sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Paixão de maluco

João Pedro acordou, conversou com a familia, se despediu de todos e foi à casa de Irineu para que os dois ganhassem a estrada. Os dois amigos estavam com o ingresso na mão e tinham que viajar até o Rio para assistir a grande final do Campeonato brasileiro. Se tudo desse certo, com apenas 8 horas de viajem eles estariam adentrando o estádio pra ver seu time do coração o Brasilina futebol clube levantar mais um caneco!
O bairro do Jupiá acordou cedo neste domingo, alí ficava a séde do Intergalático futebol clube, o time que disputaria com o Brasilina quem seria o melhor do Brasil neste ano... O Intergalático tinha a seu favor o empate, se o jogo acabasse com igualdade no placar eles levariam mais uma taça pro seu abarrotado museu de tantas glórias e conquistas.
O time estava concentrado a dois dias, e mais unidos do que nunca eles lutariam até o fim pelo Birimbinha, massagista do clube a 20 anos que na antevéspera do jogo havia sido atropelado por um moto-taxista e estava agora internado na Santa Casa todo enfaixado com duas costelas e a clavícula quebrada. No dia anterior o time todo o havia visitado e prometido ganhar o campeonato para o amigo de tanto tempo e tanta dedicação aos atletas. Na verdade Birimbinha era um segundo pai para os jogadores, sempre pronto a ajudar e dar conselhos, sempre atento a fazer favores e por isso mesmo muito querido por todos.
Aos 45 minutos do segundo tempo dessa batalha épica onde Brasilina e Intergaláticos faziam a maior partida de suas vidas, Chiquinho pegou a bola na entrada da área, driblou Eduardo e de cara pro gol (na visão do juiz)  foi tocado no calcanhar por Emiliano e se atirou ao chão. O juiz Oscar de Moura não titubeou um segundo e apitou apontando a marca da cal!
- PÊÊÊÊÊNALTIIIIIIIIIIIII! - Gritaram todos locutores que transmitiam aquela final.
Armando estava no final da sua carreira, quando chegou ao Brasilina muita gente foi contra e falou que o presidente do clube estava maluco por ter contratado alguém tão rodado e que agora aos 38 anos nunca havia sido campeão de nada importante. Como poderia uma pessoa assim ser o maestro do meio campo da equipe e ainda levá-la ao tão sonhedo título? Mas Armando estava calando a boca de todos e estava sendo considerado o melhor jogador do campeonato.
Benedito era torcedor fanático do Brasilina desde os 15 anos de idade quando assistiu o time do seu coração despachar o grande Santos de Pelé e tudo mais com uma acachapante goleada de 6 a 0 e desse dia em diante resolveu que iria ser brasilinense e assim o fez. Todos os 8 filhos de seu Benedito seguiram o pai e hoje se reunem todos os dias de jogo pra torcer, gritar, sorrir e chorar pela paixão da familia. Só que agora o netinho do seu Benedito apareceu com tendências intergaláticas, o menino só fala no Intergaláticos e isso está tirando o sono de seu Benedito que fez um acordo com o netinho... Se o Intergalático ganhar do Brasilina nessa final o neto está liberado pra torcer por quem quizer.
Tirolês pegou a bola, colocou-a debaixo dos braços e se dirigiu para a marca do pênalti. Ele era o artilheiro do campeonato com 22 gols, mas em nenhum momento de sua carreira havia encarado um momento tão tenso e importante como esse.
Claudinha era torcedora fanática do Intergaláticos, era ela quem cuidava das bandeiras e das faixas da torcida "Leões fieis" que era a maior e mais maluca torcida que o time laranja e verde dos Intergaláticos tinha. Claudinha iria se casar neste domingo mas do meio do campeonato em diante o Intergaláticos atropelou os adversários e acabou chegando a grande final. Foi uma briga homérica entre Claudinha e seu noivo que ameaçou até largá-la de vez, mas quando viu que não tinha mesmo jeito resolveu adiar o casamento.
Os jornalistas falaram na beira do campo para o juiz Oscar de Moura que as tvs mostravam claramente que o Chicão havia se jogado e que não foi pênalti... Oscar de Moura que estava a um passo de ser escolhido o arbitro representante do Brasil para a copa do mundo ficou muito triste.  - Puxa vida - pensou Oscar - agora o pênalti já está marcado e não tem como voltar atrás. O jeito é torcer para o goleiro Fernando Inácio defender.
Se Fernando Inácio defendesse o Intergalático seria campeão, se o Tirolês convertesse o pênalti o Brasilina é que levaria o canéco.
O estadio estava dividido ao meio, metade laranja e verde e metade vermelho e azul, mais de 120 mil pessoas se acotovelavam espremidos e calados com olhos fixos no gramado, milhares de telespectadores estavam emudecidos olhando fixamente para suas tvs, outras milhares de  pessoas acompanhavam tudo com o radinho colado ao ouvido.
Seu Jorge estava com o coração disparado, dona Rute estava com tremedeira, dona Dirce estava estática, Juvenal levava a cerveja até a boca mas nem piscava seus olhos.
Tirolês colocou a bola na marca do pênalti, olhou para Fernando Inácio que apontava o lado esquerdo e gritava: - Chuta aqui que eu vou pegar, chuta aqui que eu vou pegar!
Birimbinha assistia tudo do seu quarto no hospital, do seu lado um torcedor adversário falava, que seria gol, os enfermeiros pararam de atender pra assistir ao pênalti.
Tirolês correu pra bola.
Enquanto corria olhava pra ver se Fernando Inácio dava pinta se pularia antecipadamente para algum lado.
Tirolês correu, parou com seu pé de apoio ao lado da bola e chutou... Enquanto a bola viajava vários corações viajaram junto e o momento seguinte certamente ficaria marcado na vida de muita gente, de tantas Claudinhas, Beneditos, Armandos, Antonios, Rodolfos, brasileiros, brasileiras, torcedores e torcedoras contra e a favor que amam essa paixâo de maluco chamada futebol!

