranha chegava na banca do Sr. Joaquim no dia 15, o “Superaventuras Marvel”, chegava dia 20, o “Heróis da TV”, que trazia as aventuras dos Vingadores, chegava dia 25, no comecinho do mês, geralmente dia 5, chegava “A espada selvagem de Conan”, gente... Como eu ficava apreensivo esperando esses dias chegarem logo no calendário.
O “seu” Joaquim era um sujeito estranho, ele sabia que eu comprava todos os gibis, mas se eu não corresse lá no dia certo, ele vendia pra outra pessoa.
- Seu Joaquim, - eu falava – cadê o gibi do Homem Aranha.
- Vendi, - ele respondia seco!
- Mas o senhor sabe que eu venho sempre comprar, porque o senhor não guardou um pra mim?
- Eu não estou aqui pra ficar guardando revista pra ninguém! – respondia ele ficando vermelho de raiva.
Uma vez, depois de anos que eu comprava gibi em sua banca, não sei como, o velho Joaquim me disse:
- Gordinho, como é o seu nome?
- André.
- Olha aqui, chegou essa revista nova, ela se chama Aventura e Ficção, eu guardei uma pra você.
- O senhor guardou uma pra mim? – eu falei sem acreditar na gentileza daquele bruto.
- Você tem que ter responsabilidade. – disse Joaquim me entregando a revista. – Quando você gosta de uma coisa, você tem que correr atrás dessa coisa, antes que outros a tomem de você. Assim funciona a vida. Você vai ver que durante a sua vida toda, você vai ter que correr atrás, se quiser se dar bem. Então não adianta você falar pra eu guardar as revistas pra você! Você sabe o dia que elas chegam, e é sua responsabilidade vir aqui buscar!
- Mas Sr. Joaquim, quando o senhor não guarda pra mim, eu tenho que ir na banca do Mário, lá no largo da matriz. Tenho que andar quase uma hora pra chegar lá! Ainda bem que ele pede um monte de gibi e sempre sobra.
- Ele não está ajudando em nada pedindo um monte de gibi pra sobrar. Aposto que os meninos lá são folgados e não são fiéis como os meninos que compram comigo.
Na época eu não entendi muito bem essa posição do velho Joaquim, não entendi como essa chatice dele poderia me ajudar em alguma coisa, e achei simplesmente que ele era um velho ranzinza.
- Quanto é essa revista nova que o senhor guardou pra mim?
- Nada! – disse Joaquim me estendendo a revista. – Mas olhe bem! Hoje é dia 12, e essa revista vai chegar sempre por volta desse dia, se quiser comprar, já sabe! Mês que vem não vou nem guardar e nem te dar!
Sabe que hoje eu entendo bem as chatices pedagógicas do Sr. Joaquim, além de me ensinar a correr atrás das coisas que gosto, de ser disciplinado com isso, ainda me deu de presente a “Aventura e Ficção”, que me fez ter que que escolher todo mês uma revista que tinha que deixar de comprar, porque o dinheiro que meu pai me dava, não dava pra comprar todas... O Sr. Joaquim era sábio... Também... Era dono de banca de revista, devia ser bem informado...






sábado, 12 de agosto de 2017

Tachos Calvino






Segundo a religião cristã, haverá um dia em que você, eu tu, ele, nós, vós e eles, serão, seremos, serei, sereis, julgados!
Depois desse julgamento, se você aceitou a Jesus como seu único e suficiente salvador, você deverá segundo as escrituras, ser salvo e ir morar no céu eternamente. Mas se você não aceitou Jesus, e torceu pelo lobo mau a vida toda, certamente você vai fritar no tacho do capeta eternamente, e de vez em quando ele vai te dar uma cutucada com o tridente pra ver se você já está bem fritinho, mas esse prato, onde você é a iguaria principal nunca vai ficar pronto, afinal, eternamente é muito tempo, meu amigo! Quer moleza?
Bom, tudo seria simples assim, se a gente não complicasse as coisas. Mas como nós somos pessoas, e pessoas são inteligentes pra burro, a gente complica as coisas. Um dos complicadores mais complicados, foi um cidadão chamado João Calvino, esse cidadão arrumou um jeito de dizer, baseando-se em versículos da Bíblia, meticulosamente escolhidos, que não é assim tão fácil escolher Jesus como seu salvador e pronto, você será salvo. Na verdade, ele bolou uma trama teológica, onde a simplicidade da salvação se dá apenas para um grupo de pessoas, que ele chamou de escolhidos, eleitos, ou predestinados. Segundo Calvino, Deus na marra, fará com que alguns escolham a Jesus, e o aceitarem, mesmo que não queiram, como seu único e suficiente salvador, irresistivelmente, fantochemente, e pasmem, livremente.
Segundo ele, a outros, mesmo que queiram, não será dada a chance de escolher a Jesus, mesmo que o cara assista uma pregação, encontre uma bíblia em uma ilha deserta e se convença de que Deus é o caminho, e queira trilhar esse caminho; Deus vai mexer os pauzinhos para que o coração desse fulano se endureça e ele não aceite Jesus verdadeiramente, porque ele não é um dos eleitos. E pasmem, na cabeça oca do Calvino, mesmo que Deus tenha interferido pro cara não aceitar a Jesus, a não escolha, é calvinamente classificada como livre.
Esse Calvino tem milhões de seguidores no mundo, na verdade, entre as igrejas evangélicas tradicionais, esse cidadão é o mais influente teólogo. Seus discípulos são combativos, e sua doutrina tem entrado em igrejas que tradicionalmente pensavam diferente disso. Essa questão que eu coloquei aqui, é apenas um agente complicador da teologia calvinista, existem outras tantas, pois sua doutrina é calcada em 5 pontos, e cada ponto é mais polêmico que o outro.
Ainda bem que no dia do julgamento, quem vai julgar é Deus e não, nenhum calvinista, senão, não iria caber gente no tacho do capeta, na verdade, acho que o capeta teria que abrir uma fábrica de tachos! Imagine o slogan da fábrica: Tachos Calvino, eternamente esperando por você!
Eu hein... Tô fora!







