domingo, 11 de dezembro de 2011

Fazer bem feito


Eu gosto de cozinhar. Na verdade eu sou um mestre cuca. Faço coisas absurdas e deliciosas. Minha esposa fala que na vida toda ela não conheceu ninguém que cozinha tão bem. Eu como sou bobinho acredito no que ela fala e no que as pessoas falam quando eu os convido pra uma jantinha ou um almoço de domingo.
Aqui vão duas hipóteses: Ou as pessoas falam pra agradar porque afinal eu os convidei e os elogios deles são apenas o exercício da boa educação, ou realmente elas gostam. Eu acho que gostam, porque no final não sobra nada!
Tem algumas pessoas que não gostam de cozinhar. Elas falam que dá trabalho, que detestam picar o alho, que não gostam do cheiro da cebola, que detestam mexer com a carne crua por causa do sangue, que escolher arroz dá trabalho, que lavar louça dá trabalho e que no final o resultado não é tão bom assim. Eu já acho o contrário! Adoro picar alho, cebola, pimenta, coentro, salsinha, escolher arroz, refogar o feijão, fritar um bife e no final o resultado acaba sendo bom. Mas aí é que está o "x" da questão. Eu faço porque gosto e tudo que a gente faz com gosto fica legal.
Esses dias eu fui num velório e ficamos de madrugada esperando o corpo que vinha de outra cidade chegar. Enquanto o corpo não chegava ficamos conversando com o porteiro do velório que é um senhor que tem mais de 40 anos que trata de arrumar corpos para serem enterrados. Ele contou que acha normal mexer com os defuntos e que tem prazer em arrumá-los direitinho no caixão. Ele fala que é a última imagem que os familiares vão ter daquela pessoa e que então é obrigação dele deixar a pessoa bonita e assim deixar essa imagem menos chocante. Puxa vida! Se fosse eu não tocaria no defunto pra arrumá-lo de jeito nenhum e a imagem que os familiares teriam do morto seria a pior possível... Entendeu? Tudo que é feito com amor e carinho fica mais gostoso, fica mais bonito, fica melhor.
Minha esposa fica brava porque eu gosto de fazer pratos sofisticados para as pessoas comerem mas quando é pra me agradar a melhor comida que você pode fazer é arroz, feijão, salada de tomate, bife e ovo frito com a gema mole! Se possível uns três ovos! Se você fizer com amor então... Hummmmmmm viro freguês!

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

Cheirinho de xibíu



Tem uns cachorros malandrões que estão rondando meu portão de novo e isso quer dizer que a Frida tá no cio mais uma vez.
Eu fiquei dando uma observada nos meliantes esses dias e notei uma coisa engraçada. Eles chegam até o portão, encostam o xibíu na grade, a Frida dá uma cheiradinha e depois encosta o dela, eles dão uma cheiradinha e pronto! Só falta eles falarem assim: - Puxa a quanto tempo não te vejo!
Outro dia uma veterinária na tv falou que esse ato dos cachorros cheirarem um o xibíu do outro quando se encontram é para eles se reconhecerem. Ela falou que o cachorro pode até esquecer da cara um do outro mas que do cheirinho do xibíu eles não esquece jamais! Podem passar anos, mas se der uma cheiradinha certamente vai reconhecer o colega, ou até o inimigo.
Eu achei engraçado, nojento e interessante esse negócio. Ainda bem que o nosso faro não é tão poderoso assim porque tem cada pessoa por aí muito mais fidido que a Frida. O bicho homem sem sombra de dúvida é o animal mais fidido desse nosso planetinha. Por acaso você já conversou com esse povo andarilho cachaceiro que anda pela rua sem tomar banho? Meu Deus do céu como são fididos!
E umas pessoas que tem "cc" e não usam desodorante de jeito nenhum e a gente fica com vergonha de falar que ela tá fididinha pra não chateá-la. Que terrível! Eu perdi uma amiga assim, mas pelo menos ela hoje não anuncia sua chegada a metros de distância.
Eu acho que se os cachorros cheirassem a homens eles iriam dar um outro jeito de se reconhecerem, talvez tirassem até RG ou CPF pra não ter que cheirar o xibiu um do outro, mas como eles são animais eles não fedem tanto assim.
Então meus amigos, como nós somos humanos, vamos tomar uns banhos a mais, passar um desodorantinho e um perfuminho porque isso não faz mal pra ninguém. Na verdade faz até bem... Para os outros!

