Sabrina, Jonas, Augusto Cesar e Priscila entraram pelo salão de festas trazendo o bolo de bodas de ouro do vovô Valter e da vovó Soraia. Os velhos esperavam o bolo chegar, rodeados pelos filhos e amigos, que cantavam “parabéns pra você”. Uma lágrima escorreu pelo rosto da “vovó Sosô” e do “vovô Vartinho”. A cinquenta anos atrás eles nunca imaginariam que um dia chegariam a um momento desses.
Em 4 de agosto de 1952, Soraia era uma linda jovenzinha que trabalhava no mercadinho de seu “Manoel português”, um homem bom como patrão, mas muitíssimo exigente com seus funcionários. Soraia estava pesando um quilo de feijão para uma cliente, quando Valter entrou pelo mercadinho apressado para comprar batatas.
- Seu Manoel! – Falou Valter num só fôlego. – Me dê um quilo de batatas meio rápido, porque já está quase na hora de eu ir pra escola e minha mãe ainda não fez o almoço.
- Olhe garoto, vais ter quê spêrar a sua veixz! Purquê tem umas pssoas qui chigaram em vossa friente!
Soraia olhou para Valter com cara de poucos amigos... Ela detestava esses apressadinhos que vinham tumultuar o seu serviço.
Em 3 de setembro de 1953, Soraia esperava o ônibus para ir ao cinema encontrar seu namoradinho novo, um rapaz loiro que tinha os olhos mais azuis de todo o mundo! Perdida em pensamentos ela nem notou quando Valter sentou-se ao seu lado no banco do ponto de ônibus e começou a folhear um gibi do “Cavaleiro Solitário”. Os dois entraram no mesmo ônibus e mais uma vez sentaram-se lado a lado, até chegarem à porta do cinema. Soraia logo encontrou o rapaz loiro e Valter logo encontrou seus amigos que foram até ali pra trocar gibis e dar uma paquerada nas meninas.
Em 23 de maio de 1954, Soraia passeava com sua amiga Gorete pela praça da catedral, quando Valter passou em sua bicicleta olhando para Gorete, que era a menina mais linda da cidade.
Valter descuidou-se com os olhares e nem viu o banco da praça! Foi um capote só! Sorte que Valter caiu dentro do chafariz e apesar de ter se molhado todo, não se machucou além de uns arranhões.
Em 17 de janeiro de 1957 Valter discutia com sua namorada Ermínia sentado num banco da praça do coreto, enquanto Soraia namorava Arlindo num banco ao lado. A discussão de Valter se elevou tanto que Ermínia deu-lhe um tapa no rosto. O estalo foi tão alto que no banco ao lado Soraia e Arlindo até se assustaram! Quando olhou para ver quem tinha apanhado, Soraia só viu um rapaz indo embora com sua bicicleta por entre o jardim.
Em 22 de dezembro de 1959 Soraia estava junto com as meninas da igreja, passando de casa em casa fazendo uma coleta para montar cestas de natal para pessoas carentes. Ela bateu numa casa e a dona saiu muito brava, falando que não tinha nada para ajudar e que já estava cansada de pessoas enchendo o saco em seu portão. Valter passava pela rua e vendo o destempero da mulher, parou sua bicicleta e entrou no assunto defendendo a “menina da igreja”.
- Dona Rute! – Falou Valter em alto e bom som. – Isso que a senhora está fazendo não é legal! As meninas da igreja estão tentando fazer uma boa ação! Se a senhora não quer ajudar é só falar que não e fechar a porta, não precisa falar besteiras pra menina.
Foi a primeira vez que Soraia encarou os olhos de Valter. Ele era um desconhecido pra ela e ela era uma desconhecida pra ele.
Hoje, mais de cinqüenta anos mais tarde, os dois velhinhos se abaixaram para apagar as velinhas de cinqüenta anos de união. Ela encarou os olhos de seu velho e se lembrou desse dia em que ele a defendeu. Os olhos eram os mesmos, e a pessoa por trás deles também.
Novamente ela se encantou por aqueles olhos...
Jovens olhos.
Olhos de cinquenta anos...
Do amor de sua vida!