domingo, 30 de julho de 2017

Show






E o show vai começar...
Abrem-se as cortinas.
O publico está ali... Esperando.
As luzes? Ok!
O som? Ok!
Um... Dois... Três, testando...
Um... Dois, três, testando.
Um... Dois...
As luzes?
O som? Ok!
Respeitável público. E agora com vocês, o mais espetacular show da terra!
Os risos... Os olhares... Os dentes à mostra.
Alegria, alegria!
Vamos sorrir.
Respeitável público... E agora com vocês... O show!
O show da vida.
O palco é a sua vida, o público é você, a bilheteria é a sua sorte ou o seu azar, o roteiro é você que escreve, baseado num enredo sugerido por Deus.
Atores convidados: Seu pai, sua mãe, seus amigos, seus inimigos, e mais alguns figurantes contratados de última hora.
E o show vai começar...
Ela se contorce de dor, o homem de branco repete insistentemente:
- Força! Força! Vamos você pode, força!
E o show vai começar...
Ela se contorce de dor, e o show está começando, está dilatando, está despontando, está sangrando, está... Está...
Luzes? Ok!
Som? Ok!
Umas palmadas na bunda!
Um choro anuncia.
Um choro anuncia.
Um choro anuncia o começo de mais um show!
O show começou!
Ela sorri, ela é a mãe!
Ele sorri, ele é o pai!
Todos batem palmas... É o show.
O show da vida.
Respeitável público, aqui agora, tem inicio o show mais espetacular da terra... O ator acabou de nascer. O ator principal de seu show, mas o ator coadjuvante do show do seu pai, e de sua mãe, e do seu médico, e da enfermeira... E... Enfim, somos um emaranhado de shows, que vem e que vão, com público ou não.
Você é o ator e ao mesmo tempo o “ videspectador “.
Luzes? Ok!
Som? Ok!
Um, dois, três... Começou !!!!!


Esse foi o primeiro texto que escrevi, que ganhou algum concurso. Ele foi publicado no jornal da faculdade São Luis, em Jaboticabal e na coletânea de inverno da Editora Big Time, em 2015.









sábado, 15 de julho de 2017

Que som corre em suas veias?




Em 1988 eu me mudei de São Paulo para Barretos. Muitas coisas mudaram na minha vida, além dessa mudança de cidade.
Os meninos da capital não são criados tão soltos pela vida, como os meninos do interior. Eu que achava que viria para uma cidade pacata do interior, descobri que as emoções aqui, andam muito mais aceleradas que na capital. Aqui os meninos namoram mais, as meninas namoram mais e a noite é mais longa nos finais de semana.
Eu poderia falar de inúmeros acontecimentos e aventuras aqui nesse texto e em outros tantos, mas hoje eu quero tratar de uma coisa que não mudou dentro de mim... A música!
Eu fico me interrogando, se são nos primeiros anos de vida que uma força externa e imutável, determina qual tipo de música que a gente vai gostar pelo resto de nossos dias. Eu, sinceramente, acho que sim.
Nos anos 80, na cidade de São Paulo, o rock era a moda. Bandas de punk rock, new wave, rock nacional, blues e rock de garagem, era o que fazia parte das minhas ideias. Baixo, guitarra e bateria, pra mim, é a melhor combinação de qualquer coisa que o homem tenha inventado nesse mundo, desde que Adão foi expulso do paraíso.
Em Barretos, no começo, foi difícil pra mim. Aqui as pessoas adoram a música sertaneja, e isso está enraizado no povo daqui, demorou mais de ano, pra que eu encontrasse algumas pessoas, que assim como eu, tinha rock nas ideias. Aos poucos nós organizamos encontros de bandas de rock, organizamos alguns bares que tocavam rock e nos tornamos os diferentes da molecada.
O jeito de pensar, o jeito de falar, o jeito de vestir, os roqueiros no interior, são mais diferentes para a sociedade, do que os roqueiros da capital. Mas graças a Deus, essa diferença não fez de mim um rejeitado, ou deixado de lado pelas pessoas, porque, logo cedo eu percebi, que não dava pra competir com a cultura do lugar, não dava para impor meu gosto pessoal, em meio a uma multidão de gosto desigual.
Tem gente que se prende dentro de uma cápsula, onde só o mundo dele é importante, e só seus gostos são importantes, e por isso, ficam isolados de tudo e de todos... Eu aprendi a me divertir com as pessoas daqui, fiz vários amigos que detestam minhas músicas, mas que tirando isso, convivem muito bem comigo. Esse é o segredo! Aceitar que nem todo mundo é igual a gente, e respeitar o gosto pessoal dos outros, mesmo que os outros não respeitem o seu, assim, com o tempo, as pessoas vão começar a te entender, e o respeito por você virá naturalmente.
Hoje, eu ainda escuto o que eu gosto, tenho amigos roqueiros dos anos 80, e musicalmente vivo minha vida à parte da grande massa.
Minha cabeça e meus pensamentos ainda funcionam ao som do rock e blues, e parece que isso vai me acompanhar até o fim dos meus dias, é como a letra da música que está no clipe abaixo: Um DJ invisível, que fica dentro das moleiras da gente, discotecando e colocando um som agradável, talvez não à todos, mas pelo menos, pra gente, o DJ é bom, e ajuda a passar os dias mais felizes.