terça-feira, 6 de dezembro de 2011

Limpem os túneis


 Todo dia era a mesma coisa, eles nem se lembravam mais qual foi o primeiro dia em que eles começaram a trabalhar naqueles tuneis. No começo o percurso era menor e os tuneis eram novos e fáceis de trafegar, mas com o passar do tempo o percurso só foi aumentando e os túneis cada vez mais foram ficando cheios de obstáculos.
O serviço deles era de vital importância nesse sistema. Eles tinham que levar oxigênio para o controle central e de lá esse oxigênio era distribuído para todos os órgãos por esses túneis.
O problema maior é que com o passar dos anos o gerente dessas instalações não tomou as devidas providências para manter os túneis limpos e fáceis de trafegar. O gerente deixou muito lixo se aglomerar nas paredes dos túneis e deixou-os infectar por produtos tóxicos e nocivos ao sistema. Assim os funcionários responsáveis pelo transporte de oxigênio estavam com muita dificuldade de fazer o seu serviço fazendo com que o comando central mandasse cada vez mais energia nos túneis tentando fazer com que o fluxo de oxigênio continuasse correspondendo as necessidades. O descaso com a malha de túneis era tanta que o controle central não estava conseguindo executar o processo e o sistema inteiro estava sofrendo... O setor responsável pela filtragem da água não filtrava direito e mandava impurezas para todos os lugares, o setor responsável pela renovação do oxigênio dos túneis não conseguia sugar e nem transferir esse ar para o sistema, o setor responsável pela inteligência do comando central e pela mecanização do todo começava a falhar e tudo estava entrando em colapso até que o sistema todo parou!
- Vamos tentar mais uma vez - falou o médico na ambulância!
- Carregando - falou o enfermeiro - pode colocar os eletrodos no peito dele, um, dois, três, lá vai!
O corpo estrebuchou e o coração deu sinais de vida.
- De novo - falou o médico!
- Um, dois, três... Lá vai!
O corpo estrebuchou de novo e o médico começou a fazer massagem no peito do paciente e respiração boca à boca. Conseguiram salvar o paciente. Ele foi internado na UTI. Quando saiu o médico lhe passou um regime, um plano de exercícios e alguns remédios. O médico falou que seu corpo estava muito descuidado e debilitado e que se ele não se cuidasse fatalmente não teria muitos meses de vida. Ainda dá pra recuperar só depende de você!
Assim as coisas foram melhorando para as celulas que eram os funcionários dos túneis. Agora eles poderiam levar oxigênio para todo o corpo e assim continuar a semear a vida. As placas de gordura foram sumindo das veias e o sistema conseguiu uma sobrevida melhor e com mais qualidade.