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

O agenciador

Imagine uma pessoa falastrona e tentando ser simpática como um desses apresentadores de circo. Imagine ele com a cara e a risada sarcástica do Coringa. Agora imagine ele saindo das sombras e da penumbra e oferecendo algo bem pertinho do seu ouvido. Imagine ele oferecendo isso pra alguém que você ama muito, seu filho, seu irmão, sua namorada. Imagine que ao lhe fitar os olhos você percebesse algo de diabólico no olhar desse ser... Imaginou tudo isso? Então boa leitura.
  
- Olá rapaz, olá senhorita!
Bem vindos ao novo mundo.
Um mundo de alegrias, conquistas, status!
Olá rapaz, olá senhorita!
Eu lhes apresento aqui e agora o divertimento...
A saciedade de emoções, as luzes que piscam!
O desprendimento da realidade que lhes oprime.
Só uma pequenina porção dessa maravilha e você vai se transformar, vai ficar forte, àgil, destemido e corajoso.
Você vai deixar de ser triste e vai virar o super-homem!
Talvez dure até a noite toda!
Isso...
Talvez dure até a noite toda!
E não se preocupe meu rapaz, não se preocupe jovenzinha, pois quando o efeito acabar eu não os abandonarei!
Agora essa maravilha toda lhe custará bem pouco, depois poderá lhe custar a eternidade, hahahahahahaha! Mas me responda.
Quem lhe garante que existe eternidade? Hahahahahahaha. Bem vindos ao novo mundo!

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Seleção de lentas



- Aí lá pelo meio da boate vinha a seleção de lentas!
- Seleção do quê?
- Seleção de lentas...
- O que é isso?
- Era uma seleção de mais ou menos umas 12 músicas lentas onde a gente aproveitava pra chamar as meninas pra dançar.
- E pra quê isso? Dançar musica lenta?
- Pra xavecar as meninas e quem sabe dar uns beijos, ou pedir pra levar ela embora...
- Xavecar?
- É... Se apresentar pra ela, conversar com ela, e quem sabe depois dar uns beijos.
- Tinha que falar o nome pra beijar?
- Lógico que tinha, ela tinha que te aprovar, as vezes beijavamos 2 ou 3 meninas por mês dependendo da sua habilidade de se vender na hora da seleção de lentas!
- Duas ou três por mês? E ela tinha que te aprovar pra poder beijar?
- Lógico pô! E aí você pedia pra levar ela embora...
- Pra quê?
- Porque era aí que você tinha oportunidades a mais... Quem sabe ela começava a gostar de você e começava um namoro, ou quem sabe se ela tivesse telefone marcaria pra vocês saírem durante a semana.
- Não entendi. "Se" ela tivesse telefone?
- É lógico... Um telefone valia o mesmo que uma casa popular ou um carro, as pessoas ricas tinham mais de uma linha telefônica e alugavam como se aluga uma casa hoje em dia...
- E quando é que você e essa menina tranzavam?
- Quando ela tivesse confiança em você, depois de você levá-la em casa algumas vezes...
- O senhor levava as meninas na casa dela e nem rendia nada?
- As vezes se a menina fosse fácil ia render lá pela terceira vez que vocês saíam...
- Se a menina fosse fácil!
- É... mas tinha várias meninas fáceis, se você fizésse tudo certo dava pra tranzar com uma por mês ou a cada dois meses...
- Ah tio... Larga de bobeira... O senhor quer me falar que levava as meninas em casa a pé e nem rendia nada, que tinha que converssar e levar ela no papo pra poder beijar e "pedir" pra levar ela em casa, isso tudo numa coisa absurda que se chama "seleção de lentas", e que só tranzava uma ou duas vezes por mês! E que marcava "encontros" por telefone "se" a menina tivesse telefone porque valia o preço de uma casa! Hahahaha, tio como o senhor é engraçado... E ainda acha que eu vou acreditar numa estória boba dessas, hahahahahahaha.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Saber viver


