sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

Amigos de rua

Olá amigos e seguidores do blog. Eu fiquei mais ou menos dez dias sem internet, por isso sumi tanto dos blogs dos amigos, quanto do meu próprio blog. O tal do modem do speed queimou, e eles me mandaram um outro mais queimado ainda pra resolver meu problema.  Mas agora com um modem inteiro, acho que tudo vai voltar ao normal. Estou republicando esse texto que gosto muito. Espero que gostem também.



Ele acordou, suas costas estavam doendo pelo mal jeito que foi dormir naquele banco. Por mais que forrasse o banco com jornal e papelão para improvisar um colchão, as suas costas estavam lhe matando.
Seus dois cachorros, acostumados a dormir ao seu lado, estavam de guarda nos seus pés, esperando que ele acordasse. O sol já vinha nascendo e os primeiros raios ajudavam a esquentar seu corpo franzinho e debilitado.
" Puxa vida... Como esfria no nascer do dia..." - Pensou ele se sentando e esfregando os olhos com as costas das mãos.
Depois de dar uma espreguiçada, dobrou seus trapos que servem de cobertor e guardou junto com os jornais, colocando-os dentro da carrocinha que usa para catar latinhas e plásticos recicláveis pela cidade. "Vou guardar esses jornais aqui, porque eles quebram um galhão à noite."
Seus dois companheiros desceram do banco e ficaram em sua frente balançando o rabinho a espera de um afago. Depois desse bom dia canino, ele sorriu e foi até a fonte da praça dar uma lavada no rosto e nas mãos para depois voltar ao banco e abrir seu saco de pão com mortadela que cuidadosamente havia guardado debaixo de seu travesseiro para que no outro dia cedo servisse de café da manhã.
- Pitoco, Juquinha, vem aqui! - Falou ele chamando seus dois amigos. - Olha, hoje só tem esses dois pães aqui, então eu vou dividir um entre vocês dois que são pequenos e vou comer um inteiro. Vocês sabem que eu tô uma tosse dos infernos e tenho que comer um pouco mais senão não num guento!
Os dois cachorros pararam em sua frente novamente e ficaram esperando o café da manhã. Então ele dividiu um dos pães com os dois e começou a comer o outro. Dalí um pouco ele separou mais um pedaço agora de seu pão e falou novamente:
- Toma vai seus dois gulosos, ficam aí me olhando com essa cara de pidão...
Depois do pão ele pegou um resto de guaraná que estava no fundo de uma latinha, colocou na boca, fez uns gargarejos e engoliu. Aí ajeitou sua roupa, passou seu pente banguela no cabelo e colocou seu boné de propaganda eleitoral da eleição passada.
Em seguida saíram os três, andando juntos pelas ruas da cidade.
Ele tinha que procurar nas latas de lixo do calçadão e ver se coletava alguma coisa que lhes garantisse o almoço.
Pra ele era assim, ele tinha que ganhar o próximo pão todos os dias... Pra ele e para os seus amigos...

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Tradição vende?