domingo, 4 de dezembro de 2011

Procura-se... o perdão



Rodrigo filho de Lucas estava desaparecido a três dias.Três penosos dias onde Lucas procurou por todos os lugares possíveis em que Rodrigo poderia estar. Procurou nos arrebaldes da escola, procurou nas praças vizinhas, procurou nas casas dos amigos, colocou no jornal, deu queixa de desaparecimento na polícia, falou na rádio e nada.
Durante essa busca um filme passava na cabeça de Lucas. Um filme sem diálogos onde ele via seu filhinho desde bebê, crescendo ficando menino, até agora adolescente. O curioso é que Lucas só via imagens do filho nesse seu filme. Ele não se lembrava de situações onde os dois estavam juntos. Ele não se lembrava de uma brincadeira entre os dois, de uma conversa de pai pra filho, de um abraço ou um beijo. Ele não se lembrava de nada disso.
No seu filme Lucas apenas se lembrava das vezes que deixou Rodrigo cêdo na escola e de vê-lo trancado no quarto à noite... Dos domingos Lucas não tinha lembrança de passeios, companheirismo, de amizade. Esse filme começou a lhe incomodar.
Finalmente apareceu a informação de que Rodrigo estaria na casa de um traficante. Lucas foi até lá buscar o filho. Quando Lucas entrou pela porta da "boca" pôde ver o seu menino deitado no chão, todo sujo, com a roupa mijada cheirando muito mal, com a camiseta dura de vômito e com os olhos em transe profundo.
- O que você quer aqui? - Perguntou o traficante.
- Vim buscar meu filho, aquele ali de camiseta amarela.
- Ele me deve 150 reais.
Lucas abriu a carteira, tirou os 150 reais, deu ao traficante que pegou colocou no bolso e falou: - Agora você vai até o seu filho e pergunta se ele quer ir com você, se ele acha que você é amigo dele, se ele é feliz lá na sua casa.
Essas palavras caíram como uma bomba na cabeça de Lucas que conseguiu claramente entender porque o filme que a três dias passava na sua cabeça não tinha diálogos entre ele e o filho.
- Meu filho - falou Lucas se aproximando de Rodrigo - eu não estou nervoso com você. Eu tenho consciência de que eu sou o maior errado entre nós. Eu nunca fui seu amigo porque achava que só trabalhando eu já estava fazendo minha parte e na verdade eu estava errado. Não vi você crescer, não vi você começar a ler, a andar, a namorar, não vi nada. Por favor, vem embora comigo pra casa que eu te prometo ser um pai de verdade de hoje em diante...
Rodrigo levantou os olhos marejados de lágrimas, pegou na mão que seu pai lhe estendia, se levantou e abraçados os dois foram pra casa.


sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

Cliente chato


- O senhor já foi atendido?
- Ainda não.
- Então pode pedir.
- Eu quero um chá mate gelado batido com limão e mel.
- A gente não tem isso aqui.
- Vocês tem chá mate?
- Temos.
- Gelado?
- Temos.
- Tem limão?
- Temos.
- E mel?
- Temos também.
- Então é só pegar tudo colocar no liquidificador, bater e colocar num copo pra mim.
- Nós não fazemos isso.
- Porque não fazem isso?
- Ordens da gerência.
- Você sabe quem eu sou?
- Sei...
- Sabe? Quem eu sou?
- Um cliente como todos os outros.
- Quem é gerente aqui?
- O Nicolau.
- Eu posso falar com ele?
- Ele não gosta de ser incomodado e não vai adiantar muito porque ele não vai ceder. Aqui a gente só vende o que tem no cardápio.
- Eu queria falar com ele.
- Ele não gosta de ser incomodado e não adianta que aqui a gente só vende o que tem no cardápio. O seu Nicolau sempre fala que cliente pensa que tem razão mas na verdade quase nunca tem razão. Ele ensinou a gente assim então não vai adiantar o senhor falar com ele.
- Dê esse cartão a ele e diga que eu estou aqui fóra e veja se ele pode me atender.
- Tá bom vai - falou a garçonete fazendo cara feia - vou levar pra ele.
Entrando pela porta fazendo barulho e pisando duro a garçonete parou em frente ao seu Nicolau e foi lógo falando: - Tem um cliente chato aí fóra que quer um chá mate batido com limão e mel e eu já falei pra ele que não adianta que a gente só vende o que tem no cardápio, ele não desiste e está insistindo a meia hora e agora quer falar com o senhor, mas eu já falei que não vai adiantar porque o senhor não dá moleza pra cliente chato então ele me deu esse cartão e falou se o senhor pode falar com ele.
Nicolau pegou o cartão, e arregalou os olhos começando a tremer.
- O que foi seu Nicolau parece que viu fantasma? - Perguntou a garçonete.
- É que esse aqui é o dono da franquia...