         

 Ela chegou da rua exausta, trabalhou o dia inteiro na casa da dona Ester. Lavou, passou, secou, limpou, enquanto dona Ester fazia um chazinho com as amigas para passar com mais alegria as horas enormes que o dia lhe trazia.
 Ela passou pela varanda com o balde enquanto dona Ester e suas amigas pareciam não lhe enxergar, ela passou pela varanda com a vassoura, com o rodo, com a roupa suja, com o sabão em pó, com sua dignidade ferida pois em nenhuma das vezes ninguém nem olhou pra ela... Nem lhe ofereceram chá, afinal ela não deveria gostar pois seu paladar não era acostumado com essas coisas...
Seu dia era curto e ao contrario das horas de dona Ester, seus minutos corriam e seu relógio lhe lembrava a cada instante que seu marido e seu filho chegariam as seis horas do serviço,  e as sete e meia o menino teria que entrar na escola já jantado e com sua roupa passada e agora ela lembrava que a roupa dele ainda estava no varal! "Deus ajude que não chova..."
Ela passou mais umas vezes pelas animadas e cheias de chá amigas de dona Ester quando ouviu uma delas falar em como era chato a serviçal da casa ficar passando pra lá e pra cá bem na hora do chá! Ela engoliu a seco e num breve instante teve vontade de voltar e falar um monte de coisas para essa infeliz... Mas tudo bem, o que lhe interessava no momento era o dinheiro do final do dia.
- Olha aqui o seu dinheiro – falou dona Ester olhando pra ela – acho que não vou precisar mais dos seus serviços, eu não gostei das suas idas e vindas perto das minhas amigas...
- Mas o que a senhora queria que eu fizesse se a sua varanda fica no meio do caminho entre a casa e a lavanderia?
- Bom como eu disse eu não vou mais precisar dos seus serviços.
Ela foi embora cansada, humilhada e feliz... Passou no açougue comprou meio quilo de carne moída e um quilo de músculo, passou no mercadinho e comprou cebola, cenoura e batata, passou no bar do seu Zé e comprou uma Tubaína... Valeu a pena trabalhar hoje!
Ela chegou da rua exausta, trabalhou o dia inteiro na casa da dona Ester. Lavou, passou, secou, limpou e chegou em casa finalmente. Chegou na casa onde era tratada com carinho pelo marido, com amor pelo filho, com festa pelo cachorro e como gente pelas vizinhas. Ela fez um picadinho de cenoura com carne moída, fez um feijãozinho novo, um arroz branquinho e junto com sua família jantou alegremente. Depois ela e o marido conversaram sobre o dia, juntos arrumaram a casa e esperaram felizes o filho voltar da escola... A vida dela era assim, triste e revoltante em alguns momentos mas muito feliz no restante do dia, afinal ela se amava e não desistiria da felicidade nunca!

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Lei dos homens


- Chamô dotô?
- Chamei sim Chico.
- O que o sinhô tá pricisanu?
- Quero que você faça um serviço pra mim!
- Póde falá dotô, o sinhô sabe qui eu faço tudo que o sinhô mandá...
- Quero que você reúna os melhores jagunços da cidade e vá com eles lá na divisa da minha fazenda com a fazendo do seu Augusto, entrou um bando de sem terras lá e botaram fogo na roça, mataram algumas cabeças de gado e roubaram uns cavalos...
- Ué dotô, eu vim de lá inda agórinha e ví esses sem terra lá, mas eles não fizero essas coisa não, eles táo inté mais do lado do seu Augusto e nem entraro na vóssa fazenda...
- Eu sei Chico, mas se eles não fizeram aínda eles certamente vão fazer.
- Mas dotô, não é mió esperá eles fazê arguma coisa primêro?
- Não Chico póde ir que eu quero a limpeza agora!
- Mas como é qui nóis vai explicá a mortandade desse povo?
- Se os sem terras sumirem é só falar que foi o seu Augusto que mandou matar... Mas não me desafie Chico, porque se você sumir em nem preciso explicar nada pra ninguém...
- Dotô?
- Que foi Chico?
- O sinhô acha que uns quinze jagunço já dá pra fazê o serviço?




Esse texto foi escrito a uns 15 anos e hoje eu reencontrei ele no meio de uns papéis aqui em casa. Infelismente ele ainda é tão atual...