segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Olhar de cinquenta anos

Sabrina, Jonas, Augusto Cesar e Priscila entraram pelo salão de festas trazendo o bolo de bodas de ouro do vovô Valter e da vovó Soraia. Os velhos esperavam o bolo chegar, rodeados pelos filhos e amigos, que cantavam “parabéns pra você”. Uma lágrima escorreu pelo rosto da “vovó Sosô” e do “vovô Vartinho”. A cinquenta anos atrás eles nunca imaginariam que um dia chegariam a um momento desses.
Em 4 de agosto de 1952, Soraia era uma linda jovenzinha que trabalhava no mercadinho de seu “Manoel português”, um homem bom como patrão, mas muitíssimo exigente com seus funcionários. Soraia estava pesando um quilo de feijão para uma cliente, quando Valter entrou pelo mercadinho apressado para comprar batatas.
- Seu Manoel! – Falou Valter num só fôlego. – Me dê um quilo de batatas meio rápido, porque já está quase na hora de eu ir pra escola e minha mãe ainda não fez o almoço.
- Olhe garoto, vais ter quê spêrar a sua veixz! Purquê tem umas pssoas qui chigaram em vossa friente!
Soraia olhou para Valter com cara de poucos amigos... Ela detestava esses apressadinhos que vinham tumultuar o seu serviço.
Em 3 de setembro de 1953, Soraia esperava o ônibus para ir ao cinema encontrar seu namoradinho novo, um rapaz loiro que tinha os olhos mais azuis de todo o mundo! Perdida em pensamentos ela nem notou quando Valter sentou-se ao seu lado no banco do ponto de ônibus e começou a folhear um gibi do “Cavaleiro Solitário”. Os dois entraram no mesmo ônibus e mais uma vez sentaram-se lado a lado, até chegarem à porta do cinema. Soraia logo encontrou o rapaz loiro e Valter logo encontrou seus amigos que foram até ali pra trocar gibis e dar uma paquerada nas meninas.
Em 23 de maio de 1954, Soraia passeava com sua amiga Gorete pela praça da catedral, quando Valter passou em sua bicicleta olhando para Gorete, que era a menina mais linda da cidade.
Valter descuidou-se com os olhares e nem viu o banco da praça! Foi um capote só! Sorte que Valter caiu dentro do chafariz e apesar de ter se molhado todo, não se machucou além de uns arranhões.
Em 17 de janeiro de 1957 Valter discutia com sua namorada Ermínia sentado num banco da praça do coreto, enquanto Soraia namorava Arlindo num banco ao lado. A discussão de Valter se elevou tanto que Ermínia deu-lhe um tapa no rosto. O estalo foi tão alto que no banco ao lado Soraia e Arlindo até se assustaram! Quando olhou para ver quem tinha apanhado, Soraia só viu um rapaz indo embora com sua bicicleta por entre o jardim.
Em 22 de dezembro de 1959 Soraia estava junto com as meninas da igreja, passando de casa em casa fazendo uma coleta para montar cestas de natal para pessoas carentes. Ela bateu numa casa e a dona saiu muito brava, falando que não tinha nada para ajudar e que já estava cansada de pessoas enchendo o saco em seu portão. Valter passava pela rua e vendo o destempero da mulher, parou sua bicicleta e entrou no assunto defendendo a “menina da igreja”.
- Dona Rute! – Falou Valter em alto e bom som. – Isso que a senhora está fazendo não é legal! As meninas da igreja estão tentando fazer uma boa ação! Se a senhora não quer ajudar é só falar que não e fechar a porta, não precisa falar besteiras pra menina.
Foi a primeira vez que Soraia encarou os olhos de Valter. Ele era um desconhecido pra ela e ela era uma desconhecida pra ele.
Hoje, mais de cinqüenta anos mais tarde, os dois velhinhos se abaixaram para apagar as velinhas de cinqüenta anos de união. Ela encarou os olhos de seu velho e se lembrou desse dia em que ele a defendeu. Os olhos eram os mesmos, e a pessoa por trás deles também.
Novamente ela se encantou por aqueles olhos...
Jovens olhos.
Olhos de cinquenta anos...
Do amor de sua vida!



sexta-feira, 14 de setembro de 2012

A salvação de Jonas

Olá amigos! Essa é uma re-postagem de um texto que escrevi a mais ou menos um ano. Como a rotatividade do blog é grande, eu acho que vale a pena postar de novo. Um grande abraço a todos!