Esses dias eu fui até a banca de jornal e fiquei intrigado com uma coisa. Entre os vários títulos de histórias em quadrinhos, havia pelo menos uns quatro títulos do Tex!
Era Tex especial, Tex ouro, Tex clássico e apenas Tex...
Eu me virei pra japonesa dona da banca e perguntei:
- Esse monte de revista do Tex vende?
- Se vende? - Respondeu ela folheando uma revista sem se dar o trabalho de olhar pra minha fuça. - Vende demais. Nunca devolvi uma revista Tex pra editora.
- Mas esse personagem tem mais de cinquenta anos, não tem mídia falando dele, e nunca nem fizeram um filme dele pra ele ficar mais famoso?
- Ah.... Aí eu já não sei, mas tem gente que vem todo mês aqui só pra comprar esse Tex. E de vez em quando tem umas edições comemorativas que são muito procuradas, tenho que encomendar uma dúzia delas pra editora e não sobra uma! - Falou a japonesa ainda olhando sua revista.
"Que coisa né?" - Pensei eu com meus botões. - "Como pode nos dias de hoje, um produto vender assim. Sem mídia, sem propaganda, sem marketing, sem nada!"
Depois desse dia eu comecei a reparar em coisas desse tipo, que vendem por sí só. Eu reparei que a cerveja Caracu vende no Brasil inteiro (inclusive pra mim), e não faz propaganda nenhuma. Descobri que o povo árabe tem fama de "mão de vaca" e de bom negociante sem fazer propaganda sobre essa fama. Descobri que o Caetano Veloso vende milhares de exemplares de seus discos e tem fama de ser intelectual e a mídia não fala nada sobre seus novos trabalhos. Descobri que o Quentin Tarantino cavou um público cativo de seus filmes, que podem ser horrorosos, e mesmo se a crítica especializada falar mal, os cinemas vão encher para assisti-los. Nessa linha descobri que se você quiser o melhor relógio, deve ser o Rolex, melhor carro deve ser o Bentley, melhor macarrão deve ser em uma cantina Italiana (que pode até não ser de italianos), melhor samba deve ser de algum carioca... E tudo isso sem fazer propaganda.
Descobri que os charutos cubanos são os mais vendidos no mundo... Alguém já viu um comercial de charuto cubano? Descobri que os japoneses tem fama de serem fechados e anti-sociais, quem não tem um amigo japonês? Eu tenho, e o cara é bem legal!
Descobri um monte de coisas que estão impregnados na nossa vida e não sabemos de onde isso vem! Você pode fazer o melhor charuto da galáxia, milhões de vezes melhor que o cubano, mas se você for a uma charutaria e colocá-lo á venda, fatalmente ele ficará lá empacado, enquanto os cubanos venderão aos montes.
Depois de muito pensar (quase morri de pensar, pois de tanto pensar morreu um burro) eu cheguei á conclusão de que esses fenômenos se devem á tradição. De coisas passadas de pai pra filho, de família pra família... As vezes esses produtos nem são tão bons assim e nem os melhores do mundo em seus segmentos, mas eles estão co inconsciente coletivo das pessoas, e assim vendem por sí só...
Não sei se estou certo nessa minha conclusão, só sei que comprei um gibizinho do Tex e descobri que não é tão ruim quanto eu imaginava...

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Pressurizando




Eu fui ao médico. Fui fazer um "xécapi" no meu coraçãozinho sãopaulino pra ver se ele aguenta por mais tempo as agruras da vida!
Minha pressão arterial deu de ficar meio bobinha e dar uns pulos me deixando mais tonto do que eu normalmente sou. Minha vista dava umas desligadas repentinas de milésimos de segundos e as pernas davam umas "cambotiadas" como fala a minha avó. Então, resolvi ir visitar o seu "dotô."
Ele me examinou, mediu a pressão dum braço e depois do outro, em pé, sentado, deitado... Ainda bem que ele não pediu pra eu tirar a roupa...
Ele disse que "à priori" (achei bonito ele falar isso), eu não apresentava nenhum sintoma que detectasse algum tipo de irregularidade, mas que por "via das dúvidas" (meu dotô é pobrema), eu iria fazer um exame de esteira e um outro que não lembro o nome.
Liguei pra marcar o tal exame e a moça marcou para as sete da manhã. Dez pras sete eu estava na porta do instituto onde é feito esse exame... O médico chegou nove e meia! Nove e meia!
Chegou, passou um gelzinho no meu peito, esfregou uma maquininha, ficou olhando par a tela do computador, escreveu umas coisas num papel, e saiu... Nem olhou pra minha cara!
Depois disso a moça do atendimento disse que eu poderia ir embora e buscar o resultado daí a uma semana.
Essa uma semana se passou, eu busquei o resultado e marquei o retorno ao médico. A menina disse que meu horário estava marcado as 17:30, então como bom bobinho que eu sou, cheguei lá as 17:15. A sala de espera estava lotada. Mas eu estava dentro do meu horário marcado, então fiquei tranquilo. Quando meu relógio marcou 18:45 eu fui conversar com a atendente:
- Moça, o atendimento aqui é por ordem de chegada?
- Não. - Respondeu ela. - É por horário marcado.
- Uai! Mas meu horário era as 17:30 e tá passando um monte de gente na minha frente?
- É que eles chegaram primeiro!
- Então é por ordem de chegada?
- Não, - falou a moça fazendo cara feia - é por horário marcado! Já te falei!
- Mas moça... Se é por horário marcado, como é que essas pessoas estão entrando na minha frente se eu estava aqui até adiantado do meu horário?
- É que elas chegaram na frente... Já te expliquei!
Resolvi não continuar essa briga... Eu estava falando em português e ela em línguas estranhas...
O final feliz da história é que as 19:38 eu saí do consultório feliz, porque o seu "dotô" me disse que os exames estavam maravilhosos, que eu não tinha nenhuma irregularidade e que meu coraçãozinho estava pronto para mais um punhadão de anos. Ele disse que minha pressão alterada deve ser por causa do estresse. E que a gente tem que aprender a viver feliz mesmo quando coisas que nos chateiam batem á nossa porta!
Eu respondi com um "obrigado, seu dotô", e fui embora pensando em como ele se sentiria sentado em sua própria sala de espera... Nervosinho, ou calminho?

quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Nóis semos bobinho

As autoridades querem punir as pessoas envolvidas no caso da boate que pegou fogo no Rio Grande do Sul. Dizem que o dono da boate é o próprio capeta que jogou as boas almas no caldeirão, jogou gasolina e riscou o fósforo!
Dizem que o vocalista da banda é orelhudo e tem quatro patas, porque acender fogos de artifício num local fechado é coisa de asno.
Dizem que os seguranças que num primeiro momento trancaram as portas, pois achavam que tudo não passava de uma briga, e pensavam assim que as pessoas iriam sair sem pagar suas comandas, eram na verdade nazistas disfarçados mandando os jovens para a câmara de gás!
Mas o que está engraçado, é que esses juízes que falam pelos microfones das TVs, pelo Facebook, e por diversos sites e blogs por aí, não estão falando nada das autoridades regulamentadoras, que deveriam ter fechado o estabelecimento se ele não tivesse condições de funcionamento. Que deveria ter lacrado a boate se ela não tinha alvará. Que deveriam ter examinado os extintores. Que deveriam fazer o seu serviço.
Engraçado é que nesse país a gente tem mania de encontrar culpado em tudo, e deixamos a mídia nos manipular, e mudar o nosso foco. Acabamos engolindo tudo o que nos empurram e acabamos não colocando as nossas cabeças para funcionar.
Eu não estou aqui querendo ser o advogado do diabo, de forma alguma.
Os envolvidos tem culpa sim!
Na verdade, tudo foi uma sucessão de erros. Do dono da boate, do vocalista, dos seguranças, de quem vendeu aquela espuma altamente inflamável pra servir de forro, e principalmente dos fiscais e autoridades que não fizeram seu trabalho e deixaram que aquele evento acontecesse.
Mas definitivamente, eu tenho certeza, que ninguém que errou fez isso intencionalmente.
Aqui no nosso país, o nosso maior erro é dar jeitinho em tudo. Jeitinho de pagar uma bolinha pro fiscal fazer vista grossa e deixar a boate funcionar. Jeitinho de instalar essa espuminha mais baratinha e achar que ela nuuuuuunca iria pegar fogo. Jeitinho de acender um sinalizadorzinho em cima dos palcos pra dar um efeitozinho mais legal e assim economizar com aparelhagem própria e cenários caríssimos. Jeitinho de contratar uns meninos marombados e despreparados para servirem de segurança. E jeitinho de fazer a mídia eleger e condenar os culpados, tirando assim o foco do verdadeiro problema.
A gente tem que acordar! Eu tenho convicção de que aí na sua cidade, aí no seu bairro, talvez até na sua rua, tem alguém trabalhando irregularmente. Vendendo churrasquinho de carne de gato, vendendo muamba sem recolher impostos, servindo almoço em restaurantes sem o mínimo de higiene, atravessando o sinal vermelho, jogando lixo em terreno baldio, fazendo gambiarras em postes elétricos e ligações clandestinas em hidrômetros, trabalhando com alvará vencido e as vezes até sem nunca ter tido um alvará de funcionamento. E o pior de tudo, é que a gente sabe que vários fiscais e responsáveis pela regulamentação disso tudo estão ganhando “umzinho” por fora pra fazer vistas grossas. A gente, que sempre aceitou tudo sem denunciar e nem se revoltar com tudo o que sabe, agora tem a cara de pau de sacrificar apenas o dono da boate, ou os seguranças, ou o vocalista da banda. E assim fazer o nosso impiedoso julgamento!
Como gente é bobinho né?
E o Brasil continua o mesmo. A cada ato corrupção (onde tudo acaba em pizza), a cada desastre natural (que em todo começo de ano mata dezenas de pessoas, e ninguém faz nada), a cada tragédia, a cada eleição!


sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Descartáveis S/A

Essa é uma republicação de um texto de alguns meses atrás, que eu julgo ser legal. Espero que gostem!




Tuuu... Tuuu... Tuuu... Tuu.
- Obrigado por ligar para a Descartáveis S/A, se você precisa de uma namorada ou namorado, tecle 1. Se precisa de um amigo tecle 2, se precisa apenas de um caso de final de semana, tecle 3, se quiser receber o nosso catálogo tecle 4, ou aguarde para falar com um dos nossos atendentes.
- Alô aqui quem fala é Alberto Teixeira, em que posso lhe ajudar?
- Oi, eu queria saber como é esse negócio de descartáveis.
- Sim... Aqui a gente trabalha com todos os tipos de descartáveis. Pois nesse mundo corrido em que vivemos não dá mais pra ficar perdendo tempo com coisas fúteis e sentimentalistas.
- Legal, se eu quiser um relacionamento como é que vocês fazem?
- Nós temos agentes espalhados pelos bares e clubes da cidade, em todos os tipos de balada. Você pode beijar quantas meninas quiser sem compromisso, como num relacionamento relâmpago, totalmente descartável. Mas se preferir pode levar esse relacionamento por alguns dias ou semanas e talvez até meses, depois quando enjoar, pode simplesmente largar e terminar o relacionamento.
- Mas a menina não vai ficar chateada?
- Não porque aqui o nosso lema é "eu feliz e mais ninguém", então nossos clientes tem  que se preocupar apenas a sua satisfação pessoal e nada mais.
- E casamento?
- Temos também. Totalmente descartáveis, até com filhos, você namora, fica noivo, casa, tem filhos e o dia em que não estiver mais feliz, parte pra uma vida nova, sem problemas.
- E os filhos?
- Descartáveis, eles arrumam outro pai descartável que lhes crie depois.
- Que legal! Aí tem amigos também?
- Temos, amigos de infância, de escola, de faculdade, do futebol, de trabalho... Todos totalmente descartáveis, depois quando você estiver enjoado e não os quiser mais como amigos, é só passar do outro lado da rua, como se não os conhecesse.
- Rapaz, mas isso aí é bom demais!
- Obrigado senhor! A sua satisfação é o que nos importa!
- Então anota aí meu pedido: Eu quero, três amigos pra um ano e cinco meninas pra beijar hoje, sendo que uma delas é pra namorar três meses. Essa pode vir com sogro e sogra e um cunhado. Ah... E uma cunhadinha bem bonitinha também!
- Tudo bem senhor, mais algum pedido?
- Me manda também uma dúzia de copinhos plásticos pra café!