Jonas olhou a sua volta, tudo estava escuro, a lama cobria-lhe o joelho, a cada passo que ele tentava dar se atolava mais e mais. Jonas não via saída, o caminho estava difícil demais pra ele. O sol já não batia mais em seu rosto, a floresta era muito densa e as arvores encobriam o horizonte. De dentro da vegetação ele ouvia sussurros e uivos. Parece que falavam dele, mas não dava pra ter certeza pois as vozes vinham de sombras que ora apareciam por detrás das folhas e ora sumiam fazendo algazarra.
- Ei! - Gritou Jonas - vocês aí, me ajudem. Estou perdido!
Não adiantava, a cada grito de Jonas, a cada pedido seu, as vozes se calavam e apenas olhos esbugalhados apareciam em meio ao breu. Esses olhos pareciam curiosos pra saber se Jonas iria sair da enrascada em que estava mas não pareciam querer ajudar.
Jonas estava aflito, e com esforço sobre-humano ainda dava passos lentos e tentava prosseguir. Ele levantava uma perna da lama pegajosa, inclinava seu corpo pra frente e pisava mais adiante, depois repetia com a outra perna e assim ia tentando sobreviver.
De vez em quando Jonas sentia que alguém segurava sua perna e lhe puxava pra baixo, ele sentia que de vez em quando alguém colocava mais lama no meio do caminho, mas Jonas precisava vencer, Jonas precisava prosseguir, Jonas precisava respirar, Jonas precisava sobreviver.
Foi quando uma pessoa apareceu do outro lado do caminho, ela parecia conhecida. - Olá! - Falou Jonas - Você é a minha professora da quarta série?
A pessoa não respondeu mas jogou um livro para Jonas, o livro se depositou no fundo da lama e Jonas pôde se apoiar nele. Foi quando mais pessoas apareceram ao lado do caminho. Todos pareciam conhecidos de Jonas, uns pareciam antigos professores, um parecia com o dono da livraria, outro parecia o dono da banca de jornais, e eles foram jogando livros e mais livros para Jonas.
Jonas notou que essas pessoas que hoje vinham lhe ajudar, ele, no decorrer de sua vida, não havia dado muita importância a elas...
Mesmo assim elas arremessavam revistas, jornais e muitos livros para ele.  
Jonas ia usando esses livros como escada, subindo, subindo, saindo da lama até que conseguiu sair do buraco em que estava. Até que conseguiu atingir terra firme, terra sólida e sair da densidão daquela floresta negra... 
Então o sol bateu de novo em seu rosto, então as cores da vida tornaram a aparecer.
Então, Jonas sorriu!

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Velhos conceitos

Velhos conceitos...
De mentes velhas.
Mesmo que em corpos novos
mesmo que em corpos jovens
mesmo que em novos corpos jovens...
Os conceitos podem ser velhos.
A reciclagem da vida
não encontra guarida na teimosia
teimosa
terrivelmente teimosa...
Mesmo que o mundo mude
mesmo que tudo mude
mesmo que o mudo fale!
Os conceitos
na cabeça
do teimoso, espuma menos que na cabeça do burro velho...
E o burro velho
mesmo que em novos corpos jovens
sofre!
Pois ele está aprisionado em si mesmo.
Em sua soberba
em seu orgulho...
E as novas idéias,
as novas cores
novos cheiros
nova vida...
Não encontra guarida na cabeça do burro velho...
Ele só enxerga o que quer enxergar
o que quer
o que quer
o que quer?
Não!
Ele só enxerga o que sua teimosia deixa
e ela não o deixa enxergar muita coisa
pois ele está aprisionado
em velhos conceitos
velhas idéias
velhas
velharias
inúteis e ultrapassadas!
Velhos conceitos
conceitos sem concerto
velhos
conceitos...
Inúteis e ultrapassadas, velhas, velharias,
pensadas
num tempo
onde essas idéias velhas
eram novas
mas o tempo
passa
tempo que passa
tempo que já foi...
Reciclagem!
Reciclagem de conceitos
reciclagem de velhas
velharias
reciclagem...
Movimento!
Idéias em movimento
movimento de idéias...
Novos conceitos!
Basta ter coragem
basta ter
basta ter novos conceitos
novos rumos
novas idéias...
Reciclagem!


sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Bebéco

Eu era um adolescente viciado em música nos anos 80! Agora com mais idade e menos cabelo, restou o vício e uma apuração natural onde o "meu" bom gosto dita a regra no meu cd-player.
Durante esses vários anos de roqueiro e bluseiro eu ví muita gente ruim fazendo sucesso e muita gente maravilhosa pasando quase despercebida do grande público.
Eu não tenho a resposta pra isso, sinceramente acho que é o poder da mídia e do dinheiro que corrompe o gosto do povo.
O cara mais injustiçado do rock nacional pra mim se chama Bebéco Garcia, um guitar-man e compositor além de cantor, de primeiríssima qualidade. Nos anos 80 ele fazia parte de uma banda que se chamava "Garotos da Rua", que acabou tendo uma ou duas músicas tocando no rádio aqui na região sudeste. Um dia, eu na minha curiosidade musical e gosto pelo underground, comprei um disco desses caras, acho que foi em 1987 ou 1988... Fiquei fã na hora!
Mais tarde descobri que lá no sul eles tinham muitos fãs e levavam muita gente a seus shows, mas isso foi muito pouco pela genialidade desse cara!
Meu nenê Samuel foi fabricado ao som de "Meu coração não suporta mais" e "Eu já sei", que são músicas desse cara. Infelismente ele morreu de infecção generalizada contraida durante uma cirurgia em 2010.  Morreu quase anônimo nesse nosso país da "bunda".
Hoje resolvi fazer uma pequena homenagem aqui no meu blog pra esse cara que fez e faz parte de horas tão boas na minha vida!
Aqui em baixo tem um vídeo falando sobre a vida, carreira, e a obra desse cara, se você puder, tem muitos sites com links pra baixar seus discos. Procure por Garotos da rua e por Bebéco Garcia!
É o bom e velho rocknroll... Infelismente descriminado nesse país que não dá valor ao talento!


segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Heróis



Quando eu era criança, tinha três pessoas que pra mim, eram os caras! Um era o Peter Parker, o outro era o Jerry Lewis e o último era o Frank Poncherello. O Peter Parker, pra quem não sabe é o Homem-aranha, dããããã! Eu gostava dele porque ele não era chatão igual ao Super-homem que resolvia seus problemas sem esforço nenhum... O Homem-Aranha apanhava e sofria muito pra conseguir vencer seus inimigos. Isso sem contar que o Peter Parker era um durão na vida, trabalhava e estudava feito um camelo e ainda só se dava mal no final, eu adorava isso! Ficava esperando o gibi chegar na banca do seu Nicolau que todo mês separava o meu “O espetacular Homem-Aranha.” Inclusive a banca do seu Nicolau foi o primeiro lugar na minha vida em que eu abri uma “conta”, porque quando eu não tinha dinheiro ele deixava eu levar o gibi pra pagar depois.
O Jerry Lewis era um comediante que foi muito famoso no final da década de 60 até meados da década de 80. Seus filmes passavam na sessão da tarde, e quando passava, as ruas ficavam vazias de crianças, pois a molecada só saía de casa depois do fim do filme! Eu imitava o jeito idiota do Jerry Lewis conversar, rir e andar, até hoje quando dou risada, a minha se parece com a dele. Acho que foi uma herança dessas tantas imitações que acabou ficando.
Mais o cara que eu era mais fã, se chamava Frank Poncherello! Ele era um policial de um seriado que se chamava “CHiPs”, que tinha um enredo baseado em dois policiais que trabalhavam nas rodovias no que eles chamavam de “radio patrulha rodoviária.” Os dois policiais era John Bacher que era o cérebro, inteligente e cabeça pensante da dupla e o Frank Poncherello que era o meio burrão, meio doido, que resolvia as coisas sempre do jeito mais difícil, mas que era o engraçado.
O Poncherello morava num trailer, e eu me lembro até hoje de uma cena onde ele chegou em casa e com uma mão só, quebrou um ovo dentro de um copo e depois tomou o ovo cru! Ah... Eu não tive dúvidas, peguei um ovo e com minha mãozinha de criança penei pra quebrar com uma mão só! Acho que quebrei uns dez ovos, até acertar. Aí quando consegui tomei o ovo numa golada só... Vomitei na pia inteira!
Esses heróis da minha época de criança até que eram bons! Não tinham malícia, não usavam de violência, eram até meio bobos. Outro dia na TV eu assisti a um programa onde o repórter entrevistou umas crianças, e elas diziam que seus heróis eram os chefes do narcotráfico! Eu fiquei pensando nisso... Acabei chegando a conclusão que a culpa é mais uma vez dos pais, porque a criança de livre e espontânea vontade não vai torcer pro bandido, a não ser que esse bandido venha a lhe ser apresentado como mocinho! E quem é que tem que dar o discernimento pra criança e lhe ensinar o caminho certo?
Pais... Olhem com carinho com quem seus filhos andam, com quem eles conversam na internet, quem é o amiguinho dele e de onde vem, e principalmente apresente bons heróis e exemplos pro seu filho, senão ele pode acabar sendo seu inimigo também! Pois se você quiser reagir quando ele já estiver com a personalidade formada, talvez seja tarde demais.